Saúde mental, outra vítima da mudança climática
Patricia Grogg
Santiago de Cuba, Cuba, 23/11/2012, (IPS) - "A cidade parecia bombardeada. Caminho para meu
escritório, cruzo com pessoas que levavam em seus
rostos o mesmo - diria dramático - espanto que eu.
Nos olhávamos e, sem nos conhecermos, nos
perguntávamos: como foi com você? Aconteceu
alguma coisa com sua casa? Foi uma solidariedade
afetiva muito importante para mim".
Este testemunho dado à IPS, por uma jornalista de
Santiago de Cuba, coloca na balança um dos lados
bons da reação coletiva após um desastre como o
sofrido por esta cidade na madrugada do dia 25 de
outubro, quando o furacão Sandy, apesar do alerta
meteorológico e das advertências oficiais,
surpreendeu boa parte de seus habitantes.
O valor econômico dos prejuízos ainda são
desconhecidos hoje, quando a parte mais oriental
do país cura suas feridas, graves de todos os
ângulos. Mas existe também o impacto
psicológico, do qual se fala menos e se vê nos
olhos das pessoas quando contam: "perdemos
nossa casa com móveis, eletrodomésticos, até as
lembranças". "Tive muito medo, me enfiei no
armário quando o vento levou o telhado do meu
quarto. Meus vizinhos me tiraram de casa e me
ajudaram a atravessar a rua até onde haviam se
refugiado outras famílias cujas casas estavam em
muito mau estado", contou à IPS Isabel da Cruz,
de
70 anos, moradora de Guantânamo, outra área
afetada.
Depressão, tristeza, angústia, desespero, incerteza
e agressividade, todas estas são manifestações
que acompanham as pessoas depois de um
desastre em qualquer parte do mundo. "Imagine,
nos deitamos com a bela e acordamos com a fera",
comparou um trabalhador do setor turístico cujo
hotel onde é empregado foi totalmente destruído.
"As pessoas estão deprimidas e desorientadas.
Em
muitas nota-se o desequilíbrio psíquico pelas
perdas sofridas", disse à IPS o sacerdote católico
Eugenio Castellanos, reitor do Santuário da Caridad
del Cobre, virgem padroeira de Cuba. O padre
estima que 90% das casas do Cobre, localidade
vizinha a esta cidade, sofreram o impacto do
Sandy.
Juan González Pérez, por sua vez, disse à IPS que
dias antes do furacão houve focos de violência em
alguns lugares, especialmente na hora de comprar
artigos em falta. "Ficamos muitos dias sem energia
elétrica e começaram a vender 'luz brilhante'
(querosene) para cozinhar. Embora houvesse o
suficiente para todos, aconteceram discussões e
brigas na fila. Quando as pessoas se desesperam,
costumam ficar agressivas", observou Pérez, mais
conhecido por Madelaine, líder do espiritismo
cruzado "muertero", uma expressão de
religiosidade
popular nesse lugar. Segundo contou, aconselha
aos seus seguidores "unirem-se, se lavar bem, dar
a quem não tem e não se desesperar".
Em Mar Verde, a praia por onde o Sandy tocou o
território cubano a 15 quilômetros de Santiago, a
médica Elizabeth Martínez atende mais de cem
pessoas, abrigadas em cabanas de veraneio que,
por estarem mais afastadas do mar, se salvaram do
desastre. "O impacto psicológico é grande, mas
não houve mortes e nem temos pessoas doentes",
contou. Pouco mais de uma semana depois da
passagem do furacão, os esforços em matéria de
saúde se concentravam fundamentalmente em
conter focos epidêmicos. "Estamos dando
informações sanitárias aos moradores, ensinando
como cuidar de doenças transmissíveis, sobre a
importância de descontaminar a água antes de
beber", informou a médica.
Segundo meios especializados, estima-se que
entre um terço e metade de uma população
exposta a desastres sofre algum tipo de problema
psicológico, embora na maioria dos casos se deva
entender como reações normais diante de eventos
extremos, que sob o impacto da mudança climática
ameaçam aumentar em intensidade.
"Quando encontrei meus vizinhos no abrigo,
estávamos em choque. Mas alguém disse: vamos
limpar a entrada que está bloqueada por essas
árvores caídas. Então, começamos a trabalhar,
embora no começo ninguém falasse", contou uma
mulher do setor turístico. Nos primeiros dias era
possível ver muitas pessoas recolhendo escombros
e varrendo as ruas de suas vizinhanças.
Diante da frequência e da maior intensidade dos
ciclones tropicais, as autoridades de saúde, desde
a década de 1990, começaram a se preocupar com
o impacto psicológico dos desastres causados por
esses e outros fenômenos naturais. Em 2008,
quando o país sofreu três furacões, uma indicação
ministerial fortaleceu a inclusão do tema nos planos
sanitários. Em um artigo sobre o assunto, o médico
cubano Alexis Lorenzo Ruiz explica que os
aspectos psicossociais dos desastres são
considerados tanto na capacitação do pessoal
como na organização dos programas que chegam a
todo o país e enfatizam a atenção a setores mais
vulneráveis, como menores de idade, adolescentes
e idosos.
Do ponto de vista da saúde mental, nos desastres
toda a população "sofre tensões e angústias em
maior ou menor medida, direta ou indiretamente",
afirmaram Katia Villamil e Orlando Fleitas, que
recomendaram não se esquecer que o impacto
nessas circunstâncias é mais acentuado em
populações de escassos recursos. Estes
profissionais afirmam que as reações mais
frequentes vão desde as consideradas normais,
como ansiedade controlável, depressão leve ou
quadros "histeriformes", até estresse
"peritraumático", embotamento, redução do nível de
atenção, descompensação de transtornos
psiquiátricos pré-existentes, bem como "reação
coletiva de agitação".
O furacão Sandy causou estragos não apenas em
Santiago de Cuba, mas também nas províncias de
Guantânamo e Holguín, com saldo de 11 mortos. O
governo de Raúl Castro ainda não divulgou as
perdas econômicas, embora dados preliminares e
incompletos dos primeiros dias indicassem uma
estimativa de US$ 88 milhões. Envolverde/IPS (FIN/2012)
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