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Esse mar intranquilo que desafia Cuba
Patricia Grogg

Havana, Cuba, 12/4/2012, (IPS) - Um dos maiores desafios de Cuba na hora de definir pol√≠ticas de adapta√ß√£o √† mudan√ßa clim√°tica √© preservar seus ecossistemas costeiros, diante do previsto aumento do n√≠vel do mar e fen√īmenos hidrometeorol√≥gicos mais intensos.

Jorge Luis Ba√Īos/IPS
Com mais de 5.500 quil√īmetros de costa e quatro mil ilhas √† flor da √°gua e ilhotas, nesta na√ß√£o insular do Caribe √© dif√≠cil encontrar algu√©m que n√£o sinta sua vida presa ao mar, de um modo ou de outro.

‚Äú√Č lindo, mas tem seus perigos‚ÄĚ, disse Teresa Marcial, de 78 anos, moradora na localidade costeira de Santa F√©, na periferia norte de Havana. Ela vive h√° d√©cadas com a √°gua marinha quase lambendo o quintal de sua casa. Em 2005, uma inunda√ß√£o causada pelo furac√£o Wilma deixou sua fam√≠lia, e outras da √°rea, virtualmente na rua. ‚ÄúEnormes ondas varreram tudo. Foi de surpresa. A √°gua levou um arm√°rio pesad√≠ssimo que desapareceu‚ÄĚ, contou √† IPS.

Seu filho, Mart√≠n P√©rez Marcial, contou que j√° decidiram vender essa casa e mudar para um lugar menos perigoso. ‚ÄúImagine, com essa coisa de os pr√≥ximos furac√Ķes poderem ser mais intensos devido √† mudan√ßa clim√°tica, ningu√©m quer viver por aqui‚ÄĚ, disse um vizinho da fam√≠lia. A poucas ruas dali, alguns pedreiros trabalham na constru√ß√£o de uma casa que se eleva a mais de dois metros do ch√£o, aproveitando parte de uma resid√™ncia antiga e de fortes colunas. ‚ÄúEm caso de inunda√ß√£o a √°gua vai circular por baixo da edifica√ß√£o‚ÄĚ, disse o chefe da obra, Jos√© Luis Mart√≠nez.

A parte de tr√°s do im√≥vel, que √© constru√≠do por ‚Äúesfor√ßo pr√≥prio‚ÄĚ ‚Äď como se chama em Cuba o empreendimento privado nesta mat√©ria ‚Äď, est√° cercada por um muro de concreto maci√ßo com pedra dura. ‚ÄúAssim se economiza cimento. N√£o leva a√ßo, que oxida com o tempo‚ÄĚ, explicou Mart√≠nez. Este pedreiro mostrou que em sua parte inferior os muros de conten√ß√£o possuem uns ‚Äúaliviadores‚ÄĚ para a drenagem, que deixam que a √°gua retorne. Os cantos dos muros se assemelham √† proa de um barco ‚Äúpara romper as ondas‚ÄĚ. V√°rias casas da √°rea t√™m barreiras semelhantes. ‚ÄúPara isso √© preciso ter muito recurso‚ÄĚ, alertou P√©rez Marcial.

Santa F√© est√° em risco permanente de inunda√ß√£o por causa dos furac√Ķes. Estudos oficiais situam esta localidade entre as √°reas costeiras da capital que enfrentam o impacto direto destes fen√īmenos extremos e, embora em menor magnitude ou de ‚Äúmodo parcial‚ÄĚ, tamb√©m poderia ser afetada pela eleva√ß√£o das √°guas marinhas.

Carlos Rodr√≠guez Otero, pesquisador em ordenamento territorial e meio ambiente do governamental Instituto de Planejamento F√≠sico (IPF), situa em 577 os assentamentos humanos que podem sofrer o embate combinado de aumento do n√≠vel do mar, supereleva√ß√£o pelas ondas e surg√™ncia associada aos furac√Ķes. Surg√™ncia √© um fen√īmeno oceanogr√°fico que consiste na eleva√ß√£o vertical de massas de √°gua do leito marinho para a superf√≠cie.

Em entrevista √† IPS, Otero disse que at√© 2050 poder√° ficar submersa uma √°rea de 2.550 quil√īmetros quadrados da costa cubana, segundo um estudo conjunto de v√°rias institui√ß√Ķes cient√≠ficas locais, o IPF entre elas, encabe√ßadas pelo Minist√©rio de Ci√™ncia, Tecnologia e Meio Ambiente. Em 2100, ‚Äúessa superf√≠cie aumentaria para 5.600 quil√īmetros quadrados, segundo o cen√°rio de eleva√ß√£o do n√≠vel do mar para nosso litoral‚ÄĚ, alertou o especialista.

Dos 577 assentamentos identificados como vulner√°veis, 262 possuem √°reas situadas a menos de um metro acima do n√≠vel do mar, no primeiro quil√īmetro de terra adentro desde a linha da costa. ‚ÄúS√£o os que estamos conceituando como assentamentos costeiros por sua sensibilidade‚ÄĚ, explicou Otero. A sensibilidade define o grau em que um sistema natural ou humano se perturba pelas altera√ß√Ķes clim√°ticas.

Por sua vez, desses 262, 122 podem ser afetados de diferentes formas apenas pela eleva√ß√£o do n√≠vel do mar, com perda permanente de superf√≠cie, edifica√ß√Ķes, redes e servi√ßos. ‚ÄúCom esses assentamentos √© preciso adotar desde j√° medidas de regula√ß√£o e adapta√ß√£o concretas‚ÄĚ, afirmou.

Independente das medidas que forem adotadas, se dá como certo que 15 assentamentos humanos estariam destinados a desaparecer em 2050 e outros sete em 2100. Estes deverão ser realocados, ou protegidos segundo suas características e interesses, embora, em geral, se trate de lugares de escassa população residente, pois são basicamente praias de recreação, nas zonas mais baixas da costa.

Otero insistiu que tamb√©m devem ser previstas a√ß√Ķes de adapta√ß√£o para as √°reas impactadas pela combina√ß√£o da eleva√ß√£o do n√≠vel do mar e a sobreleva√ß√£o que pelas ondas e pela surg√™ncia ocorrem nas √°reas costeiras. Neste caso, a adapta√ß√£o deve se voltar para a redu√ß√£o da vulnerabilidade dos im√≥veis, criar planos de prote√ß√£o, recuperar e implantar sistemas de drenagens, e realizar obras imprescind√≠veis para preservar a popula√ß√£o, entre outras medidas.

‚ÄúAl√©m disso, todo novo investimento, todo plano em √°reas costeiras de nosso pa√≠s deve considerar obrigatoriamente estas proje√ß√Ķes. H√° 20 anos n√£o t√≠nhamos, como agora, o conhecimento sobre estes temas. N√£o podemos reproduzir as vulnerabilidades, mas reduzi-las e aprender a viver com o risco‚ÄĚ, acrescentou Otero. Para este profissional, adaptar-se em termos de urbanismo significa aplicar solu√ß√Ķes de reacomoda√ß√£o na mesma localidade, a localiza√ß√£o de instala√ß√Ķes leves em espa√ßos p√ļblicos em √°reas de maior vulnerabilidade, em assentamentos e cidades j√° existentes e a redu√ß√£o da densidade de constru√ß√£o e de habitantes.

√Č preciso ter em conta o traslado de parte das edifica√ß√Ķes para zonas mais altas, elevar as constru√ß√Ķes no pr√≥prio lugar e conseguir que os novos projetos incluam desde sua concep√ß√£o o uso de materiais mais resistentes e tetos mais seguros, que possam enfrentar a a√ß√£o conjugada de chuvas, ventos e surg√™ncias.

‚ÄúTamb√©m h√° solu√ß√Ķes de engenharia como diques de conten√ß√£o, embora estas obras sejam mais caras‚ÄĚ, sugeriu Rodr√≠guez, recordando que em todo o Caribe insular √© preciso se preparar para o aumento das temperaturas, secas recorrentes e d√©ficit de √°gua, entre outros grandes desafios derivados da mudan√ßa clim√°tica. ‚ÄúEm Cuba, os maiores riscos se concentram nas zonas costeiras e na por√ß√£o oriental do pa√≠s‚ÄĚ, ressaltou.

Em sua opini√£o, Cuba pode oferecer √† regi√£o caribenha sua coopera√ß√£o em todas estas √°reas. ‚ÄúTer os recursos humanos preparados, o conhecimento, uma sociedade organizada e vontade pol√≠tica, facilita a abordagem dos problemas e a identifica√ß√£o de solu√ß√Ķes poss√≠veis de se desejar, mesmo com nossas limita√ß√Ķes econ√īmicas‚ÄĚ, ressaltou Rodr√≠guez. Envolverde/IPS (FIN/2012)

 
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