No Chile pesam mais as injustiças acumuladas do que a economia
Marianela Jarroud
Santiago, Chile, 18/1/2013, (IPS) - Os bons indicadores econômicos do Chile durante
2012 não serviram para o presidente Sebastián Piñera
melhorar sua decaída popularidade, porque sobre a
população pesam mais as injustiças acumuladas não
resolvidas, afirmam analistas ouvidos pela IPS.
O Chile venceu com êxito as inclemências da
crise econômica da Europa, ao fechar o ano
passado com aumento do produto interno bruto
(PIB) de 5,5% e uma taxa de inflação de 1,5%. E o
desemprego afetava apenas 6,2% da população
economicamente ativa ao final de 2012, ano em que
os salários cresceram ao ritmo de 6% tudo
segundo dados oficiais.
O governo comemorou cada um desses indicadores
como um exemplo da força da economia chilena.
Em seu afã para tornar visíveis esses êxitos para a
população, criou o portal www.chilecumple.cl, onde
destaca os avanços da administração do direitista
Piñera, também um empresário de sucesso.
Porém, sua popularidade se mantém em torno dos
30%, com alta rejeição e apenas 28% de aprovação
da maneira como lida com a economia e o
emprego.
O especialista político Mauricio Morales, da
Universidade Diego Portales, explicou que "a
aprovação presidencial responde não apenas aos
indicadores econômicos, mas também aos
atributos pessoais". Disse que "Piñera não é visto
como um presidente honesto ou próximo", ao
contrário da ex-presidente socialista Michelle
Bachelet (2006-2010), com uma taxa superior a
50% de aprovação pela população.
Isso coloca a atual diretora da ONU Mulheres como
a candidata com maiores probabilidades de vencer
as eleições presidenciais de outubro, embora ela
ainda não tenha apresentado oficialmente sua
candidatura. Morales acrescentou que as
pesquisas, em geral, mostram que sempre há uma
brecha entre a aprovação ao manejo econômico
dos governos e quem está na Presidência. Porém,
"com Piñera os dois indicadores são quase
idênticos, o que demonstra que, efetivamente, os
atributos são muito relevantes", disse.
O economista Manuel Riesco, do Centro de
Estudos Nacionais de Desenvolvimento Alternativo,
afirmou que a desaprovação da população e a
pouca relevância que dá aos indicadores
econômicos são uma resposta a "injustiças
acumuladas". Riesco acrescentou que "o
descontentamento da população não se deve aos
indicadores econômicos mas ao abuso
generalizado a que vem sendo submetida ao longo
das duas últimas décadas, tanto em períodos de
vacas gordas, como agora, quando nos de vacas
magras".
Segundo o economista, "as pessoas pensaram
equivocadamente que os abusos terminaram com a
ditadura (1973-1990). Mas isto não aconteceu,
lamentavelmente, porque apesar da
democratização do sistema político, foi mantido o
modelo sem mudanças fundamentais". Além disto,
"a população chilena está muito melhor informada
do que se pensa e é muito paciente, mas a cada
dez anos pode perder a paciência e agora já
completamos 20", pontuou. Isto explica, de acordo
com Riesco, a situação atual em que "novamente
está em ascensão a participação maciça da
população nos assuntos públicos. E não vai
diminuir até serem resolvidos os grandes
problemas".
Os protestos sociais continuaram no Chile em
2012, quando ganhou protagonismo a demanda por
uma reforma estrutural do sistema político e da
governabilidade, em lugar da democratização da
educação que marcou a luta no ano anterior. Se em
2011 os estudantes foram os atores indiscutíveis do
protesto, em 2012 os cidadãos lutaram por temas
ambientais, econômicos e sociais, que foram
resumidos na demanda por uma reforma da
Constituição, com a convocação de uma
assembleia constituinte.
A atual lei fundamental vigora desde 1980 e é uma
herança da ditadura do falecido general Augusto
Pinochet (1973-1990). Ativistas sociais afirmam que
seu texto limita o desenvolvimento institucional
necessário para o desenvolvimento da democracia
e de uma sociedade mais igualitária e moderna.
As pessoas se unem a especialistas do mundo
acadêmico, político e social na crítica ao fato de o
crescimento econômico não se traduzir em uma
redução da desigualdade social da pobreza ou da
degradação ecológica. Mercedes Muñoz,
professora de educação básica por quase 40 anos
e que está para se aposentar, disse à IPS que os
números anunciados pelo governo "em nada"
refletem o dia a dia de um cidadão comum. "O
governo parece não investir em educação, saúde,
em nada que nos faça viver mais tranquilos e
melhor, em que a economia de toda uma vida seja
capaz de sustentar a velhice, em que os pais não
se endividem eternamente para que seus filhos
estudem", acrescentou a professora.
Muñoz acrescentou que esses indicadores
econômicos "se refletem apenas nos mais ricos do
país" e ressaltou que se a macroeconomia do Chile
se salvar dos embates da crise financeira
internacional "será à custa do sacrifício do povo". O
Chile, país que há décadas é considerado o
"milagre latino-americano" pela pujança de sua
economia e redução da pobreza, se caracteriza por
ter uma das maiores brechas entre ricos e pobres
da América Latina. Segundo a Pesquisa de
Caracterização Socioeconômica Nacional 2012
(Casen), a diferença entre o que recebem os
setores mais ricos e os mais pobres caiu de 46
vezes em 2009 para 35 vezes em 2011.
Riesco explicou que, além da percepção da
sociedade, "certamente é motivo de comemoração
o fato de o país conseguir sair em boa forma da
crise financeira mundial", que começou em 2008
nos Estados Unidos e que desde 2010 tem seu
foco na Europa. No entanto, alertou para o fato de
esse êxito depender de um fator externo, "o
incomum aumento do preço do cobre, a principal
riqueza do país".
Os ingressos com esse metal "são quase pura
renda, isto é, excedente sobre o custo de produção
do cobre. Assim, não é valor agregado pelo trabalho
dos chilenos mas uma renda transferida do exterior
e da qual se apropriam as grandes mineradoras em
sua maior parte", explicou Riesco, acrescentando
que pelo menos um quinto do PIB chileno se refere
à renda com mineração, "a qual, por definição, é
efêmera e pode desaparecer como ocorreu com o
salitre em sua época".
Além disso, segundo Riesco, "o preço do cobre
inevitavelmente baixará, e isso contrairá a
economia chilena em suas verdadeiras proporções,
que não são outras que não o valor agregado
internamente, ou se preferirmos, a soma dos
custos de produção; tudo o que excede estes
últimos é renda, efêmera". O governo, no entanto,
se prepara neste começo de ano para antecipar
que em seu fechamento a economia crescerá 5%,
a inflação baixará a uma taxa anual de 3% e o
gasto fiscal aumentará 5%, em um ano marcado
pelas eleições presidenciais e legislativas.
Apesar desse cenário otimista, para Morales "o
presidente já deixou de alcançar uma grande
popularidade" e em 2013, seu último ano de
governo, "enfrentará como nunca a solidão do
poder". Envolverde/IPS (FIN/2013)
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