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Renunciar à violência para demonstrar a boa vontade
Oscar Arias Sánchez*

San José, Costa Rica, setembro/2012, (IPS) - Por mais desolador que pareça, o relato de nossa espécie é escrito com pontuação de violência. Medimos a passagem dos anos com o calendário da força.

Poucos são os episódios de concórdia entre todos os seres humanos. Poucas são as épocas de harmonia e fraternidade. Neste vasto inventário de vivências humanas, raramente nos permitimos uma oportunidade para a paz duradoura.

A história humana pode ser lida como a tensão entre duas forças, entre o poder dos falcões e as pombas da política. Ao ritmo desse pêndulo escrevemos as passagens mais cruciais de nossa vida coletiva. Há 25 anos esse pêndulo inclinou-se para o lado da paz na América Central e pôs fim a 30 anos de enfrentamentos bélicos.

Quais feitos distinguiram nossa história da de tantos outros que ainda sofrem a dor de um conflito armado? Quanto influiu o contexto, o momento, os atores, ou a sorte na produção do resultado? As circunstâncias que antecederam a assinatura do Plano de Paz são bem conhecidas. Os números dos mortos e feridos, dos refugiados e dos desaparecidos, povoam as prateleiras das bibliotecas. Mas há tantas coisas que as cifras não mostram! Tantas coisas que se esfumam na recontagem oficial! Há algo intangível na dor de uma guerra, algo que envenena o ar com a angústia e a consciência insuportáveis da morte.

O Plano de Paz nasceu em meio a este emaranhado de frustrações, após o fracasso final dos processos de mediação de alguns governos latino-americanos. Nossas probabilidades de êxito têm a ver com o que assinamos, quem assinou, quando assinamos e sob quais condições.

O que assinamos? O Plano de Paz é um documento curto e preciso. Tem como único propósito alcançar a paz e a democracia na região, e não se detém nos detalhes operacionais. Quando existem múltiplas partes em uma negociação, com interesses distintos e frequentemente contraditórios, é vital definir a meta e reduzir o ruído, porque cada parte apresenta suas contrapropostas e pretende implantar sua própria agenda.

O grande mérito do Plano de Paz não foi o de ser um documento ideal, mas o de ter sido um documento possível, que garantiu sua própria sobrevivência ao exigir que as nações realizassem eleições livres e aperfeiçoassem suas instituições democráticas.

Quem assinou? Apesar da pressão de Washington para excluir a Nicarágua das negociações, o Plano de Paz incluiu desde o princípio o governo de Manágua, porque não é possível conduzir uma negociação de sucesso se não estão presentes os legítimos interlocutores de um conflito; por isso foi assinado por todos os governos centro-americanos.

Enfrentamos pressões ingentes da parte do governo do presidente Ronald Reagan e dos regimes de Mikhail Gorbachov e Fidel Castro. Contudo, defendemos nossa vontade. Não apenas porque era nossa, mas porque nenhuma guerra ideológica justifica a morte de seres inocentes. A paz foi decidida unicamente pelas partes signatárias, porque, embora um líder deva cercar-se de opiniões, ouvir argumentos e estudar a crítica, no final do dia precisa decidir exclusivamente com sua consciência.

Quando assinamos? Ao apresentar meu Plano de Paz aos presidentes centro-americanos compreendi que o tempo corria contra nós. As potências mundiais pressionavam para redobrar a presença militar, enquanto a paciência internacional se esgotava, produto da frustração e do desgaste. Ao nos reunirmos na cidade de Guatemala, em agosto de 1987, de alguma maneira entendemos que aquela seria nossa única oportunidade. Saber isso, sentir que a vida de milhões de centro-americanos estava atada ao desígnio de umas tantas horas, nos infundiu a força que precisávamos. Desde o momento em que apresentei o Plano de Paz até o dia em que o assinamos transcorreu pouco mais de meio ano. Se houvéssemos prolongado o diálogo, talvez tivéssemos terminado por nos render.

A lógica do Plano de Paz era exigir o cessar-fogo como condição para dialogar. Renunciar à violência para demonstrar a boa vontade. Assim, assinamos um acordo que transformou a vida de milhões de seres humanos. Oxalá os líderes do mundo se atrevessem a renunciar à violência como ficha de jogo. Talvez se surpreendessem com a autoridade que tem a palavra desarmada. Talvez se assombrassem em saber o quanto pode fazer uma pessoa quando tem ao seu lado nada mais do que a razão e a verdade.

"A história é um pesadelo do qual tento acordar", dizia o herói do Ulisses, de James Joyce. Durante muitos anos a humanidade tentou acordar de um pesadelo de guerra. A violência que alimentou os mitos e inspirou as epopeias continua ditando a saga do mundo. Muito rápido e com demasiada frequência baixamos os braços, voltamos a vista e damos a ordem de fogo. Muito rápido e com demasiada frequência, renunciamos à via diplomática. Mas não há escrito um destino de dor para o homem. Ninguém ainda ditou as páginas futuras desta linhagem deslumbrante, que, mesmo em meio às armas, é capaz de amar e perdoar, capaz de construir e imaginar.

Os últimos 25 anos na América Central foram um instante de quietude, um momento de silêncio à beira do mar. Entretanto, por esse momento, por essa quietude, vale a pena viver e lutar. Por fazer da paz a opção principal. Por fazer do diálogo a única saída. Por fazer dos próximos séculos o final de um longo pesadelo. Envolverde/IPS

* Oscar Arias Sánchez é ex-presidente da Costa Rica (1986-1990/2006-2010) e Prêmio Nobel da Paz 1987.

(FIN/2012)

 
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