Cam McGrath
Cairo, Egito, 4/2/2011, (IPS TerraViva) – A revolta popular iniciada por jovens no Egito contra o regime de Hosni Mubarak ganhou proporções históricas, e agora muitos deles se perguntam quem o substituirá se finalmente conseguirem derrubá-lo.
“No começo só pensávamos em como tirar Mubarakâ€, disse o ativista Seif Abdallah, que se considera um muçulmano moderado. “Queremos eleições livres e justas, mas temos medo, tanto cristãos quanto muçulmanos, de tirar um ditador para substituÃ-lo por um Estado islâmico como o Irãâ€, acrescentou.
Organizações populares como Kefaya, Movimento Juventude 6 de Abril e o Dia da Ira, celebrado em 25 de janeiro, são reações a décadas de governos opressivos, à corrupção e à miséria absoluta, disse Mina Rizqallah, ativista e advogado da União de EgÃpcios por um Pensamento Liberal. Mina é favorável à s reclamações, mas teme que um governo islâmico radical surja do confuso panorama polÃtico que reina no Egito.
“Os organizadores dos protestos querem a saÃda de Mubarak, mas não têm claro como a história continuaráâ€, afirmou o advogado à IPS. “Empregam palavras vazias como democracia e liberdadeâ€, acrescentou. “Foi uma democracia que levou os nazistas ao poder na Alemanha e o Hamas em Gaza, e pode ocorrer o mesmo aqui com a Irmandade Muçulmanaâ€, ressaltou Mina. Fundada em 1928, esta organização é a maior e mais organizada força de oposição e defende um Estado baseado na shariá (lei islâmica).
Esta organização proscrita renunciou à violência nos anos 1970 e optou pela participação polÃtica, mas seus membros são frequentemente detidos e enviados à prisão. Candidatos da Irmandade Muçulmana, que se apresentaram como independentes nas eleições legislativas de 2005, obtiveram 88 cadeiras, cerca de 20%, no parlamento. O êxito sem precedentes foi de curta duração. Após o governo usar de uma artimanha, a organização não conseguiu nenhuma cadeira nas eleições de 2010, marcadas pela violência e consideradas fraudulentas pelos observadores.
A Irmandade não começou a revolta popular, atribuÃda a jovens egÃpcios, a maioria laicos, mas será a primeira a se beneficiar for alcançada uma mudança polÃtica. “A oposição é fraca, está dividida e não tem experiênciaâ€, explicou Moustafa Kamel el-Sayed, professor de ciências polÃticas da Universidade do Cairo. A Irmandade Muçulmana é a única organização com quantidade de gente capaz de assumir o controle polÃtico, disse, lembrando que, “no caso de haver eleições, será a que terá maior influênciaâ€.
A possibilidade de uma organização islâmica poder assumir o governo levou alguns manifestantes a repensarem sobre sua determinação de expulsar Mubarak já. “Estive na Praça Tahrir desde o começo, dia 25 de janeiro, mas agora tento convencer meus amigos a não continuar e aceitar a promessa de Mubarak de deixar o poder em setembroâ€, afirmou a universitária Amina Ghanem. “Precisamos de mais tempo para fortalecer a oposição com vistas à s eleições, do contrário a Irmandade Muçulmana obterá uma grande maioriaâ€, acrescentou.
Os cristãos coptos, que são 10% dos 82 milhões de habitantes, estão especialmente nervosos quanto ao futuro polÃtico do paÃs. Seu temor tem base nos últimos episódios de violência sectária no Egito e os repetidos ataques contra igrejas no Oriente Médio, cometidos por organizações islâmicas. Uma igreja na cidade de Alexandria foi bombardeada no Ano Novo, o que custou a vida de 23 pessoas e ferimentos em mais de uma centena. A Irmandade Muçulmana condenou o ataque, cometido – segundo as autoridades – por grupos vinculados à rede extremista Al Qaeda no território palestino de Gaza.
O destacado empresário copto Naguib Sawiris expressou sua preocupação de que o Islã polÃtico cresça à custa do mal-estar que reina no Egito. “O movimento não foi manipulado por polÃticos. É uma mobilização juvenil e faremos o que pudermos para garantir que as forças religiosas radicais que querem nos levar de volta à Idade Média não se aproveitem delaâ€, acrescentou.
A Irmandade Muçulmana “ficou à margem†do levante, mas sua participação foi vital para o êxito da Marcha do Milhão, no Cairo, realizada no dia 1º, disse a analista polÃtica Dina Shehata. A organização mobilizou suas bases para a manifestação histórica. Seus partidários pediam a saÃda de Mubarak e distribuÃam panfletos nos quais diziam que “o Islã é a soluçãoâ€.
A organização também não apresentou nenhum presidenciável, o que a deixaria exposta, segundo analistas. Entretanto, apoiou Mohammad el Baradei, ex-diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica e bem visto pela imprensa ocidental. Baradei é um reformista laico e liberal, mas reconheceu que o apoio da Irmandade Muçulmana é crucial para reunir votos, especialmente entre os mais pobres. “São conservadores do ponto de vista religioso, mas estão dispostos a trabalhar em um Estado com sociedade civilâ€, disse Baradei, ganhador do Nobel da Paz. Envolverde/IPS
(FIN/2011)















