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O oeirento Rio Limpopo
Fidelis Zvomuya

Beitbridge, Zimbabué, 03 de abril de 2012, (IPS) - Chapita Ramovha lembra-se do tempo em que o Rio Limpopo chegava ao pé da sua aldeia no sul do Zimbabué.

Diz que nessa altura os residentes da aldeia de Makakavhule tinham de construir muros altos para proteger as casas das cheias. “Era maravilhoso observar o rio Limpopo, era uma beleza natural, uma fonte de alimento e de rendimento para nós que vivíamos nas suas margens,” explicou este agricultor de subsistência.

Mas agora, quando olha para a paisagem, vê apenas um planato vasto e arenoso desprovido de vida natural. “Poeira,” lamenta Ramovha, que vive nesta área desde 1942. “Não é nada mais do que um rio de poeira.”

Anteriormente, a agricultura e o turismo prosperavam nesta região ao longo the Rio Limpopo. A zona era bem conhecida pelos seus belos lagos e vastos campos, que produziam produtos agrícolas locais. “Mas esse meio de vida está agora a ser ameaçado por uma grave escassez de água que ilustra de forma dramática uma crise regional generalizada,” afirma Ramovha.

A Bacia do Rio Limpopo é uma das áreas onde existe mais pressão sobre a água e, de acordo com a Organização da Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, ocorrem sempre na bacia secas extremas cada 10 ou 20 anos.

A bacia tem uma zona de captação de cerca de 413.000 km² que cobre quatro países – Botsuana, Moçambique, África do Sul e Zimbabué – afectando uma população total de 14 milhões de pessoas, a maior parte das quais são agricultores de subsistência. Cerca de 244.000 hectares estão sob irrigação e perto de 234.000 hectares são usados para a produção de colheitas, enquanto que outros 1.7 milhões de hectares são usados para pastagens.

Porém, devido à má gestão ambiental, só cepos de árvores descarnadas marcam as margens do rio. As pessoas abateram as árvores que anteriormente criavam enseadas irregulares ao longo do rio, que sempre acolheu caranguejos, peixes e animais selvagens.

“Mas nos poucos pontos de água desta parte do rio dificilmente se consegue apanhar uma rã. O rio desapareceu e o assoreamento ocupou toda a zona. As chuvas não são fiáveis. Chegam tarde e por vezes não chegam a cair,” conta Ramovha.

Diz ainda que as temperaturas diárias aumentaram substancialmente na região e fizeram desaparecer muitas das verdes pastagens outrora luxuriantes da bacia, privando o gado e os animais selvagens do seu alimento natural e do seu habitat.

Timothy Chauke, agricultor e assistente de campo contratado junto do Conselho da Investigação Agrícola do projecto da Bacia do Limpopo orientado para a recolha de dados, afirma que a seca se tornou a questão ambiental mais comum e devastadora de todas as que afectam a bacia.

Chauke, criador de gado e agricultor, acrescenta que o impacto se está a fazer sentir a nível económico, social e ambiental.

“As chuvas irregulares e instáveis querem dizer que a época chuvosa muitas vezes não começa quando se espera e pode ser pontual, visto que a chuva que devia cair durante toda uma temporada ocorre em poucos dias.”

Chauke diz que nos últimos anos se tem verificado uma redução da qualidade das pastagens e da produção agrícola, causando um declínio da qualidade de vida e dos rendimentos.

“A insegurança alimentar é agora elevada. Os casos de subnutrição e fome estão a aumentar. A produtividade na minha exploração agrícola desceu de cinco toneladas de milho por hectare para menos de três. O nosso ambiente natural foi destruído e isso está a afectar a produtividade,” conta Chauke. Adianta que o custo dos insumos também aumentou ao longo dos anos.

A maioria dos agricultores entrevistados pela IPS ao longo do Rio Limpopo diz que os níveis da água baixaram drasticamente em resultado da subida das temperaturas diárias.

Numa altura em que deve ser a época de chuvas, a seca está a matar as colheitas. A resultante poeira e as tempestades de areia aumentaram a erosão do solo e a poluição do ar, ao mesmo tempo que a produtividade do solo decresceu.

“Estamos perante uma realidade marcada por solos pobres e recursos hídricos limitados. A maior parte dos rios que alimentam o Limpopo tem água só durante curtos períodos de tempo durante o ano,” assevera Chauke.

A poluição e a competição pela água nas áreas ao longo do rio criam uma pressão significativa sobre os recursos disponíveis. A pobreza é generalizada e as pessoas estão extremamente vulneráveis aos efeitos da seca ou da quebra da produção agrícola. Cada um dos 24 afluentes que alimentam a bacia tem comunidades com um rendimento anual per capita inferior a 200 dólares.

A fome e a subnutrição tornaram-se ocorrências comuns. Actualmente, cerca de um milhão de pessoas na bacia está dependente de ajuda alimentar.

Ao dirigir-se ao Terceiro Fórum Internacional Sobre Recursos Hídricos e Alimentação em Dezembro na África do Sul, o Dr. Simon Cook, cientista junto do Centro Internacional de Agricultura Tropical e director do Programa Challenge da CIGAR para os Recursos Hídricos e Alimentação (CPWF) dos Projectos Fulcrais da Bacia, afirmou que se prevê que as alterações climáticas exacerbem as dificuldades em África com respeito aos escassos recursos hídricos e à a segurança alimentar.

Segundo Cook, a investigação confirma a previsão que a subida das temperaturas mundiais vai aumentar as cheias nalgumas áreas, causar um declínio na produção agrícola, ameaçar a biodiversidade e produtividade dos recursos naturais, aumentar o leque de doenças transmitidas por vectores e pela água, e agravar a desertificação.

Como parte de um projecto de investigação mundial com a duração de cinco anos, os cientistas do CPWF examinaram os efeitos potenciais das temperaturas mais elevadas e da mudança dos padrões de precipitação causados pelas alterações climáticas nas cinco bacias hidrográficas do continente, entre outras. Durante este processo, surgiram alguns cenários preocupantes nalgumas regiões africanas.

Durante uma entrevista telefónica à IPS, Cook afirmou que as preocupações se centravam nas mudanças previstas na Bacia do Limpopo, que incluem a subida das temperaturas e o declínio da precipitação.

Cook disse ainda ser necessário que os investigadores se interroguem se as presentes estratégias de desenvolvimento agrícola no Limpopo, que se baseiam nos actuais níveis de disponibilidade de água, são de facto uma realidade num futuro que pode apresentar novos desafios e diferentes oportunidades.

Num recente comunicado de imprensa, o Director do Programa dos Recursos Hídricos e Alimentação do CPWF, Alain Vidal, afirmou que novos conhecimentos sobre o impacto das alterações climáticas nas bacias hidrográficas podiam indicar a necessidade de reexaminar os pressupostos acerca da disponibilidade da água.

Vidal afirmou que o Rio Limpopo, tal como acontece em muitos rios em todo o mundo, é fortemente afectado pelas temperaturas mundiais mais elevadas.

“Nalgumas partes do Limpopo, mesmo a adopção generalizada de inovações como a irrigação por gotejamento poderá não ser suficiente para ultrapassar os efeitos negativos das alterações climáticas sobre a disponibilidade de água,” acrescentou Vidal.

“Mas noutras regiões, os investimentos feitos na agricultura alimentada pela chuvas, como a recolha de águas pluviais, sabreiras e pequenos reservatórios podem constituir uma solução mais eficaz, visto que pode haver chuvas suficientes para que estratégias inovadoras aumentem a produção. O importante é obter a informação necessária para tomar uma decisão informada.”

(FIN/2012)

 
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