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Golpes, pela paz

Posted on 01 February 2011 by editor

Israelenses e palestinos combatem a intoler√Ęncia no ringue. Cr√©dito: Pierre Klochendler/IPS TerraViva

Pierre Klochendler

Jerusalém, Israel, 28/1/2011, (IPS) РO sinal ecoa por todo o abrigo antibombas convertido em clube de boxe, na parte ocidental de Jerusalém.

Um pugilista palestino salta rapidamente saindo de seu corner, movimenta-se pelo ringue e troca golpes com seu oponente israelense. Em meio a uma cidade etnicamente dividida, este recinto é bem mais do que uma anomalia.

Escondidos sob a terra, israelenses e palestinos compartilham o mesmo amor por um esporte dif√≠cil de ser associado √† paz, toler√Ęncia e coexist√™ncia. Judeus e √°rabes, religiosos e seculares, imigrantes russos e trabalhadores estrangeiros, mo√ßos e mo√ßas, todos treinam no Clube de Boxe de Jerusal√©m, trocando golpes no ringue e aprendendo a abster-se de dar socos na vida.

Dois deles lutam com frequ√™ncia no lugar. √Ä direita, o meio peso Ismail Jaafari, caminhoneiro de 36 anos de Jabel Muqabber, bairro palestino na ocupada Jerusal√©m oriental. √Ä esquerda, o peso leve Akiva Finkelstein, judeu de 17 anos, estudante de um semin√°rio religioso, residente no assentamento israelense de Beit El, na ocupada Cisjord√Ęnia e a mais nova estrela do clube, pois h√° pouco tempo venceu o campe√£o europeu. ‚ÄúDentro do ringue somos todos boxeadores, e n√£o importa de onde viemos‚ÄĚ, disse Akiva. ‚ÄúAqui somos todos iguais, sem importar qual a nossa religi√£o ou qual o nosso povo‚ÄĚ, acrescentou Ismail.

Na frente do clube est√£o os irm√£os Eli e Gershon Luxemburg. ‚ÄúTodo ser humano tem um lado ruim. Por isso existe hostilidade e viol√™ncia‚ÄĚ, explica Eli, o mais velho. ‚ÄúAlgu√©m l√™ not√≠cias sobre a situa√ß√£o nos jornais e se exalta. Depois vem aqui e pratica. Dentro do ringue, coloca para fora toda sua raiva‚ÄĚ, resume. ‚ÄúMas, jogar limpo √© uma obriga√ß√£o. Ningu√©m vem aqui acertar contas‚ÄĚ, acrescenta Gershon, o mais novo. ‚ÄúN√≥s observamos estes rapazes muito de perto. Se um deles luta com √≥dio, √© expulso. Aceitamos somente o esp√≠rito de luta. Os boxeadores devem ser soldados e cavaleiros. T√™m de se respeitar entre si‚ÄĚ, acrescenta.

Os Luxemburg obtiveram suas credenciais de boxe no come√ßo dos anos 1960 na ex-Uni√£o Sovi√©tica, ambos na categoria peso pesado. Eli foi duas vezes campe√£o sovi√©tico e Gershon campe√£o do Uzbequist√£o. ‚ÄúQuando crian√ßas, tivemos que aprender boxe para nos defendermos dos ataques antissemitas. Foi pura sobreviv√™ncia‚ÄĚ, recorda Eli. Em 1972, rec√©m-chegados a Israel, Gershon foi v√°rias vezes campe√£o indiscut√≠vel do pa√≠s, convertendo-se em fervoroso nacionalista. ‚ÄúAntes de come√ßar a treinar outros lutadores, pensava que os √°rabes eram um obst√°culo para n√≥s neste pa√≠s, e que n√£o poder√≠amos viver juntos. Mas o boxe nos uniu‚ÄĚ, assegura.

Ismail treina no clube desde os 14 anos, e j√° atuou como √°rbitro em torneios israelenses. Para ele, ‚Äúo esporte n√£o tem fronteiras. Colocamos as luvas e deixamos a situa√ß√£o pol√≠tica fora do ringue‚ÄĚ. √Č mais f√°cil falar do que fazer: durante os piores anos do conflito, Ismail se manteve afastado para evitar encontros inc√īmodos com outros membros do clube. ‚ÄúA quem importa a situa√ß√£o pol√≠tica. Estamos aqui. Somos mais do que amigos, eles s√£o como uma fam√≠lia‚ÄĚ, afirmou.

Em Jerusal√©m, israelenses e palestinos vivem vidas separadas, paralelas. Casa e educa√ß√£o separadas, aspira√ß√Ķes pol√≠ticas separadas, tudo contribui para uma crescente aliena√ß√£o m√ļtua. No clube, al√©m da paix√£o pelo boxe, o que parece unir estes israelenses e palestinos √© seu contexto social. A maioria procede de bairros pobres, incentivados pelos Luxemburg para criar uma alternativa √† vida de rua para os mais jovens, Ismail abriu um clube de boxe em sua pr√≥pria comunidade. Os lutadores treinados por ele conquistaram coloca√ß√Ķes importantes nos acampamentos palestinos.

Outro palestino, Git Zakhalka, lidera uma se√ß√£o de aquecimento, trotando pelo ringue, seguido por jovens israelenses aspirantes a boxeadores. Akiva reconhece que, al√©m dos limites seguros do clube, n√£o se encontra com palestinos. O boxe o mudou. ‚ÄúAntes, pensava que os √°rabes eram est√ļpidos, terroristas‚ÄĚ, admite, envergonhado. ‚ÄúMas conheci palestinos aqui e todos s√£o legais. Somos amigos. Este √© um grande lugar para adquirir certa perspectiva. Se ou√ßo um amigo falar mal dos √°rabes, digo: voc√™ n√£o conhece os √°rabes, eu conhe√ßo‚ÄĚ, afirmou.

Ao soar a campainha, termina outra sess√£o de treinamento. Akiva e Ismail se cumprimentam amistosamente. Em tempos b√≠blicos, Davi e Golias lutaram at√© a morte, disse Akiva. Por outro lado, ‚Äúaqui fazemos s√©ries e ganhamos pontos‚ÄĚ, acrescentou. Marcar pontos em s√©ries de combate √© exatamente o que israelenses e palestinos fazem h√° quase 63 anos. O gongo os salvar√°? ‚ÄúH√° guerra, mas tamb√©m h√° vida. Podemos lidar com isto‚ÄĚ, disse Gershon. Envolverde/IPS

(FIN/2011)

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