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COLUNA
A emigração cubana: entre o sonho e o pesadelo
Leonardo Padura Fuentes*

Havana, Cuba, janeiro/2013, (IPS) - Embora tenham corrido rios de tinta, como costumávamos dizer antigamente, sobre a reforma migratória cubana, creio que a essência do drama, vivido por quase cinco décadas em torno de uma política que limitava e controlava a possibilidade do livre movimento dos cubanos, ficou plasmada em toda sua dramaticidade em uma simples caricatura.

Leonardo Padura
Nessa imagem aparecem dois idosos, com seus novos passaportes debaixo do braço, e um pergunta ao outro: "Bem, e agora?".

Desde o começo da década de 1960, em um contexto de guerra fria e com a adoção da política migratória típica dos países socialistas, o fato de migrar se converteu em um calvário para os cubanos que queriam, pensavam ou aspiravam eventualmente fazê-lo, fosse por razões políticas, econômicas ou familiares. Em tom com essa política restritiva foram criadas figuras legais com a "saída definitiva", uma espécie de desterro perpétuo que implicava a impossibilidade de regresso para quem partia (todos seus bens eram confiscados), a figura física e estigmatizada do "que ficou", representada por esses milhares de cubanos que aproveitavam uma viagem de estudos ou trabalho para solicitar asilo ou residência em outros países, e a do "refém", familiar de alguém "que ficou" e que era impedido, ou se prorrogava a possibilidade, de se reunir com o "desertor".

A atual reforma - que, desde o dia 14, permite viagens de Cuba e para Cuba à maioria dos cubanos e chega em um momento de mudanças múltiplas na ilha (sobretudo econômicos e sociais) - mostrou de imediato suas limitações para as ânsias dos potenciais migrantes cubanos. O grande obstáculo agora está fora do país, pois um passaporte sem visto só pode levar os cubanos a destinos não muito apreciados, entre os quais não estão, naturalmente, Estados Unidos, Canadá, Europa ou a maioria dos países latino-americanos. O governo do Equador, por exemplo, que até agora admitia os cubanos sem a exigência do visto, decidiu solicitar uma carta-convite enviada por alguém de dentro de seu país que se responsabilize com a manutenção do viajante, medida que pretende controlar o fluxo possível de cubanos para essa nação.

Também como resposta imediata à nova lei, certos grupos do exílio cubano no sul da Flórida, entre eles alguns de seus representantes políticos, diante do temor de um suposto êxodo, começaram a pedir uma revisão da famosa Lei de Ajuste Cubano (1966), que acolhia qualquer cidadão da ilha que chegasse a território norte-americano. Esses grupos e essas pessoas agora pretendem que se levante um novo muro migratório, pois reclamam que a lei se limite aos verdadeiros "refugiados" ou "perseguidos" políticos, e não inclua os que emigram para tentar uma vida melhor. Naturalmente, sempre contando com que essas pessoas lhes concedam o difícil visto norte-americano ou que cheguem ao país arriscando suas vidas cruzando a fronteira no estreito da Flórida, a bordo das famosas balsas.

Diante de tais situações, qualquer mente mais ou menos lúcida não poderia de deixar de se interrogar por que razão as autoridades cubanas mantiveram por tanto tempo restrições à possibilidade de emigrar que tantos no mundo criticavam, quase sempre com razão, e que agora limitam ou pretendem limitar. E também se poderia perguntar alguém lúcido e perspicaz por que há tantos cubanos que, pelas mais diversas razões, aspiram engrossar as filas dos emigrantes.

Acontece que enquanto algumas portas se abrem para muitos cubanos com desejos de viajar, outras permanecem fechadas e algumas outras se pretende entreabrir perigosamente. Mas, com independência dessas aberturas e desses fechamentos, o drama interno deste conflito migratório revela seu ponto mais trágico nas imagens da caricatura citada: a de duas ou três gerações de cubanos que por anos não tiveram a possibilidade de viajar livremente, permanecer no exterior o tempo que desejassem e retornar quando quisessem ou necessitassem, esses milhões de cubanos que foram prisioneiros de uma lei que limitava e até impedia seus projetos de vida.

Para os cubanos mais jovens a reforma migratória pode significar uma esperança de fazer, em Cuba ou onde quiserem, a vida que mais ou menos possam construir. Já para a geração de seus pais e avós, profissionais ou não, a possibilidade de desfrutar dessa liberdade concedida é muito mais escassa e difícil. Com os anos vividos sobre os ombros, no contexto de um mundo no qual cada vez mais o mercado de trabalho exige sangue fresco, já sem tempo para se reciclar profissionalmente, o sonho que alguns acariciaram de poder migrar pode muito bem se converter em um pesadelo. Para onde ir? Do que viver? Como se integrar a um mundo em crise com 45, 50, 60 anos de idade? Ir e ficar? Ir e voltar? Quem os quer?

O mais complicado para essas gerações de cubanos é que o drama da opção migratória, que como possibilidade lhes chega com atraso, em outras escalas se reproduz para eles dentro das fronteiras cubanas, onde são instituídas mudanças econômicas nas quais a habilidade, a força e a competitividade são cada vez mais necessárias para os que desejam superar a categoria de assalariados públicos, atados aos insuficientes ganhos proporcionados por seus esforços. Tantas adversidades que os convertem em figuras de tragédia, mais do que de risonhas caricaturas. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas, e sua obra mais recente, O homem que amava os cães, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ramón Mercader. (FIN/2013)

 
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