Nanotecnologia para reduzir pegada petroleira
Humberto Márquez
Caracas, Venezuela, 12/11/2012 (Terramérica), (IPS) - A nanotecnologia pode ser uma ferramenta poderosa
para reduzir a contaminação climática dos
combustíveis fósseis e para melhorar a eficiência de
energias limpas.
A Venezuela está empregando nanotecnologia para
desenvolver novos catalisadores aplicáveis para
reduzir a emissão de gases responsáveis pelo
efeito estufa causada pela sua indústria petroleira.
Nano é a escala do diminuto: uma partícula de um
nanômetro (nm) que mede a milionésima parte de
um milímetro, ou, em números: 0,000000001 metro.
"Buscamos empregar nanopartículas de sais de
metais, por exemplo, nitratos de ferro ou níquel, ou
cobalto, como catalisadores em processos
petroleiros nos quais são gerados gases-estufa",
disse ao Terramérica a pesquisadora Sarah
Briceño, do Centro de Física do Instituto
Venezuelano de Pesquisas Científicas (Ivic,
estatal).
Os catalisadores são substâncias empregadas
para acelerar processos químicos, "e nosso
objetivo
é conseguir os adequados para indústria
venezuelana e que permitam reduzir em até 50% a
emissão de gases em tarefas como refino de
petróleo ou consumo de combustível nos veículos",
destacou Briceño.
A Venezuela, sócia fundadora da Organização de
Países Exportadores de Petróleo (Opep), extrai
quase três milhões de barris por dia e tem reservas
de petróleo pesado superiores a 200 bilhões de
barris. Em seu território, seis refinarias processam
diariamente 1,1 milhão de barris (de 159 litros).
Por outro lado, o país consome, segundo a Opep,
742 mil barris por dia de diferentes combustíveis,
dos quais cerca de 300 mil barris correspondem à
gasolina usada por mais de seis milhões de
veículos automotores. O Ministério do Poder
Popular para o Meio Ambiente afirma que a
Venezuela responde por 0,48% do total mundial de
emissões de gases-estufa, e de 0,56% de um
desses "vilões", o dióxido de carbono.
Em fase experimental, "observamos com
microscópios de alta resolução a varredura e o
comportamento, a reação química, das
nanopartículas de sais de metais e elementos
surfactantes (que influem na superfície de contato
entre substâncias) envolvidas nesses processos",
explicou Briceño.
Desde que o norte-americano Richard Feynman
(1918-1988), prêmio Nobel de Física em 1965,
introduziu, em 1959, o conceito da nanotecnologia
(manipulação da matéria em escala molecular e
atômica) esta decolou em campos como medicina,
farmácia, energia, eletrônica, metalurgia,
conservação do meio ambiente e do conhecimento.
"Toda a tabela periódica (dos elementos) pode ser
levada à escala nano. Nós nos focamos em
pesquisar como a Venezuela, com sua tecnologia e
infraestrutura, pode dar esta contribuição ambiental
em seus trabalhos com hidrocarbonos", disse
Briceño. "A ênfase nós demos na redução das
emissões de óxidos de nitrogênio e de metano, que
são os mais fortes causadores do efeito estufa",
acrescentou.
Estima-se que a pesquisa dará frutos em 2013.
Levá-los à indústria será percorrer um longo
caminho, se forem consideradas as escalas de
laboratório: no Ivic são obtidos resultados em
aglomerados de partículas que pesam 0,1 grama, e
a exploração de petróleo da Venezuela em um
único dia equivale a 400 mil toneladas.
A relação entre energia e meio ambiente é um
campo fértil para a nanotecnologia, como mostra
uma pesquisa norte-americana do Massachusetts
Institute of Technology, para agregar nanopartículas
de ferro ao petróleo, o que permitiria limpar com
imãs o hidrocarbono que vaze para corpos de água.
"A demanda energética aumentará nos próximos
anos e devemos ser capazes de gerar energia
abundante, barata e com o menor impacto
ambiental. Os combustíveis fósseis não são uma
alternativa adequada, mas pior é utilizá-la mal
quando há oportunidades incríveis para ser
muitíssimo mais eficiente", afirmou Javier García
Martínez, diretor do Laboratório de Nanotecnologia
da Universidade de Alicante, na Espanha.
A nanotecnologia "oferece oportunidade de gerar
novos materiais e processos, e no campo da
energia há um grande potencial para melhorar a
eficiência das células fotovoltaicas que formam os
painéis solares", disse ao Terramérica o consultor
venezuelano Juan Carlos Sánchez, que integra o
Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre
Mudança Climática (IPCC), premiado em 2007 com
o Nobel da Paz juntamente com o ex-presidente
norte-americano Al Gore (1993-2001)
Para Sánchez, "aos grandes produtores de
petróleo, às empresas ou aos países não convém
necessariamente o desenvolvimento de processos
e materiais da nanotecnologia, quando esta tem o
objetivo de uso maior e mais efetivo da energia
solar. Digamos que vá em sentido contrário ao
negócio toda tecnologia que reduza a emissão de
gases-estufa, porque diminuiria a demanda por
petróleo com o aumento do uso da energia solar".
Em sua opinião, a Venezuela deveria dirigir
esforços para outras tecnologias que reduzam a
emissão de gases-estufa associada à atividade
petroleira, "como o chamado sequestro de dióxido
de carbono, gerado nas refinarias para sequestrá-lo
no subsolo de poços de petróleo e evitar que vá
para a atmosfera".
Outros sócios da Opep "adiantam" esse tipo de
pesquisa, entre eles "Arábia Saudita, Argélia e
Emirados Árabes Unidos, para fugirem do rótulo de
que os países petroleiros são os responsáveis pelo
aquecimento global", apontou Sánchez. A
Venezuela "poderia dispor para esse fim de seus
milhares de velhos poços abandonados, que
permitiriam enterrar dióxido de carbono a mais de
mil metros de profundidade", acrescentou.
Briceño considera, por outro lado, que êxitos em
seu campo podem impulsionar estudos para aplicar
nanotecnologia a outras vertentes ambientais da
indústria venezuelana do petróleo. Por exemplo,
emprego e disposição do coque (resíduo sólido
com mais de 90% de carbono), do qual a
Venezuela produz 20 mil toneladas diárias no
processo para melhorar seu petróleo pesado e o
extrapesado, para transformá-los em leves aptos
para a maioria das refinarias. A poeira das
montanhas de coque afeta as populações do leste
venezuelano que são vizinhas de instalações para
melhorar o petróleo. Talvez em um futuro as
nanopartículas para tratá-lo sirvam para seu
resgate. Envolverde/Terramérica (FIN/2012)
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