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Mutilação genital feminina
Uma prática difícil de erradicar
Kerry Kennedy*

Washington, Estados Unidos, abril/2012, (IPS) - “Está louca, Fauziya?”, perguntou Cecilia. “O que é isso de querer voltar para Togo?”.

Cecilia Jeffrey, também natural desse país, não podia acreditar no que ouvia. Sua amiga e companheira de quarto Fauziya Kassinja lhe confessara estar disposta a parar com sua luta para ser a primeira mulher na história dos Estados Unidos a obter asilo político para evitar a mutilação genital feminina em seu país.

A fim de convencer a amiga a mudar de ideia, Cecilia lhe mostrou como seu corpo mudou para sempre quando teve suas genitais mutiladas no Togo. Mais tarde Fauziya contou que Cecilia conseguiu confrontá-la com a possibilidade de que o mesmo acontecesse com ela. “Me disse: se dá conta do que é isto e que também poderão provocar em você?”.

“Eu nunca vira algo assim. Cecilia teve praticamente extirpadas as características externas dos genitais. Não se via mais do que uma cicatriz, uma sutura, e apenas um pequeno orifício. Foram arrancados os lábios da vulva e o clitóris, e a deixaram mutilada para sempre. Fiquei horrorizada e perguntei como pode viver assim”, descreveu Fauziya. “Cecilia respondeu que sofre cada vez que vê suas genitálias mutiladas e chora, grita por dentro sua dor e se sente fraca e derrotada”, contou a amiga.

Mais de 140 milhões de meninas e mulheres sofrem, contra sua vontade, terem sua roupa de baixo tirada, serem obrigadas a abrir as pernas e terem cortadas brutalmente as partes externas das genitais com pedras afiadas, facas, tesouras, aparelho de barba ou outros cruéis instrumentos. Raramente com anestesia.

A maior parte das vítimas dessa horrenda prática sofre atrozes dores e hemorragias e em caso de gravidez têm complicações que frequentemente levam à morte. Também é comum contrair HIV/aids ou hepatite devido à utilização de instrumentos sem esterilização. As sobreviventes sofrem de estresse pós-traumático, depressão ou outros problemas psicológicos. A cada dia, oito mil meninas, com idade entre duas semanas de vida e 15 anos, correm o risco de serem vítimas de mutilações ou cortes dos genitais.

Graças aos esforços de mulheres apoiadas por organizações não governamentais, governos e as Nações Unidas estão fazendo algum progresso.

Milhares de comunidades da África e do Oriente Médio decidiram acabar com a mutilação genital feminina. Legisladores comprometidos aprovaram leis que a tornam ilegal. Graças aos esforços de muitos países africanos e da Itália, que há muito tempo é líder na luta contra essa prática, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da Assembleia Geral da ONU, se conseguiu que essa luta seja uma prioridade.

Contudo, há muito por fazer. Faltam mais médicos que eduquem os pacientes sobre os prejuízos causados pelo corte genital. Segundo a ONU, as vítimas correm maior risco de recorrer a uma cesariana ou a uma episiotomia em seus partos e de sofrerem hemorragia pós-parto. Tanto a mortalidade materna quanto a infantil é mais frequente nas mães que sofreram mutilação.

É necessário que mais líderes e militantes convençam as comunidades a se comprometerem a acabar com essa prática. Líderes religiosos que pregam contra a mutilação em suas igrejas ou mesquitas provocam significativos progressos. Na verdade, há uma crença comum de que a mutilação tem uma origem religiosa, embora seja mentira que esteja citada na Bíblia ou no Alcorão.

Os profissionais da saúde devem desautorizar a prática e se recusar a realizá-la nos hospitais. Há uma preocupante tendência nas últimas décadas à “medicalização” da mutilação genital feminina.

Uma melhor cobertura dos meios de comunicação poderia ter um papel importante. Televisão, rádio, jornais e revistas, bem como as artes, incluindo música, teatro e outras expressões, têm um impacto positivo na campanha para eliminar a mutilação genital feminina.

A ilegalidade implica a desaprovação do Estado, permite que se compense as vítimas e que se responsabilize pelo crime de violência aqueles que o cometeram. É dissuasivo para quem pratica e dá legitimidade a quem busca abandonar essa prática. Envolverde/IPS

* Kerry Kennedy é presidente do Robert F. Kennedy Center for Justice and Human Rights. (FIN/2012)

 
Terramérica - Meio Ambiente e Desenvolvimento
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