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REPORTAGEM
México pode dizer adeus ao milho importado
Emilio Godoy

CIDADE DO MÉXICO, México, 22 de outubro de 2012, (IPS) - (Tierramérica).- México pode se permitir não importar mais milho, se impulsionar a agricultura camponesa, a eficiência hídrica e o investimento em pequena agricultura.


Crédito: Mauricio Ramos/IPS
Espigas de milho em um depósito camponês de Yaluma, Chiapas
Há muito que o México, berço do milho, deixou de ser autossuficiente neste alimento milenar que é o coração de sua cozinha e de sua cultura. Contudo, novos estudos indicam que poderia conseguir isso em dez ou 15 anos. Para o agricultor Carmelo Pacheco, do Estado de Guerrero, no Sul, o que ele e outros produtores necessitam é mais irrigação para aumentar a colheita.

"Para este ano vemos uma perspectiva regular. A produção caiu devido às alterações no clima. Além disso, não há preços sólidos", disse ao Terramérica este dirigente da organização Pach- Vill, no município de Ayutla de Los Libres, que está para iniciar a colheita. Investir na infraestrutura hídrica para a agricultura no sudeste e financiar médios e pequenos produtores permitiria a este país alcançar a autossuficiência, afirma o estudo Factibilidade para Alcançar o Potencial Produtivo de Milho do México, apresentado este mês.

"O predomínio do uso extrativo de recursos ocasionou erosão e irrigação insuficiente. Pode-se aproveitar reservas de terra, água doce, tecnologia pública, agricultura camponesa e diversidade genética", disse ao Terramérica o pesquisador Antonio Turrent, do Instituto Nacional de Pesquisas Florestais, Agrícolas e Pecuárias e um dos autores do estudo.

O México poderia produzir 33 milhões de toneladas anuais de milho no prazo de dez a 15 anos, fechando o déficit atual de dez milhões de toneladas, e inclusive acrescentar outros 24 milhões por ano para cobrir a demanda projetada para 2025, de 39 milhões, afirma a pesquisa publicada em espanhol pelo Woodrow Wilson International Center for Scholars, com sede em Washington.

Atualmente o México precisa importar entre oito e dez milhões de toneladas ao ano, sobretudo dos Estados Unidos. O país conta com cerca de três milhões de produtores de milho que plantam em oito milhões de hectares. Porém, mais de dois milhões destinam suas colheitas ao consumo familiar. O cultivo se centra em espécies de grãos brancos, enquanto o amarelo, usado na alimentação animal, é importado.

O milho (Zea mays) é um vegetal simbólico na Mesoamérica, por seu forte vínculo com as culturas pré-hispânicas desta região, que se estende do centro do México até a América Central. O México é centro de origem do milho e conta com 59 espécies nativas e 209 variedades. Apenas dez espécies são usadas em melhoramento genético.

Se a eficiência na irrigação melhorar em 60% ou 70%, será possível alcançar entre 4,1 e 4,9 milhões de hectares, usando água de escorrimento, que é abundante no sul e sudeste do México, diz o estudo que também leva as assinaturas de Timothy Wise e Elise Garvey, diretor e pesquisadora, respectivamente, do Programa de Pesquisa e Política do Instituto de Desenvolvimento Global e Meio Ambiente da Tufts University, dos Estados Unidos.

A agricultura camponesa "maneja a biodiversidade do milho", opinou Turrent. Nela as "terras de trabalho são o primeiro contato no ciclo da água; seus conhecimentos são compatíveis com a agroecologia e, ao contrário do subsetor empresarial, tem ampla potencialidade para aumentar sua produção".

Os pesquisadores descartam que nesta evolução produtiva seja necessária a biotecnologia, alternativa do governo para elevar a produtividade e a resistência diante dos efeitos da mudança climática. O grão transgênico é "uma falsa e perigosa promessa", que não gera maior rendimento do que as sementes nativas ou melhoradas, representa um risco para o grão nativo e para a biodiversidade mexicana e não demonstrou ser mais resistente à seca do que outras variedades, alegam.

Desde 2009, o governo mexicano concedeu 177 permissões de plantio experimental e piloto de milho geneticamente modificado em uma superfície de 2.664 hectares. Em setembro, as transnacionais norte-americanas Monsanto, Pioneer e Dow Agrosciences apresentaram seis pedidos de plantio comercial de milho transgênico para cerca de 1,7 milhão de hectares em Sinaloa, no Noroeste, e Tamaulipas, no Nordeste.

O México tem oito milhões de hectares de terras cultiváveis ociosas que "oferecem uma oportunidade para começar do zero diante da crise alimentar e dos altos preços dos alimentos", disse ao Terramérica o acadêmico Antonio Yunes, do estatal Colégio do México, sugerindo que "se poderia aproveitar seu potencial sem conceder subsídios, com práticas sustentáveis". Em 2011 foram entregues subsídios no valor de US$ 549 milhões aos produtores, e cerca de US$ 15 milhões ao segmento de agricultura orgânica.

O informe conclui que a estratégia mais eficaz é "a extensão participativa em terras de chuva" - isto é, ampliação das plantações em áreas regadas exclusivamente por água de chuva -, e recomenda fortalecer a organização dos agricultores e o ordenamento dos mercados. Em Guerrero, os produtores de milho também plantam gergelim, abóbora e Jamaica. Entretanto, "não há garantias da produção, precisamos melhorar a organização", reconheceu Pacheco.

* (FIN/2012)

 
Terramérica - Meio Ambiente e Desenvolvimento
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