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Solidariedade ibérica
Mário Soares*

Lisboa, Portugal, março/2012, (IPS) - Nossos dois Estados ibéricos passam por um esplêndido período em suas relações, independentemente dos governantes que os dirigem.

Após a Revolução dos Cravos, em 1974, e da transição democrática espanhola desde 1975, as relações entre Espanha e Portugal mudaram profundamente, para melhor. Hoje são fraternais e afetivas entre os povos dos dois Estados, que compreenderam que a confiança reinante é extremamente útil para ambos.

Pelo contrário, os dois ditadores Francisco Franco e Antônio Salazar nunca abandonaram a desconfiança que sempre houve entre eles, apesar da ajuda permanente que Salazar proporcionou a Franco durante a Guerra Civil Espanhola.

Por essa razão, em 1977, o primeiro-ministro espanhol Adolfo Suárez e eu, então primeiro-ministro português, substituímos o Pacto Ibérico por um Tratado de Amizade e Cooperação, que continua vigente ainda hoje.

Portugal, país com quase nove séculos de história com as mesmas fronteiras, não perdia nada de sua identidade por tornar-se um amigo sincero da Espanha. Muito pelo contrário. Como é sabido, nossa adesão à CEE, hoje União Europeia, ocorreu no mesmo dia, 12 de junho de 1985. E mais tarde, em 16 de novembro de 2000, aderimos ao euro, ao mesmo tempo e por razões semelhantes.

Salta à vista que um bom entendimento político, no contexto europeu e da Ibero-América também, é de enorme utilidade para os dois Estados. Assim como a relação com o Mediterrâneo, com os países do Norte da África e, muito especialmente, com os de sua faixa ocidental: Tunísia, Argélia, Marrocos e Mauritânia.

Curiosamente, ao longo dos últimos 38 anos, sempre em democracia, os dois Estados foram governados com frequência por partidos política e ideologicamente próximos e seus respectivos governantes também foram, muitas vezes, da mesma cor política.

O Partido Socialista (PS) português e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) ambos socialistas democráticos na primeira fase; o Partido Social Democrata (PSD) português e o Partido Popular (PP) espanhol, ambos direitistas na segunda, com algumas intermitências.

Nos últimos anos, de crise aguda, voltaram PSOE e PS com Rodríguez Zapatero e José Sócrates e, recentemente, após as últimas eleições, são PSD, de Pedro Passos Coelho, e PP, de Mariano Rajoy, que estão à frente dos dois governos.

Note-se que, havendo concordância de signo político, ou não, as relações entre os dois Estados, ambos democracias assentadas, sempre foram excelentes. Contudo, nunca fomos capazes de manter, nestes anos de crise aguda, uma voz comum, ou, ao menos, em concordância, para sabermos nos impor, no contexto europeu, com força suficiente para sermos ouvidos.

Nas reuniões dos conselhos europeus, e nas sucessivas cúpulas, com pouca relevância, os dirigentes de nossos dois Estados optaram pelo silêncio ou, quando muito, limitaram-se a defender, sem antes se colocarem de acordo, seus respectivos interesses nacionais. Suponho que foi um erro, que as circunstâncias atuais exigem que seja corrigido. O momento político europeu, tão difícil, assim aconselha.

Espanha e Portugal, com suas respectivas histórias, ambas gloriosas, têm um peso político, cultural e econômico enorme, que não deve ser menosprezado, nem pelos governos, nem pelos partidos da oposição, porque ambos devem demonstrar um autêntico senso da responsabilidade a serviço de seus respectivos Estados. É o momento para compreender, nos dois lados, a importância de atuar em uníssono, em um momento de grave crise como o que vivemos.

Mariano Rajoy, tão logo foi eleito, viajou a Portugal e manteve uma longa conversação com seu colega português, Passos Coelho, a quem cobriu de elogios.

O atual governo de Portugal pretende ser um bom aluno da chanceler alemã Angela Merkel e mantém excelentes relações com a “troika”, que, com sua política de austeridade a todo custo, está impondo cortes assassinos que afetam uma parte muito considerável de sua população. O mal-estar social, o profundo descontentamento, a criminalidade e a economia paralela são o que temos visto crescer mais nos últimos meses.

Rajoy não falou de maneira crítica na Cúpula Europeia de Bruxelas. Mas no dia seguinte anunciou, inesperadamente, que a Espanha aumentaria o déficit de 4,4% para 5,8%, para não provocar mais perigosas manifestações de descontentamento popular. Bruxelas e Merkel ficaram furiosas, afirmando que essa medida contraria os desejos de Bruxelas e representa um grande descrédito para a Espanha.

O líder da oposição espanhola, Alfredo Pérez Rubalcaba, com lucidez e senso comum, disse, pelo contrário, que “a Espanha segue por um bom caminho”. Também creio nisso.

As chamadas políticas de austeridade, por si só, são contraproducentes, como a evolução dos últimos meses demonstra, tanto na Grécia como em Portugal, e em outros países como Itália e França. Provocam aumento da recessão, crescimento do desemprego até extremos inaceitáveis, desenvolvimento da economia paralela e cria um profundo mal-estar na sociedade. Em outras palavras: isoladamente nada resolvem, como demonstram os países onde são aplicadas, que vão de mal a pior.

Os governantes e a oposição que pensam assim, tanto na Espanha quanto em Portugal, devem levantar suas vozes em comum contra este estado de coisas. Representaria um grande serviço para o Ocidente, antes que a União se veja empurrada para o abismo, como já alertavam Helmut Kohl e Helmut Schmidt. Envolverde/IPS

* Mário Soares foi Presidente e primeiro-ministro de Portugal. (FIN/2012)

 
Terramérica - Meio Ambiente e Desenvolvimento
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