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Foie gras, um prato de crueldade
Carlota Cortes

Nova York, Estados Unidos, 6/8/2012, (IPS) - Escalope de foie gras grelhado com castanhas frescas e creme de leite de soja.


Crédito: Animal Equality
Patos alimentados à força em uma granja espanhola
Este prato servido no restaurante espanhol Mugaritz, considerado o melhor do mundo, soa exótico e atraente. Porém, uma investigação acaba de desmascarar a crueldade que se necessita para produzi-lo.

O foie gras (fígado gorduroso, em francês) é considerado um manjar. Trata-se do fígado atrofiado de ganso ou pato superalimentado. A organização Animal Equality acaba de mostrar como trabalham múltiplas granjas produtoras de foie gras, seis na Espanha e quatro na França.

Nesta investigação, realizada a partir de julho de 2011, ativistas fotografaram, filmaram e realizaram entrevistas fingindo estar interessados em aspectos gerais da indústria e sem revelar o verdadeiro propósito de documentar o sofrimento a que são submetidos os animais. "Querem esconder o que fazem porque o foie gras implica muito sofrimento para os animais", explicou à IPS a coordenadora-geral da organização, Sharon Núñez. O grupo obteve legalmente as imagens porque não foram utilizadas câmeras escondidas.

O comitê do Convênio Europeu sobre Proteção dos Animais na Pecuária, adotado em 1978, estabeleceu em 1999 recomendações para o bem-estar de patos e gansos. O Artigo 7 dessas recomendações diz: "Na inspeção é preciso ter em mente que a ave saudável emite sons e tem atividades próprias de sua idade". Os "olhos brilhantes, boa postura, movimentos vigorosos, boa plumagem, a forma de caminhar e seu comportamento na hora de comer e beber são elementos que também devem ser considerados", acrescenta. Já o Artigo 10 exige que os animais sejam colocados de forma a poderem "bater as asas, girar sem dificuldade e ficar parados de forma normal".

No entanto, como mostra um dos vídeos da Animal Equality, os animais nessas granjas não têm esse comportamento adequado. Alguns enfiam a cabeça nos recipientes com água e não são capazes de se levantar, às vezes por causa de seu peso e em outras devido às jaulas individuais onde se encontram. Frederic Vincent, porta-voz da Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia, disse à IPS que, segundo as recomendações, "enquanto não houver evidência científica que avalie métodos alternativos, a produção de foie gras deve ser realizada somente onde é praticada habitualmente e segundo os padrões das leis locais".

Contudo, ao que parece, as granjas não seguem essas recomendações. A Comissão Europeia adotou, em janeiro, uma nova estratégia na qual a efetiva implantação é uma máxima prioridade. "As recomendações explicitamente reconhecem a legalidade da produção de foie gras e só estabelecem algumas obrigações para os países produtores", explicou Vincent. Atualmente, apenas cinco países produzem foie gras: Bélgica, Bulgária, Espanha, França e Hungria. A França é o maior produtor, com cerca de 20 mil toneladas em 2011, segundo o Ministério de Agricultura desse país.

Nos Estados Unidos o debate chegou ao Departamento de Agricultura no começo de julho, quando o Fundo para a Defesa Legal dos Animais apresentou uma ação legal. O argumento central do grupo é que, para se obter foie gras, os patos e gansos são alimentados à força, para que seus fígados cresçam até dez vezes seu tamanho normal. "É um princípio simples: os animais saudáveis produzem alimento saudável, e os animais não saudáveis produzem alimento não saudável", disse à IPS o diretor de litígios do Fundo, Carter Dillard. "Estão literalmente dispostos a torturar o animal apenas para fazer com que tenha melhor sabor, e isso realmente é cruel", ressaltou.

No dia 1º de julho, o Estado da Califórnia proibiu a alimentação forçada de animais. Assim, não se pode produzir, vender e nem consumir foie gras. Desde o fechamento de uma granja em Sonoma, nesse Estado, restam apenas outras duas nos Estados Unidos dedicadas à produção de foie gras, ambas no Estado de Nova York: La Belle Farm e Hudson Valley Foie Gras. A organização Human Society foi muito ativa nesse caso. O vice-presidente do grupo, Paul Shapiro, declarou à IPS que "fechar o mercado da Califórnia para esse produto cruel e desumano foi um importante passo para o movimento humanitário". Quanto mais os norte-americanos aprenderem sobre o quando é "abusivo e desumano alimentar à força, mais horrorizados ficarão", acrescentou.

Por outro lado, a Artisan Farmers Alliance, coalizão de produtores norte-americanos de foie gras, faz uma forte campanha contra a proibição na Califórnia e apresentou um recurso legal contra esse Estado em um tribunal federal. O caso é apoiado em particular pelos grupos Association des Eleveurs de Canards et D'Oies, da província canadense de Quebec, Hudson Valley Foie Gras e Hot's Kitchen Restaurante Group, ambos da Califórnia. O secretário da Artisan Farmers Alliance, Marcus Henley, explicou à IPS que a coalizão colocou todas as suas baterias no caso. Mas a Human Society também interveio. Esta organização trabalha principalmente para manter a proibição na Califórnia, informou Shapiro.

No dia 18 de julho, a justiça determinou que esta permanecerá em vigor até ser analisado o recurso dos produtores. Um dos últimos atos nesse debate é a emenda introduzida pelo congressista Steve King, do opositor Partido Republicano, à Lei Agrícola de 2012, que impede os Estados de estabelecerem padrões para produtos importados de outros Estados. A emenda afetará diretamente a proibição sobre produção de foie gras. "A Califórnia não tem direito constitucional de dizer a produtores de Nova York ou de Iowa que não podem vender na Califórnia seu produto legalmente produzido segundo as regulamentações federais", argumentou Henley.

Enquanto organizações como a Artisan Farmers Alliance ou a Hudson Valley Foie Grass contra-atacam as proibições, argumentando que a alimentação forçada dos animais não lhes causa sofrimento, a Human Society e o Fundo para a Defesa Legal dos Animais asseguram que a prática é cruel. E, enquanto há sinais de que o consumo continuará por um bom tempo, já que emerge um mercado negro de foie gras na Califórnia, para outros este manjar culinário tem os dias contados. "Creio que dentro de 50 anos as pessoas ficarão horrorizadas de pensarem que fazíamos isto", apontou Dillard. Envolverde/IPS (FIN/2012)

 
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