As jovens sofrem dupla marginalização trabalhista no Pacífico
Catherine Wilson
Brisbane, Austrália, 30/11/2012, (IPS) - A quantidade de jovens aumenta mais rápido do que a
oferta de trabalho nos países insulares do Oceano
Pacífico. Nessa dinâmica, as mulheres são as mais
prejudicadas porque também sofrem a pressão de
terem que se ajustar aos tradicionais papéis de
gênero.
Na região do sudeste da Ásia e Ásia Pacífico, o
desemprego afeta 14,2% das jovens e 12,9% dos
rapazes da mesma faixa etária. Em particular,
menos de 35% das mulheres com idades entre 20
e 29 anos tem trabalho formal em Ilhas Salomão,
Ilhas Marshall e Samoa.
Em Vanuatu, a oeste de Fiji no sul do Pacífico,
com cerca de 246 mil habitantes, a maior
disparidade de gênero no setor trabalhista ocorre
nas cidades. Na capital, Port Vila, 43% das
mulheres têm emprego. Os homens dominam os
postos de trabalho tanto no setor privado quanto no
estatal. Aproximadamente 61% dos funcionários
públicos (cerca de 6.500) são homens e 39%
mulheres.
A maioria dos habitantes, chamados ni-vanuatu,
vive em zonas rurais e praticam agricultura de
subsistência, mas a rápida urbanização favoreceu o
desemprego juvenil que afeta 9,2% do setor, bem
acima dos 4,6% da população economicamente
ativa que, em nível nacional, não tem trabalho. O
índice aumenta para 27% nos povoados onde as
mulheres ni-vanuatu são maioria em empregos de
limpeza, venda e serviços.
Kathy Solomon, diretora da Associação do Centro
de Capacitação para o Desenvolvimento Rural de
Vanuatu, disse à IPS que as jovens devem
enfrentar múltiplos desafios para garantir um
trabalho, especialmente no setor formal. "Ainda há
uma barreira cultural pela expectativa de que as
mulheres cumpram os tradicionais papéis de
gênero", explicou Solomon, cuja organização
capacita jovens e promove a igualdade.
"Além disso, muitas mulheres de fato não estão
qualificadas para ocupar altos cargos no Estado
nem no setor privado, e não se sentem seguras
entre homens", acrescentou Solomon. O impacto
do desemprego "é evidente pelos altos índices de
violência doméstica e de abuso contra as
mulheres", afirmou. "Os homens acreditam que, por
serem eles que sustentam a família, podem fazer
qualquer coisa com as mulheres. As jovens que
não conseguem trabalho ficam deprimidas e são
mais propensas a se prostituir e se voltar para o
consumo de kava", ressaltou Solomon.
Nos Estados insulares do Oceano Pacífico os
jovens têm três vezes mais possibilidades que os
adultos de ficar fora do mercado de trabalho. Com a
crise econômica que prejudica principalmente o
Norte rico, a Organização Internacional do Trabalho
(OIT), segundo a qual o desemprego juvenil
continuará crescendo no sudeste da Ásia e na Ásia
Pacífico, alertou os governos para que evitem o
surgimento de uma "geração perdida", que poderia
não mais colher os benefícios de um emprego
remunerado e produtivo.
O aumento de jovens na região é consequência do
rápido crescimento populacional. Dos dez milhões
de habitantes das ilhas do Pacífico, 20% têm entre
20 e 24 anos. Estima-se que 6,6% dos jovens
estejam desempregados, mas o número omite os
que trabalharam de forma informal, estiveram mal
remunerados ou realizaram tarefas de subsistência.
As dificuldades para encontrar trabalho vão se
exacerbando pelo crescimento econômico desigual,
em especial na Melanésia, e pelo isolamento
geográfico e recursos limitados na Micronésia. O
plano de estudos em muitos países do Pacífico deu
prioridade à formação para trabalhos em escritório,
deixando muitos jovens sem a capacitação
necessária para os ofícios ou as indústrias locais,
como o turismo.
Na competição por empregos locais, as jovens
costumam enfrentar a mentalidade de que "seu
lugar correto" é em casa, ainda que as estatísticas
mostrem que a matrícula feminina nas escolas é
maior do que a dos homens em lugares como
Kiribati, Ilhas Marshall, Nauru, Samoa e Tuvalu.
"Deve-se dizer que o desemprego feminino tem
mais a ver com atitudes culturais que não valorizam
a participação feminina em política, na tomada de
decisões em níveis comunitário, institucional e
nacional", disse à IPS a assessora para jovens da
Secretaria da Comunidade do Pacífico de Fiji,
Mereia Carling.
"Outros aspectos da desigualdade de gênero no
sistema educacional, como o fato de as moças
serem direcionadas para a economia doméstica e
os homens para a tecnologia, pode contribuir para a
baixa taxa de emprego feminino. Embora se mande
as meninas à escola, ao que parece o
comportamento tradicional continua determinando o
futuro das jovens", pontuou Carling.
Tarusila Bradburgh, coordenadora do Conselho
Juvenil do Pacífico, prevê que as mudanças no
comportamento cultural exigirão muito tempo,
mesmo em países como Fiji, onde uma grande
quantidade de moças completa os estudos,
recebem bolsas e concorrem a instituições
terciárias."As jovens lentamente derrubam
barreiras, especialmente em áreas dominadas por
homens, como engenharia e aviação civil, mas o
avanço é lento. Enquanto não mudarem a
mentalidade e o comportamento em relação às
mulheres, os avanços e as mudanças serão muito
lentos", insistiu Bradburgh.
Outras consequências do desemprego de mulheres
jovens na região são pobreza, delinquência,
alcoolismo e drogas, prostituição e gravidez
adolescente. Há 138 nascimentos para cada mil
adolescentes entre 15 e 19 anos nas Ilhas
Marshall, 67 nas Ilhas Salomão e 64 em Vanuatu.
As moças costumam abandonar a escola e passar
a depender economicamente de suas famílias
extensas se não conseguem encontrar trabalho.
Segundo a Comissão Econômica e Social para
Ásia e Pacífico (Cespap), do Conselho Econômico
e Social da Organização das Nações Unidas
(ONU), a perda de produtividade na região pela
baixa participação trabalhista das mulheres fica
entre US$ 42 bilhões e US$ 47 bilhões por ano.Os
setores que poderiam promover o emprego juvenil
são agricultura, silvicultura, pesca, meio ambiente,
turismo e cultura, segundo a Cespap. Atualmente,
Ilhas Cook e Niue são os únicos Estados insulares
da região com possibilidades de conseguir o pleno
emprego produtivo até 2015. Envolverde/IPS (FIN/2012)
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