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Suíça diante de frouxos controles de mercenários
Ray Smith

Basileia, Suíça, 20/2/2013, (IPS) - O governo suíço apresentou um projeto de lei para regular a indústria militar privada, mas críticos afirmam que é inútil. No dia 24 de março de 2010 foi incluída uma nova empresa no registro comercial da Basileia.


Crédito: Ray Smith/IPS
A Aegis, uma empresa privada dedicada “à segurança e ao manejo de riscos”, se mudou silenciosamente para a Suíça.
Seu nome era Aegis Group Holdings AG. Poucos meses depois, em 2 de agosto, foi informado que o grupo havia assumido o controle sobre a Aegis Defense Services Ltd., com sede em Londres.

A Aegis descreve a si mesma como "uma empresa líder" na área "de segurança privada e manejo de riscos". Assim, fornece serviços em todo o mundo, incluindo países devastados por guerras, como Iraque e Afeganistão. A chegada da companhia pegou de surpresa o governo, e também o público. A previsão é de que mais empresas militares privadas se mudarão para a Suíça tentando tirar proveito da estabilidade política do país, dos baixos impostos e de sua imagem pacífica e de neutralidade.

As companhias militares privadas legalmente não diferem de nenhum outro fornecedor de serviços de segurança, e as firmas ativas em áreas de conflito são difíceis de serem identificadas no registro comercial. O Departamento Federal de Justiça e Polícia estima que no país operam 20 dessas empresas.

A Suíça tem uma longa história de enviar agricultores pobres como mercenários para campos de batalha europeus. No final da Idade Média, os cantões suíços assumiram o papel de mediadores. A queda do negócio dos mercenários começou no século 18 e terminou com a introdução da Constituição federal suíça em 1848. A partir de 1859, já não era permitido combater em campos de batalha estrangeiros. Desde então a "neutralidade" se converteu em um elemento fundamental da política externa da Suíça e, de um modo mitológico, em uma peça fundamental de sua identidade coletiva.

Muitos viram a chegada da Aegis como uma ameaça à neutralidade do país. Os políticos suíços impulsionaram a criação de um novo contexto legal para o registro e a extensão de licenças para empresas de segurança privada. Josef Lang, então conselheiro nacional e uma das principais figuras do Grupo Para Uma Suíça Sem Exército, pediu uma proibição nacional para as companhias militares privadas.

A ministra da Justiça, Simonetta Sommaruga, anunciou no dia 23 de janeiro uma "proibição para as companhias mercenárias". Afirmou que a Suíça já não serviria como base para atividades que violaram os direitos humanos. Mas, o que foi anunciado como uma "proibição" se mostrou ser uma regulação inútil. O projeto de lei prevê a notificação e proibição de certas atividades, mas não das companhias de segurança privadas em si mesmas. Proíbe que firmas ou grupos empresariais com sede na Suíça "participem diretamente de hostilidades dentro de um conflito armado no exterior".

Em poucas palavras, "isto significa que a nova lei permite às chamadas empresas de segurança agirem dentro de conflitos armados no exterior e participarem indiretamente das hostilidades", disse Josef Lang. "Quem pensa que no fragor da batalha alguém pode diferenciar entre participação 'direta' e 'indireta', não tem ideia de como são as batalhas atuais", acrescentou.

Ulrich Petersohn, pesquisador do Centro para os Estudos sobre Segurança, disse que no direito internacional a definição de "participação direta em hostilidades" é vaga e está sujeita a debate. "E onde termina a autodefesa?", perguntou. "Obviamente, há uma zona cinza", acrescentou. Petersohn também apresentou um dilema realista. "O que se aplica quando é atacado um complexo militar custodiado por pessoal de empresas militares privadas?".

O novo projeto de lei também proíbe essas companhias de "realizarem qualquer atividade que incentive violações sérias aos direitos humanos". Sobre isto, Lang perguntou: "Por acaso significa que está permitido incentivar violações leves dos direitos humanos?". O político do Partido Verde acredita que a lei não pode obrigar a Aegis a deixar a Suíça. "Eles simplesmente prometerão não participar diretamente de hostilidades em áreas de conflito, e também nada fazer para incentivar violações sérias aos direitos humanos".

Não está claro como as autoridades suíças poderão controlar as atividades dos mercenários no terreno. Albert A. Stahel, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos, com sede em Wädenswil, perto de Zurique, acredita ser possível uma queda da atração que a Suíça representa para as companhias militares privadas, mas disse que as que já estão presentes no país não serão limitadas. "O Conselho Federal deveria ter proposto uma proibição clara para as empresas militares privadas, declarando expressamente que não toleramos nenhuma firma que participe de guerras", enfatizouo Stahel à IPS.

Petersohn tampouco vê uma imposição de limitações legais significativas para a Aegis. "No entanto, a arma mais afiada do projeto de lei é que podem ser apresentadas demandas com base em suspeitas". As companhias estão ansiosas para evitar publicidade negativa, e isto pode colocá-las sob pressão, explicou.

Lang citou como exemplo a rígida regulação da Noruega. "Em lugar de proibir determinadas atividades praticamente impossíveis de serem definidas, seria mais factível aplicar um critério mais controlável. As empresas norueguesas não têm permitido a entrada de armas em outros países", afirmou. No plano internacional, a Suíça, junto como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, lançou um processo que levou, em 2008, ao Documento de Montreux. Este texto intergovernamental assinado por 44 Estados contém uma compilação de boas práticas, mas não é legalmente vinculante.

Inesperadamente, a lei proposta pelo governo suíço não adere às boas práticas sugeridas. O Documento de Montreux promove medidas para garantir a transparência em autorizações como a do controle por parte dos órgãos parlamentares. O projeto suíço deixa fora toda medida de transparência. No entanto, se for aprovada, a lei obrigará as companhias militares privadas que operam na Suíça a assinar o Código de Conduta Internacional para Fornecedores de Serviços de Segurança Privada (Icoc-PSP), um contexto autorregulatório já assinado por 592 empresas do setor.

Para Stahel, este enfoque é inútil, porque não há mecanismo para impor sanções. Petersohn tem esperanças de que esses códigos possam levar ao desenvolvimento de normas que impliquem certo grau de obrigatoriedade. O Icoc-PSP é funcional principalmente para a imagem das empresas signatárias, e mantém à distância outros fornecedores de serviços. Petersohn enfatizou que as violações ao Código, de todo modo, correm o risco de desembocar em campanhas de denúncias. O parlamento suíço debaterá o projeto de lei, mas não se espera que o torne mais severo. "Foi dado um passo nessa direção. Porém, o copo está apenas pela metade", disse Stahel. Envolverde/IPS (FIN/2013)

 
Terramérica - Meio Ambiente e Desenvolvimento
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