Mudança climática mata sustento de mulheres

Posted on 06 December 2011 by admin

Nalifu Yussif segura cestas bolga na COP 17, que acontece em Durban, África do Sul, de 29 de novembro a 9 de dezembro. Crédito: Isaiah Esipisu/IPS

Isaiah Esipisu

Durban, África do Sul, 6/12/2011, (IPS) – Talata Nsor, originária da comunidade de Bolgatanga, norte de Gana, passou boa parte de seus 54 anos tecendo cestas típicas da região. Contudo, ultimamente está muito difícil conseguir matéria-prima. 

Esta atividade foi rentável para Nsor no passado, pois lhe permitiu inclusive pagar a escola dos filhos. Agora, se produz cada vez menos cestas do tipo bolga, famosas na África ocidental e vendidas em mercados da Europa e América, porque o material utilizado, conhecido como erva de elefante, se extingue devido à mudança nas condições climáticas.

“Há dez anos caminhava até o pântano mais próximo e cortava a fibra sem custo algum. Agora, preciso ir muito longe ou mesmo chegar até Kumasi, a cerca de 400 quilômetros, para comprá-la”, contou Nsor. A erva de elefante só cresce em pântanos, que agora a população da região utiliza para cultivar e paliar a insegurança alimentar diante da falta de chuvas.

“As pessoas preferem transformar os pântanos em hortas diante do fracasso da agricultura dependente da chuva”, disse Nafisatu Yussif, oficial de programa da Abantu, organização que promove políticas com perspectiva de gênero na África. “As chuvas já não são confiáveis e as pessoas precisam cultivar em áreas onde a irrigação seja garantida”, acrescentou.

Nafisatu Yussif é uma das muitas representantes de comunidades rurais de todo o mundo que conseguiram chegar até esta cidade sul-africana para fazer ouvir sua voz na 17ª Conferência das Partes (COP 17) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que começou dia 29 de novembro e terminará no dia 9. “Recebemos diferentes mulheres de diferentes áreas”, disse Samantha Hargreaves, da ActionAid Internacional, uma das organizadoras da Assembleia de Mulheres Rurais, que acontece de forma paralela à COP 17.

“Mais de 500 mulheres neste fórum compartilham experiências de diferentes países sobre como seguir em frente e mostrar as melhores práticas. O resultado da assembleia será apresentado ao Grupo Africano de Negociadores como posição comum das representantes dos países mais pobres”, explicou Hargreaves.

Segundo as participantes, as mulheres de países pobres enfrentam dificuldades semelhantes. “Em meu país as mulheres trabalham duro na horta, e na hora de colher os homens assumem a responsabilidade de receber o dinheiro. Acabo de saber que o mesmo acontece na África e em outros países asiáticos”, disse María Estela Jocón González, que representa as camponesas de três regiões da Guatemala propensas a inundações, fenômeno que se agravou nos últimos tempos.

“Quando há inundações, os poços se enchem de água suja. Segundo nossa cultura, é responsabilidade da mulher garantir água suficiente para beber e outros usos domésticos”, disse González à IPS. Esta ativista pede à comunidade internacional reunida em Durban que garanta a implementação de sistemas para conter as crescentes inundações. “Quero ouvir que os países se comprometem em reduzir as emissões de gases contaminantes. É bom pensar no desenvolvimento, mas não tem sentido sem um meio ambiente são”, acrescentou.

Enquanto há inundações na Guatemala, faltam chuvas no sul do Senegal. Faty Khody, da comunidade rural senegalesa de Kaulak, disse à IPS que as chuvas nessa região baixaram de 900 milímetros em 2001 para 300/400 milímetros atualmente.

“Costumávamos cultivar verduras para vender no mercado local. Mas já não é possível, a menos que tenhamos irrigação”, afirmou Khody, oficial de promoções da Interpench, uma organização que reúne mais de 7.700 camponesas senegalesas. “O padrão de chuvas mudou, as secas são mais acentuadas e quando chove há inundações, que causam sofrimento na população rural, especialmente mulheres e crianças”, destacou.

Com apoio da organização não governamental Horizon 3000, a Interpench lançou o projeto “Uma mulher, uma árvore frutífera”, como forma de adaptação à mudança climática. “Dizemos uma árvore porque é o primeiro passo, entrega-se o almácigo gratuitamente para plantar o primeiro, que recebe o nome de quem planta, como recordação. A ideia é motivar as mulheres a participar, não só plantando uma árvore, mas que esta seja frutífera”, explicou Khody.

“Esperamos que os debates na COP 17 concluam com ideias que apoiem iniciativas femininas de adaptação à mudança climática”, insistiu Hargreaves. Entretanto, para que esses projetos tenham sucesso, devem ter por base os sistemas de conhecimento indígenas, ressaltou. “O Grupo Africano de Negociadores não deve sucumbir diante da pressão dos países ricos na COP 17”, afirmou.

“A maioria das negociações acontece em salas de reuniões sem envolver as pessoas comuns”, concordou Elizabeth Kakukuru, oficial de programa da Unidade de Gênero da Comunidade de Desenvolvimento da África austral. “No entanto, as recomendações elaboradas devem ser implementadas por camponesas. Chegou a hora de as partes afetadas participarem de forma direta destas importantes negociações”, prosseguiu. No tocante à transferência de tecnologia para adaptação à mudança climática, Kakukuru disse que todos os projetos devem ser apropriados e desenvolvidos em consulta com as comunidades indígenas. Envolverde/IPS (FIN/2011)

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