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Educação gravemente ferida em áreas tribais do Paquistã
Ashfaq Yusufzai

Peshawar, Paquistão, 14/1/2013 , (IPS) - Mohammad Akram, de oito anos, teve que abandonar os estudos no segundo ano quando o movimento fundamentalista Talibã destruiu a pequena escola pública que ele e seu irmão frequentavam. "Meu pai não podia pagar escola particular", disse à IPS.


Crédito: Ashfaq Yusufzai/IPS.
Meninos e meninas percorrem as ruínas de sua escola e Fata, Paquistão.
Akram mora na Agência Mohamand, uma das sete Áreas Tribais Administradas Federalmente (Fata), na fronteira com o Afeganistão.

A população das Fata, um celeiro de violência, responsabiliza igualmente o exército do Paquistão e o Talibã pela destruição do sistema de ensino. A intolerância dos talibãs com a educação "moderna", que consideram ser "contra o Islã", junto com a destruição ou ocupação de uma grande quantidade de centros educacionais com fins militares, privou dezenas de milhares de meninos e meninas do direito a uma educação decente. Como resultado, nas Fata a taxa de alfabetização é de 16%, a menor do Paquistão, com média nacional de 47%.

Apesar de desejarem ir à escola e continuar estudando, as crianças passam o tempo brincando na rua e perambulando sem rumo, disse Akram. O oficial de educação adjunto das Fata, Mohammad Rehman, disse à IPS que "os combatentes do Talibã, totalmente contra a educação moderna, destruíram mais escolas em Mohamand do que em qualquer outra agência. Sua campanha deixou 3.800 meninas e 8.200 meninos sem salas de aula".

Os danos causados em 460 escolas nas agências de Fata, 110 em Mohmand, 103 em Bajaur, 55 em Kurram, 65 em Orakzai, 44 no Waziristão do Norte e 16 no Waziristão do Sul. Além disso, também foram afetadas outras 70 na vizinha província de Khyber Pakhtunkhwa (KP), cuja capital é Peshawar. Com resultado, 23 mil meninas e 39 mil meninos ficaram sem aula.

A crise educacional nesta área é resultado da década de conflito armado, que começou quando as forças dos Estados Unidos expulsaram os governo do Talibã de Cabulo, empurrando-os para fora do Afeganistão. A "guerra contra o terrorismo", lançada pelo governo norte-americano após os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque e Washington, fez os talibãs cruzarem a porosa fronteira entre Afeganistão e Paquistão, de 2.400 quilômetros quadrados, e se assentarem nas áreas tribais.

A partir daí, lançaram sua campanha violenta com ataques a prédios estatais, bem como a lenta, mas segura, pulverização do sistema educacional na região. "A primeira escola destruída foi no Waziristão do Sul. E a campanha continua", disse Rehman.

Mas, não só os insurgentes são responsáveis. Cerca de cem mil soldados do exército do Paquistão que realizam operações nas Fata para "erradicar" o Talibã se escondem em prédios públicos, denunciou um morador de Orakzai que não quis se identificar. Outras pessoas afirmam que o exército e o Talibã "são os dois lados da mesma moeda" por sua atitude contra a educação e as gerações mais jovens.

Não há dados oficiais da quantidade de escolas ocupadas pelo exército em Fata porque as autoridades temem "represálias", disse um morador na Agência Orakzai. Mas, é fato que o exército utiliza as escolas como "escritórios" e "acampamentos" desde 2005, afirmou. A secretaria das Fata revelou que o exército reconstruiu 80 escolas em áreas consideradas "pacíficas", segundo a mesma fonte.

O especialista em educação Umar Farooq disse à IPS que este cenário devastador seguramente "fará retroceder os jovens da Fata à idade da pedra". Acrescentou que "a taxa de alfabetização caiu de 30%, em 2000, para 16%, em 2011". As Fata, que já têm a menor taxa de alfabetização do país, deverão enfrentar a tarefa titânica de reconstruir as escolas danificadas pelo Talibã, de reclamar as que estão ocupadas pelo exército e evitar mais destruições, segundo Farooq.

Umar Daraz Khan, funcionário da Direção de Educação das Fata, disse à IPS que a grave escassez de fundos para reparar e reconstruir escolas paralisou os esforços para melhorar a taxa de alfabetização. Mas, nas raras ocasiões em que o dinheiro aparece, a campanha do Talibã dificulta muito a reconstrução, acrescentou. O aporte de US$ 72 milhões do governo da Arábia Saudita permitiu reconstruir 60 escolas na Agência de Bajaur, disse Khan. Mas, especialistas e moradores locais afirmam que há muito por fazer.

Enquanto isso, os professores sentem o peso do sistema educacional que se desfaz. O professor Ghani Shah, desempregado desde março de 2012, quando o Talibã destruiu a escola na qual trabalhava na Agência Bajaur, está furioso com o movimento islâmico e com o exército. Ele é um dos 15 professores que tiveram de recorrer a outras atividades para sobreviver, como "vender frutas e fazer outros trabalhos de meio período porque não há esperanças de uma imediata reconstrução das escolas", disse à IPS.

O legislador Akhunzada Mohammad Chittan, da Agência Bajaur, disse à IPS que o governo está extremamente descontente com a insurgência nas FATA e tenta fazer o melhor para derrotar o Talibã o mais rápido possível e reconstruir as escolas. "Implantamos escolas em barracas de campanha em muitas agências, mas não podem substituir as de alvenaria", afirmou. Os talibãs são "inimigos do Islã e das crianças", ressaltou.

Mas há quem já perdeu as esperanças. Mohammad Jaffar, camponês da Agência Orakzai, contou que emigrou para o distrito vizinho de Kohat, na província de KP, para criar seus dois filhos e uma filha em um ambienta pacífico. "Não há esperança de as escolas abrirem logo porque continua a operação militar iniciada em 2005 e a insurgência está ativa", lamentou. Envolverde/IPS (FIN/2013)

 
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