Crise na Síria chega a povoados libaneses
Mona Alami
Qaa, Líbano, 16/4/2012, (IPS) - Poucos quilômetros separam as localidades
libanesas de Ersal e Qaa da fronteira com a Síria.
Ambas lutam para não serem arrastadas ao conflito no
vizinho país.
A instabilidade aumentou na região ao longo das
semanas. As duas localidades também foram
afetadas pelos bombardeios intermitentes por parte
do exército sírio. A situação continua tensa apesar
do novo cessar-fogo.
Fontes oficiais do Líbano agora denunciam
incursões do exército sírio em Masharii Qaa, zona
urbana na fronteira constituída por Ersal, povoado
de maioria sunita, e Qaa, de maioria cristã. Ersal
apoia a oposição Síria, enquanto os moradores de
Qaa a veem com ceticismo. A proximidade com a
Síria converteu a região em um esconderijo ideal
para os que fogem da violência nesse país,
afetando a vida diária dos dois povoados.
Nas duas últimas semanas a fronteira norte do
Líbano foi alvo de intensos ataques com morteiros
pelo exército da Síria. No final da semana passada,
o cinegrafista Ali Shaaban, da televisão nacional
libanesa New TV, foi assassinado em Wadi Khaled.
"Ersal está nos causando problemas porque apoia
os terroristas sírios", disse Saadegh Toum, ex-
prefeito de Qaa, que garante que a localidade
vizinha abriga membros do rebelde Exército Livre
Sírio (ELS).
No entanto, em Ersal os residentes negam estar
apoiando diretamente os opositores ao regime do
presidente Bashar al Assad. "Não há membros do
ELS na região", assegurou Abu Wadi, ativista sírio
que administra uma clínica clandestina no Líbano e
é responsável por uma rede de trens subterrâneos
na região. "O único apoio que damos à oposição
síria é com kits de primeiros socorros,
medicamentos e comida. Não levamos nem
trouxemos nada de contrabando pela fronteira na
última semana", acrescentou.
Entretanto, nesse povoado, a poucos quilômetros
da açoitada cidade síria de Homs, a oposição a
Assad estabeleceu uma base no que antes era um
negócio de conserto de computadores. O local se
parece mais com um escritório de uma organização
não governamental. Mulheres sírias entram e saem
pedindo ajuda humanitária. Há um mês, um
caminhão saía a cada dois dias carregado com 200
pães para um destino secreto em Homs.
"Entregávamos aos oficiais do ELS sua ração diária
de pão", contou um morador do povoado que pediu
para não ser identificado.
Por sua vez, um oficial do exército libanês afirmou
que,"desde o começo do levante na Síria, Masharii
Qaa se converteu em um abrigo de
contrabandistas, sem importar sua filiação política".
O militar participou há duas semanas da prisão, no
Vale de Bekaa, de dez homens que tentavam entrar
com armas, granadas e morteiros na Síria. Em
Ersal, tanto os residentes como os refugiados
sírios desejam fortemente que derreta a neve da
cadeia montanhosa na fronteira.
"Até agora, nossa única ligação com a Síria é
através de Masharii Qaa, fortemente vigiada pelas
forças sírias e libanesas. Assim que derreter a neve
poderemos ter acesso a Rif Dimashk, um subúrbio
de Damasco. Será impossível ao exército controlar
essa situação", advertiu Ahmad, outro sírio que
fugiu de seu país.
A tensão entre os residentes de Qaa e seus
vizinhos em Ersal também se reflete na falta de
conexão dessas duas localidades com o governo
central. Segundo Mohamad Ezzedine, funcionário
da prefeitura de Ersal, as únicas entidades que
distribuem ajuda humanitária na região são
organizações islâmicas financiadas por Arábia
Saudita e Catar. A Comissão Libanesa de Resgate,
encarregada de atender os refugiados, não tem
presença em Masharii Qaa, embora esteja ativa na
região de Wadi Khaled, norte do país.
Segundo o ativista libanês Abou Mohamad Ali
Oueid, há cerca de 185 famílias sírias refugiadas
em Ersal. "A maioria se hospeda com famílias
locais, mas ficam mais tempo do que o esperado
porque a crise continua. Não temos outra solução a
não ser colocar barracas em nossas propriedades
particulares, já que o governo se nega a instalar um
acampamento adequado", acrescentou. O problema
vai se agravando por uma série de tentativas de
sequestro, por parte de combatentes pró-sírios, de
ambulâncias que transportam refugiados para os
hospitais, disse o ativista pelos direitos humanos
Nabil Halabi.
Dentro da própria Ersal, localizada em uma área
que antes apresentava a mais alta taxa de pobreza
do Líbano, as tensões aumentam porque os
refugiados sírios começam a ocupar postos de
trabalho na agricultura e na construção. Os sírios
"estão dispostos a trabalhar por meio salário, e isto
agrava as tensões e é uma fonte adicional de
pressão em uma região já muito tensa", ressaltou
Oueid.
Envolverde/IPS (FIN/2012)
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