Argentina descobre a África
Marcela Valente
Buenos Aires, Argentina, 17/4/2012, (IPS) - Sob a bandeira da cooperação Sul-Sul, a Argentina
se lançou a consolidar seus laços com a África,
começando por países de sustentado crescimento
econômico, como Angola e Moçambique, mas
também com outros de menor desenvolvimento.
O FO-AR opera dentro da Direção Geral de
Cooperação Internacional do Ministério das
Relações Exteriores. Boriosi acompanhou em
março o chanceler argentino, Héctor Timerman, em
sua viagem a Angola e Moçambique. Na prática
esta visita foi uma prévia da viagem que a
presidente Cristina Fernández realizará em maio a
Angola.
Timerman foi recebido pelos mandatários dos dois
países e destacou, na oportunidade, que essa
primeira visita oficial de um chanceler argentino às
duas nações refletia "uma mudança de modelo e
um novo olhar sobre o mundo". Boriosi explicou
que, por razões históricas, até há alguns anos os
países da África tinham mais relação com suas ex-
metrópoles (França, Grã-Bretanha e Portugal).
Agora estão mais dispostos a se relacionar com a
América Latina, acrescentou.
O interesse é comum. Em entrevista à IPS o
especialista em relações internacionais Javier
Surasky, professor da Universidade Nacional de La
Plata, recordou que o Brasil já iniciou, "com êxito,
um processo de projeção para a África de língua
portuguesa". Esta estratégia foi impulsionada
fortemente pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, que viajou dez vezes à África e visitou 20
países. Este laço foi mantido mesmo depois de
passar o cargo a Dilma Rousseff.
Essa aproximação foi fundamental na designação
do primeiro latino-americano à frente da
Organização das Nações Unidas para a Agricultura
e a Alimentação (FAO), o brasileiro José Graziano
da Silva, que ao assumir o cargo este ano
prometeu priorizar o combate à fome na África. O
objetivo brasileiro é "liderar o mundo de fala
portuguesa, algo que já conseguiu deslocando
Portugal dessa posição", disse Surasky,
especialista em temas de cooperação Sul-Sul.
Boriosi disse que a Argentina "compartilha o
interesse" de maior aproximação com a África, mas
esclareceu que o vínculo que procura "não tem a
intensidade" do brasileiro, "por razões culturais". A
ideia é colocar "a Argentina como uma cooperante
de nível global", ressaltou. Tradicionalmente, na
Argentina a cooperação Sul-Sul se centrava em
países da região. Esse eixo se mantém como o
principal, destacou Boriosi, mas agora a política de
ajuda mútua se ampliou para a África e o sudeste
da Ásia.
Novos projetos vão se consolidando na China,
Tailândia, Indonésia, no Laos ou Camboja, em
áreas tão diversas com agricultura, comércio,
fortalecimento da governabilidade ou direitos
humanos. Neste novo cenário, os esporádicos
projetos de cooperação que havia com a África nas
décadas de 1980 e 1990 começaram a ganhar
maior relevância e, sobretudo, agora passam a
estar acompanhados de uma vontade de
aproximação e conhecimento mútuo.
A chancelaria "gera a oportunidade do vínculo,
marca a agenda, planta a semente", definiu Boriosi,
depois, se necessário, "se dá um novo empurrão" à
relação com uma viagem como a liderada pelo
ministro. A visita a Angola teve um acentuado
cunho comercial. Timerman foi acompanhado por
cerca de 300 empresários e foram identificadas
áreas de cooperação em temas de desenvolvimento
econômico.
No caso de Moçambique, também houve
aproximação de órgãos técnicos da Argentina, que
podem dar assessoria e cooperação aos seus
pares nesse país, como o Instituto Nacional de
Tecnologia Agropecuária. Paralelamente, outros
Ministérios, com ou sem apoio financeiro do FO-
AR, também vão consolidando seus próprios
vínculos. Neste ponto, houve contatos da pasta da
Defesa com a África do Sul e da Agricultura com
esse país e o Quênia. Boriosi afirmou que a
cooperação também objetiva países do Magreb, na
faixa norte da África, e a Nigéria, onde já se
trabalha com a Organização Mundial da Saúde em
capacitação técnica para campanhas contra a
poliomielite.
Para Surasky, "esta aproximação com a África faz
parte de uma política externa argentina que busca
reforçar seus laços com outros países do Sul, uma
posição que no ano passado lhe deu a presidência
do Grupo dos 77", atualmente formado por 130
membros, incluída a China. a cooperação Sul-Sul
foi um dos eixos centrais do programa de ação
apresentado por Buenos Aires para ganhar a
presidência anual do grupo que, desde 1964,
representa os interesses do mundo em
desenvolvimento nos fóruns das Nações Unidas.
Os motivos do atual interesse argentino na África e
na Ásia fazem parte, segundo Surasky, da
"vocação do governo para consolidar poder desde o
Sul". Para este especialista, "não menos
importante é que resulta em um exercício reativo
diante da política externa do Brasil". Além disso,
"existe a necessidade de ampliar mercados frente à
retração de países desenvolvidos, em razão da
crise. O mercado dos países ricos da África é
extremamente atraente para algumas empresas
argentinas", afirmou.
De todo modo, Surasky expressou dúvidas quanto
ao longo prazo. "Embora hoje a vocação argentina
de se projetar na África seja clara, minha dúvida é o
que acontecerá com o tempo com uma política
externa que nas últimas décadas se caracterizou
pelas descontinuidades". Envolverde/IPS (FIN/2012)
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