Greves de fome alimentadas pela surdez institucional

Posted on 29 October 2010 by admin

Mulheres eletricistas mexicanas durante a greve de fome que fizeram. Crédito: Daniela Pastrana/IPS.

Daniela Estrada

Santiago, Chile, 29/10/2010, (IPS/TerraViva) РDe prisioneiros a governantes, todos recorrem desde o ano passado a greves de fome em defesa de suas posi̵̤es e demandas na Am̩rica Latina.

Por trás do uso cada vez mais intenso deste protesto radical está a falta de respostas institucionais, segundo especialistas.

Já não é apenas um recurso extremo usado preferencialmente por pessoas presas. No último ano, operários, camponeses, indígenas, empresários, estudantes, religiosos, legisladores, juízes, jornalistas e professores deixaram de ingerir alimentos voluntariamente em países da região governados por diversas cores políticas.

Na Bolívia, o próprio presidente, o indígena aymara Evo Morales, recorreu ao jejum em abril de 2009, para pressionar pela aprovação de uma lei. A rejeição a outra levou 30 jornalistas a entrarem em greve de fome este mês, durante 14 dias, na cidade boliviana de Santa Cruz. Na Costa Rica, um grupo de ambientalistas se mantém, desde o dia 8, sem comer diante da sede da Presidência, em protesto contra um decreto nacional que permite a exploração a céu aberto da mina de ouro Crucitas, no norte do país.

“Em dez anos, nunca recebemos uma resposta do Estado”, disse à IPS Cristian Flores, porta-voz de 11 moradores da localidade de Caimanes, na região chilena de Coquimbo, como explicação para a greve de fome que o grupo iniciou no dia 27 de setembro para exigir o fim de um local de lavagem de minerais. Neste mesmo país, governado desde março pelo direitista Sebastián Piñera, terminou no começo deste mês outra greve, de mais de 80 dias, protagonizada por cerca de 30 prisioneiros mapuches que pedem julgamentos justos.

Embora não seja um fenômeno novo, as greves de fome são “sintomas de algo mais grave, de que há setores da população da América Latina que estão invisíveis, que há certos atores que não estão sendo ouvidos”, disse à IPS José Santos, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Santiago do Chile. Filósofo e acadêmico, José descartou que estas medidas de pressão pacíficas tenham virado “moda”, e distinguiu entre greves de fome indefinidas e jejuns por tempo limitado para apoiar determinada causa.

Em 23 de julho, cerca de 20 integrantes do Sindicato Mexicano de Eletricistas, metade mulheres, encerraram um jejum que durou entre 90 e 34 dias, parte de uma longa luta para recuperarem seu emprego após o fechamento de uma estatal na capital do país. O protesto terminou quando o conservador presidente, Felipe Calderón, aceitou criar imediatamente uma mesa de diálogo de alto nível para atender as demandas dos ex-trabalhadores da Luz e Força do Centro, diante da grave deterioração de alguns dos grevistas.

Para o codiretor do não governamental Observatório Cidadão do Chile, José Aylwin, as greves de fome neste país podem ser explicadas pelas “sérias limitações” que o Estado tem para garantir o “exercício dos direitos políticos” da população. Em particular, a vigência do “sistema eleitoral binominal que exclui das decisões legislativas não apenas os povos indígenas, como também diversas correntes de opinião e de pensamento”, além do “controlado acesso aos meios de comunicação”, disse à IPS.

Cuba e Venezuela contabilizam falecidos por jejuns. Na Venezuela “a greve de fome deixou de ser um recurso dos presos e foi utilizada por trabalhadores do setor petroleiro e outras indústrias em mãos do Estado, bem como outros setores sociais”, disse à IPS Marino Alvarado, coordenador do Programa Venezuelano de Educação-Ação em Direitos Humanos (Provea).

Em julho de 2009, o prefeito metropolitano de Caracas, o opositor Antonio Ledezma, permaneceu 130 horas em jejum protestando contra a retirada de atribuições de seu cargo pelo poder central. E, em outubro, foi a vez dos estudantes que protestaram contra o governo de Hugo Chávez. O religioso jesuíta José María Korta, de 81 anos, usou o mesmo recurso entre os dias 18 e 25 deste mês, para pressionar pela libertação de três indígenas yukpa e pelo respeito aos direitos à justiça e à terra dos povos originários da Venezuela.

Até agora, o único venezuelano que morreu por esta causa, no dia 30 de agosto, foi o produtor agropecuário Franklin Brito, de 39 anos, após ficar mais de oito meses sem ingerir alimentos, reclamando contra seus oprimidos direitos em uma propriedade no Estado de Bolívar, após anos realizando jejuns. “Os protestos não só aumentaram em número, como em qualidade, está se radicalizando e coordenando, e as pessoas cada vez mais desafiam o Estado” venezuelano, disse Marino.

Em Cuba, esta forma de protesto se restringe à dissidência do governo de Raúl Castro, que age sem reconhecimento legal e seus representantes são qualificados de “mercenários” a serviço da política hostil dos Estados Unidos. Segundo o projeto independente Archivo Cuba, desde 1959 até hoje, morreram 12 presos por greve de fome. Os grevistas pedem melhores condições na prisão, reconhecimento de seus presos políticos e que sejam postos em liberdade.

Orlando Zapata, de 42 anos, morreu na prisão em 23 de fevereiro, após mais de 80 dias de jejum. “O governo, deliberadamente, deixou Orlando morrer. Era uma morte anunciada”, afirmou à IPS Elizardo Sánchez, líder da Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional. O governo rechaçou qualquer responsabilidade. O opositor Guillermo Fariñas é conhecido internacionalmente por seus reiterados jejuns. No dia 24 de fevereiro, após a mote de Zapata, iniciou uma greve de fome em sua casa, na cidade de Santa Clara, pela libertação de 26 presos doentes, encerrada no dia 8 de julho após o início de um processo de libertação.

Os jejuns são “um recurso legítimo diante de situações limites aos quais recorrem as minorias raciais, de gênero ou outro tipo”, disse Elizardo, para quem “continuarão acontecendo greves de fome enquanto as pessoas carecerem de outros recursos para defesa de seus direitos. “A greve de fome, expressão de desespero e protesto cívico na qual se arrisca a saúde e a vida, é um sinal de que se tranca o jogo entre governantes e governados, de que as petições das pessoas não conseguem solução e frequentemente nem respostas institucionais. É um sintoma pernicioso e perigoso para a sociedade”, disse Marino. Envolverde/IPS

* Com colaborações de Humberto Márquez (Caracas) e Patricia Grogg (Havana). (FIN/2010)

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