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A inocência perdida das crianças da Costa do Marfim
Kristin Palitza

ABIDJAN, 05 de dezembro, (IPS) - O grupo de crianças que brinca à sombra num pátio em Abidjan, a capital económica da Costa do Marfim, parece estar despreocupado.

Mas quando o tubo de escape de um veículo expele gases ruidosamente elas tremem. Quando um soldado passa elas tremem. E ficam ansiosas quando um adulto desconhecido se aproxima delas.

Já passou mais de um ano desde que esta nação na África Ocidental foi abalada por seis meses de violência e terror quando o anterior Presidente Laurent Gbagbo recusou ceder o poder a Alassane Ouattara, que ganhou as eleições presidenciais em Novembro de 2010. Mas as crianças na Costa do Marfim ainda estão a tentar recuperar do trauma psicológico e social que os distúrbios lhes causaram.

"As crianças foram as principais vítimas da violência pós-eleitoral. Muitas ouviram os tiros e bombardeamentos, viram pessoas a fugir, viram adultos com medo e testemunharam brutalidades, combates e assassinatos," explicou Désiré Koukoui, director do Gabinete Católico Internacional para as Crianças (BICE) em Abidjan, uma organização que protege os direitos das crianças.

As crianças aprenderam a recear pela própria vida e a lidar com a morte de membros da família, fome e desalojamentos durante os confrontos violentos que ocorreram entre Dezembro de 2010 e Maio de 2011. Milhares ficaram separadas dos pais durante o caos. Muitas ficaram repentinamente sozinhas em Abidjan, obrigadas a dormir na rua, a mendigar, roubar, trabalhar ou vender o seu corpo para sobreviver.

"Estamos preocupados devido ao facto de, se não implementarmos rapidamente mecanismos para 'recompor' a situação e socializar as crianças e as famílias, termos de enfrentar uma geração inteira de casos problemáticos daqui a uns anos, com uma geração de jovens sem futuro," avisou Koukoui.

A BICE abriu um lar seguro em Julho de 2011 para as crianças separadas depois da violência ter diminuído. Até essa altura, os distúrbios tinham causado 3.000 mortes e pelo menos meio milhão de deslocados. O pessoal desta organização tenta reunir as crianças com as suas famílias, com o apoio da organização Save the Children e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

Segundo informações oficiais das Nações Unidas, só em Abidjan, cidade com cinco milhões de pessoas, pelo menos 3.700 crianças ficaram separadas dos pais durante a crise. Mas Koukoui acredita que "o número real é muito mais elevado, pelo menos 10 vezes mais elevado, porque nem conseguimos sequer localizar a maioria das crianças que se perderam." O progresso tem sido vagaroso, porque muitas vezes os pais também ficaram deslocados ou as crianças são demasiado pequenas ou estão demasiado traumatizadas para se lembrarem dos nomes dos pais ou da sua aldeia. Até agora, a BICE só conseguiu localizar as famílias de cerca de 250 rapazes e raparigas. "Fazemos o nosso melhor para encontrar as famílias, colocar as crianças em escolas, proporcioanr aconselhamento psicológico e social e, se tudo falhar, colocá-las em orfanatos e acolhimento familiar," explicou Koukoui.

Uma delas foi a Judith*, de 12 anos, que chegou ao lar seguro há cerca de três meses. Esta menina vivia com os tios em Yopougon, um dos bairros de Abidjan que foi dos mais afectados pela violência pós-eleitoral, e classificado como uma área pró-Gbagbo.

Os pais de Judith vivem numa pequena aldeia rural no norte do país, Benjué, e tinham enviado a filha para a capital com a esperança que ela tivesse acesso a uma educação melhor. Mas, em vez disso, os tios exploraram a rapariga, obrigando-a a trabalhar como empregada doméstica. Quando as eleições deram lugar à violência, o tio de Judith, um apoiante de Gbagbo, fugiu de Abidjan, temendo pela sua segurança.

"Depois dele ter partido a minha situação piorou. Da janela podia ver as pessoas a serem mortas nas ruas. Tive muito medo. Não tinha nada para comer e a minha tia descarregou o medo que tinha em mim. Batia-me muito," afirmou Judith, que eventualmente fugiu e chegou ao lar seguro com a cara cheia de contusões e cortes que lhe vão deixar cicatrizes para toda a vida.

Segundo o pessoal do lar seguro, a rapariga também foi violada, embora ainda não seja claro quando é que o crime ocorreu e quem é o culpado.

"Infelizmente, é uma histórial habitual. Temos observado que em todo o país aumentou a violência doméstica, o alcoolismo e o abuso de crianças devido ao conflito," explicou Dalié Privary, director de programas do lar seguro.

Após várias semanas, o pessoal do lar seguro eventualmente conseguiu localizar os pais de Judith, mas o processo de reunificação é complexo e demora tempo visto que as organizações de ajuda humanitária precisam de garantir que as crianças serão enviadas para um meio ambiente familar seguro e saudável.

"Aconselhamos tanto os pais como as crianças antes de os reunir, para dar à criança o melhor futuro possível," disse Monique Apie, directora do programa de protecção da Save the Children. "Queremos ter a certeza que os pais são sinceros no que diz respeito a terem os seus filhos de volta."

De acordo com as estatísticas da BICE, devido ao conflito, que causou igualmente trauma e desespero nos adultos, um em cada cinco pais mostra-se relutante em receber os filhos perdidos que regressam à família. "Quando o conflito é violento, é uma questão de salve-se quem puder, mesmo dentro das famílias. É chocante mas infelizmente esta é a realidade," afirmaouApie.

Além disso, muitos pais acreditam que não podem tomar conta dos seus filhos porque os elevados níveis de pobreza que já existiam - quase metade dos costa-marfinenses vivia abaixo do nível pobreza, classificado como 1.25 dólares por dia - pioraram devido à perda de rendimentos em larga escala, já que centenas de milhares de famílias foram obrigadas a fugir das suas casas à procura de segurança. Em resultado, o processo de reunificação pode demorar meses, mesmo depois dos pais terem sido localizados.

Além de apoiar o processo de reunificação familiar, a UNICEF está a trabalhar no sentido de assegurar que raparigas e rapazes maltratados e abusados tenham acesso à justiça como crianças. "Estamos a trabalhar com os departamentos de justiça e da polícia sobre questões que têm a ver com a protecção infantil," indicou Christina de Bruin, vice-representante da UNICEF responsável pela Costa do Marfim.

Neste momento, poucas crianças tiveram ainda a oportunidade de ter acesso ao sistema de justiça, o qual, juntamente com a polícia, ficou paralisado durante a violência pós-eleitoral, quando o exército da Costa do Marfim e as forças militares da oposição causaram o caos em todo o país.

"O Presidente Ouattara e o seu governo indicaram agora que estão preocupados com os direitos das crianças, mas vai demorar algum tempo antes de se implementarem nova decisões políticas," afirmou de Bruin. Até essa altura, milhares de crianças na Costa do Marfim vão continuar numa situação de vulnerabilidade.

*Nome alterado para proteger a identidade da criança (FIN/2012)

 
Terramérica - Meio Ambiente e Desenvolvimento
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