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CUBA
Em busca do glamour perdido
Leonardo Padura*

Havana, Cuba, julho/2012, (IPS) - Enquanto a Europa se desfaz em meio a uma crise que arrasa com os pequenos negócios, afeta os grandes e empobrece os cidadãos, Cuba, país que ao longo de 20 anos se especializou em viver na crise, parece que começa a se recompor e, ao fazê-lo, até recupera parte do esfumaçado glamour que alguma vez a caracterizou.

sto não significa que na ilha do Caribe as coisas tenham evoluído muito nos últimos tempos em relação ao que tem sido sua realidade de meio século de socialismo vivido. Porque, nem as "atualizações do modelo econômico", como foram batizadas, nem as mudanças "nas mentes" reclamadas pelo presidente Raúl Castro foram tão profundas ou contundentes a ponto de se poder falar de uma situação política ou econômica essencialmente diferente.

No campo político, a falta de uma verdadeira vocação evolutiva se observa em muitas manifestações, que vão desde as declarações públicas de que para sempre na História nada mudará no sistema político estabelecido, até a sobrevivência das tradicionais atitudes de sigilo a respeito da informação, criticadas pelo próprio presidente cubano.

Por exemplo, muito pouco se fala (ou escreve) sobre o surto de cólera ocorrido recentemente na zona oriental do país e, para os que têm memória, fica evidente que os cubanos estiveram muito mais informados sobre a epidemia de cólera no Haiti, depois do terremoto de 2009, do que sobre o que acontece no país com o surto da doença.

Tampouco se fala (ou escreve) sobre o destino do famoso cabo de fibra ótica estendido desde a Venezuela, que permitiria uma conexão de alta velocidade aos usuários cubanos, uma possibilidade tecnológica que terminou transformada em um mistério sobre o qual ninguém informa de seus postos oficiais.

Muito menos se diz (ou escreve) por parte das autoridades, ainda até hoje, sobre a prometida reforma das leis migratórias que aliviariam um pouco as absurdas regulações atuais, repletas de proibições e permissões necessárias para sair ou entrar no território nacional, para os viajantes cubanos radicados dentro e fora da ilha.

Entretanto, é evidente que no campo econômico, no nível mais elementar, produziram-se contrações e alterações que, inclusive, começam a ser visíveis em suas manifestações sociais.

Um caso revelador é a existência de uma lista comentada dos treze restaurantes privados mais recomendáveis de Havana, que, aparentemente, foi elaborada por uma jornalista britânica especializada nessas qualificações e relacionada com o conhecido GuidePal.

Nesses restaurantes privados, alguns abertos na década de 1990 e outros ao calor das recentes medidas de flexibilização da existência da pequena empresa privada, é possível degustar comida internacional, segundo dizem, de um nível louvável e em diversas modalidades e especialidades (curry e sushi incluídos), em ambientes exóticos, modernistas, típicos cubanos e até muito familiares, a preços que são mais do que atraentes para um bolso norte-americano, britânico ou mesmo europeu continental - apesar da crise.

Com pratos cujos preços rondam os 10 CUC, os pesos conversíveis cubanos (oito euros), um comensal pode ter nestes lugares uma agradável noitada, com cervejas ou até algum vinho incluído, preparados pelos melhores chefes da cidade, e atendido por jovens garçonetes, tudo pela módica quantia de aproximadamente 20 euros. Ou seja, algo como um salário médio cubano de todo um mês...

No entanto, como para demonstrar que as coisas não mudaram muito, existe, bem perto de alguns desses restaurantes privados refinados e de sucesso, um ainda gerenciado pela empresa governamental, onde, para ser competitivo, os preços são muito mais acessíveis. Digamos, cerca de 70 pesos cubanos (ou 3 CUC, isto é, a sétima parte de um salário médio mensal) por um prato nada sofisticado de comida chinesa, embora para alívio do bolso do consumidor neste restaurante estatal não se faz gastos excessivos. Ali, no melhor estilo socialista, não há sobremesa para terminar a refeição, nem café, "pois a máquina está quebrada".

A distância entre os glamorosos restaurantes privados citados pela jornalista britânica e os ainda gerenciados pelo Estado, afetados por sua tradicional ineficiência, marca o espaço entre duas realidades que se enfrentam no nível mais pedestre da economia cubana e que, alguma vez, se reproduzirá em outras escalas.

Ao mesmo tempo, o abismo aberto entre qualquer das duas ofertas gastronômicas e os salários reais e oficiais cubanos é vertiginosa e altamente representativa das capacidades econômicas de uma maioria da população cubana, cujos salários apenas bastam para a subsistência, como também reconhece o governo.

Por isso, enquanto o glamour regressa a certos locais de Havana onde, apesar da crise, um pequeno setor da sociedade, empreendedor e afortunado, faz sua vindima e espera as mudanças das leis migratórias para tirar férias em Cancún, em um afastado rincão do país um camponês de mais de 80 anos, sem aposentadoria, deve trabalhar todo o dia carregando água para um povoado onde o líquido não chega.

Esse camponês octogenário, além do mais, deve dormir junto ao cavalo que o ajuda nas tarefas, pois, se roubarem o animal, perderá sua única e crítica forma de subsistência. Para esse camponês, entrevistado para um documentário apresentado pela televisão cubana, parece que a existência de uma lista de restaurantes em Havana, talvez recomendados por uma jornalista britânica, é algo tão remoto e inacessível quanto a ideia de viajar para a Lua, se não houvesse algumas restrições a isso. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura Fuentes, escritor e jornalista cubano. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas e sua obra mais recente, O Homem que Amava os Cães, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ramón Mercader. (FIN/2012)

 
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