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Lago sagrado sob ameaça
Marianela Jarroud*

Santiago, Chile, 4 de fevereiro de 2013 , (IPS) - (Terramérica).- O leito do Lago Neltume guarda um patrimônio arqueológico subaquático que só é conhecido dos mapuches, e que seria removido pelas obras de uma projetada central hidrelétrica.


Crédito: Marianela Jarroud/IPS
Panorâmica do Lago Neltume, sagrado para os mapuches da Região dos Rios, que seria usado como desembocadura da central hidrelétrica de mesmo nome.
"Este é o paraíso e querem destruí-lo. Estão nos causando um impacto enorme", resumiu Guido Melinao, dirigente da comunidade mapuche Valeriano Cayicul, ao descrever o projeto Central Hidrelétrica Neltume, do consórcio espanhol-italiano Endesa-Enel. Com investimento de US$ 781 milhões, o projeto busca alcançar capacidade instalada de 490 megawatts (MW) e geração média anual estimada de 1.885 gigawatts/hora.

Além da central, que utilizará as águas do Rio Fuy e desembocará no Lago Neltume, o plano do consórcio inclui uma linha de alta tensão para distribuir a eletricidade no Sistema Interligado Central do Chile. O projeto entrou no Sistema de Avaliação de Impacto Ambiental em fevereiro de 2010, mas foi retirado após receber mais de 500 observações. Em dezembro do mesmo ano voltou a ser apresentado.

Em janeiro de 2011, o governamental Conselho Regional o rejeitou por considerá-lo incompatível com políticas, planos e programas de desenvolvimento local e comunitário. Contudo, ainda não há uma resposta oficial sobre sua construção. Neltume é uma localidade da comunidade de Panguipulli, 860 quilômetros ao sul de Santiago. A região, denominada Sete Lagos, é uma das mais concorridas na alta temporada de turismo da Região dos Rios.

Ali existe um amplo patrimônio natural, com grande diversidade de florestas, rios, lagos, lagoas e charcos. "Trata-se de uma terra de refúgio para as comunidades que, apesar da expansão da indústria florestal que houve no século 20, puderam consumar-se com seus próprios espaços e territórios", disse ao Terramérica o diretor do Departamento de Antropologia da Universidade Alberto Hurtado, Juan Carlos Skewes, que dirigiu nessa área a pesquisa antropológica As Paisagens da Água, Práticas Sociais e Sustentabilidade na Bacia Hidrográfica do Rio Valdivia.

Segundo o especialista, "a forma que as comunidades têm de povoar seu território responde a padrões muito antigos, arqueológicos", que em essência consistem "na localização com vista para o nascer do Sol e procurando conservar sempre a vinculação entre o vulcão e o lago". O Lago Neltume está rodeado de montes da Cordilheira dos Andes e com vista para o Vulcão Choshuenco. Em uma de suas margens fica o rewe, o totem, parte fundamental de um complexo cerimonial dos mapuches huilliches (do sul), que habitam a região.

Jorge Weke, werkén (porta-voz) do Parlamento de Koz Koz de Panguipulli, detalhou ao Terramérica que a empresa busca "profanar esse complexo, o que é um sacrilégio". Explicou que esse cenário "não é visível para os chilenos e está pouco documentado também na literatura. Estamos diante de uma prática que tem pelo menos 700 anos, do ponto de vista arqueológico, e que permanece até hoje".

No fundo do Neltume há "uma espécie de arqueologia subaquática da qual somente os mapuches têm consciência", formada pelas ossadas de touros, oferendas sagradas que sacrificam em suas cerimônias. A obras elevarão o nível do Lago e, portanto, a base onde se instala o rewe ficará submersa. Também alterarão a temperatura da água, com efeitos na biodiversidade da região, segundo Skewes. Além disso, serão retiradas as ossadas depositadas no leito do Lago.

Na cosmovisão mapuche, um aspecto central são os ngen, espíritos donos da natureza. Água, ar, floresta, cada um está guardado por um dono que deve ser respeitado. Do contrário este se afasta, levando consigo o elemento natural que custodia, contou o antropólogo. Por isso, as intensas chuvas que caíram no último nguillatún (cerimônia mapuche), em dezembro, foram "um péssimo presságio" para os mapuches.

Segundo Skewes, "não só porque choveu de forma abundante, mas porque a chuva elevou o nível do Lago ao qual chegaria com a concretização do projeto da hidrelétrica. Por isto, fizeram suas orações literalmente com os pés dentro da água", o que "gera um forte estresse" aos mapuches, que entendem o comportamento do clima como "um reflexo do comportamento dos seres humanos".

Os mapuches da região reclamam que dezenas de espécies vegetais medicinais serão destruídas pela obra, como o matico (Buddleja globosa), a casca d'anta (Drimys winteri) e o louro chileno (Laurelia sempervirens). Até o momento, cinco comunidades, com centenas de pessoas, se opõem ao projeto, Somente está a favor um grupo da comunidade Juan Quintumán, cujos dirigentes não quiseram expor seus argumentos ao Terramérica. Porém, é público que a empresa entregou a alguns membros da comunidade dinheiro, materiais de construção para melhorarem suas casas, forragens e animais.

As diferentes posturas deram lugar a rivalidades entre comunidades irmãs que, segundo Skewes, perdurarão por três gerações. "Cria-se um racha internamente que é bastante profundo", pontuou. Em um comunicado do dia 21 de janeiro, a Endesa Chile diz que está presente "na comunidade Juan Quintumán e nas localidades de Neltume, Choshuenco e Puerto Fiy desde 2007, mantendo estreito laço de trabalho, que tem como fruto o desenvolvimento de diversos projetos nas áreas de cultura, infraestrutura, saúde e educação". Skewes criticou a "psicopatia pública" do Estado, que pretende que uma empresa transnacional possa estabelecer um diálogo de iguais com uma família indígena que habita as proximidades do Neltume.

No momento, os críticos do projeto não querem ser parte da consulta estabelecida na nova lei ambiental, por considerarem que se apresenta como alternativa ao Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho, Sobre Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes, que obriga a consulta a essas populações sobre projetos em seus territórios. Weke viajou à Itália e apresentou a rejeição de sua gente diante da direção da Enel. Guido Melinao visitou as embaixadas desse país e da Espanha em Santiago e garantiu que "morreremos lutando por nosso território". Envolverde/Terramérica

* A autora é correspondente da IPS, enviada especial. (FIN/2013)

 
Terramérica - Meio Ambiente e Desenvolvimento
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