África
  Mundo
  Economía
  Direitos Humanos
  Saúde
  Ambiente
  Globalização
  Arte e Cultura
  Energia
  Politica
  Desenvolvimento
  Colunistas
 
  RSS o que é isso?
   ENGLISH
   ESPAÑOL
   FRANÇAIS
   SVENSKA
   ITALIANO
   DEUTSCH
   SWAHILI
   MAGYAR
   NEDERLANDS
   ARABIC
   POLSKI
   ČESKY
   SUOMI
   PORTUGUÊS
   JAPANESE
   TÜRKÇE
PrintSend to a friend
 


Abrir as torneiras é um acto arriscado no Zimbabwe
Stanley Kwenda

HARARE, 15 abr 2013, (IPS) - Durante três semanas Tavonga Kwidini e a mulher Maria não tiveram água nas torneiras na sua casa em Glen View, um dos muitos bairros sem água em Harare, a capital do Zimbabwe.

O casal estava a chegar ao fim da sua paciência quando fortes chuvas começaram a cair como uma dádiva dos céus. "Agora recolhemos a água da chuva e é isso que usamos para tomar banho, beber e para descarga nas retretes," disse Kwidini à IPS enquanto alinhava baldes debaixo do telhado da sua casa à espera das chuvas de Janeiro. Esta tem sido a sua vida desde a segunda semana de Dezembro de 2012, a última vez que teve acesso a água da torneira. Surpreendentemente, continua a receber a conta de água da municipalidade, em média 80 dólares por mês. "Os problemas com a água não são novos aqui - em 2008 alguns dos meus vizinhos morreram de cólera devido a essa escassez de água mas a municipalidade nada faz para assegurar que temos acesso a água potável," explica Kwidini.

A assistência das Nações Unidas continua a ser necessária No passado, o problema era geralmente atribuído à escassez dos químicos que são usados para desinfectar a água, mas há quase meia década que esta desculpa é inadequada, visto que o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) tem fornecido estes químicos gratuitamente aos 20 municípios urbanos. A assistência das Nações Unidas ocorreu depois da epidemia de cólera em 2008 que matou cerca de 4.000 pessoas. Só em Abril do ano passado, quando as autoridades locais indicaram que a situação estava sob controlo, é que a UNICEF suspendeu o seu apoio, segundo a Directora de Comunicação da UNICEF, Micaela Marques de Sousa. Contudo, os especialistas e os habitantes locais concordam que o actual status quo poderá obrigar a agência de ajuda humanitária a reavaliar a sua posição, uma vez que o acesso a água potável é um dos oito Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), cuja meta de concretização em 2015 se está a aproximar rapidamente. Até à retirada do programa da UNICEF para a Água, Saneamento e Higiene (WASH) em 2008, a situação tinha melhorado visivelmente, com um maior número de pessoas nos 20 centros urbanos do Zimbabwe a conseguir ter acesso a água potável e serviços de saneamento. Agora é comum ver-se inúmeras pessoas nas zonas urbanas do Zimbabwe a carregarem baldes à procura de água, uma ocorrência que anteriormente estava limitada às zonas rurais. "Não temos outra opção excepto movimentarmo-nos de uma área para outra à procura de poços com água potável. Temos tido sorte devido às chuvas, caso contrário teria de carregar um balde de 20 litros para o meu local de trabalho de forma a poder trazer água potável para casa," explica Kwidini, que trabalha numa loja grossista no centro de Harare.

Residentes procuram alternativas Como acontece em muitas crises, as mulheres e crianças fazem a maior parte do trabalho. As mulheres, que agora recorrem a fazer as suas lavagens em cursos de água que muitas vezes são usados como zonas de despejo pelas companhias industriais, ficam vulneráveis a perigos para a saúde. Entretanto, as crianças estão a ser obrigadas a desempenhar o papel de "carregadoras de água".

"O meu dia começa às cinco da manhã quando vou para a fila no poço local para obter a água do banho para o meu pai, para mim e para uso doméstico," relatou Thelma, de 14 anos, à IPS. Como muitos dos seus colegas, Thelma tem de ir para uma longa fila muito cedo ou então arrisca-se a chegar tarde à escola. O número de poços em funcionamento é insuficiente para servir a população urbana e quando ficam avariados - uma ocorrência comum - muitas vezes são deixados em estado de degradação. Um poço no Centro Comercial de Tichagarika, no bairro de Glen View, que era usado por centenas de moradores, avariou em Junho do ano passado e permaneceu inactivo até os seus componentes terem sido roubados. O governo ajudou Harare a escavar 250 poços por toda a capital, mas os moradores afirmam que a grande maioria está avariada ou só fornece água contaminada. Segundo o relatório de monitorização de doenças do Ministério da Saúde e Bem-Estar Infantil, cerca de 50 casos de febre tifóide são registados todos os dias em Harare e cidades satélite. Aproximadamente 500.000 pessoas no Zimbabwe tiveram diarreia em 2012, e destas, 460.000 foram casos graves, tendo havido 281 mortes. As estatísticas de um grupo de pressão, o Trust dos Moradores de Harare, sugerem que só 192.000 agregados familiares em Harare, cidade com dois milhões de habitantes, é que estão ligadas à rede de abastecimento de água, enquanto que os restantes dependem dos poços ou da água das chuvas. Para piorar a situação, o Trust dos Moradores de Harare alega que a cidade perde 60 por cento da água tratada devido a fugas nas velhas infra-estruturas. Harare necessita de 1.300 megalitros de água por dia mas o actual abastecimento diário varia entre 600 a 700 megalitros, aproximadamente metade da procura. Além disso, o Zimbabwe gasta 27 milhões de dólares por mês para tratar o abastecimento de água. A Directora do Trust dos Moradores de Harare, Precious Shumba, disse à IPS que os problemas que a cidade enfrenta se devem à incapacidade das municipalidades locais de disponibilizarem os serviços mais básicos aos moradores de forma adequada. "Estamos muito desapontados com o nível de prestação de serviços - a qualidade é péssima e os moradores queixam-se de dores de estômago e doenças diarreicas como a tifóide. A maior parte do tempo a água que sai da torneira tem mau cheiro e com impuridades visíveis," afirmou Shumba. "Em áreas como Crowborough, Dzivarasekwa, Glen Norah e Budiriro, os moradores viram partículas vegetais e sadza (milho cozido) saírem da torneira, aumentando os receios relacionados com a segurança e sustentabilidade desta água para consumo humano," acrescentou Shumba. Um recente estudo da Universidade do Zimbabwe indicou que uma em cada 1.000 pessoas na capital corre o risco de desenvolver cancro do colón ou do fígado devido ao consumo contínuo de água insalubre retirada de fontes poluídas. Christopher Zvobgo, engenheiro da cidade de Harare, contestou vigorosamente estes resultados, apesar de ter admitido que não havia dúvida que a cidade enfrentava desafios relacionados com a água. "Fazemos exames à água diariamente e retiramos amostras de pontos diferentes. Todos os meses enviamos (as amostras) a dois laboratórios independentes para serem examinadas e elas satisfazem os padrões da Organização Mundial de Saúde," explicou Zvobgo, acrescentando que o maior problema residia nas infra-estruturas de água envelhecidas. Mas de regresso a Glen View, moradores como Alois Chidoda e os filhos são obrigados a depender dos poços porque a água que sai da torneira "tem uma cor castanha" e simplesmente não é apropriada para consumo humano, disse Chidoda à IPS. "A sua utilização seria equivalente a convidar doenças," acrescentou Chidoda. O Presidente da Associação dos Municípios Urbanos do Zimbabwe, Femias Chakabuda, atribui a falta de água nas áreas urbanas do país às crescentes dívidas do governo. "O problema é que o nosso governo quer usar a água gratuitamente, o que nos impossibilita de reparar as infra-estruturas de água e pagar os nossos próprios prestadores de serviços," disse Chakabuda à IPS, acrescentando que actualmente o governo deve ao Município da Cidade de Harare mais de 10 milhões de dólares, ao Município da Cidade de Masvingo sete milhões de dólares e o Município da Cidade de Bulawayo quatro milhões de dólares, que são pagamentos retroactivos pela prestação de serviços de água.

(FIN/2013)

 
Terramérica - Meio Ambiente e Desenvolvimento
  Mais noticias
News in RSS
 Sri Lanka recorre e métodos ancestrais contra a mudança climática
 Salva-vidas afunda ainda mais a Grécia
 Ampliação de estrada atenta contra patrimônio cultural indiano
 A ignorada faceta produtiva da cannabis
 DESTAQUES: Código de barras até em colmeias
 REPORTAGEM: Estrada no Parque Nacional do Iguaçu pode acabar em impasse
 "Quando a corda da desigualdade se rompe, você tem uma crise política"
 Direitos femininos serão eixo de reunião do UNFPA em Montevidéu
 Preocupa que tensão entre Rússia e Estados Unidos afete negociação nuclear
 Trabalhadores espanhóis vítimas de disputa entre Madri e Gibraltar
MAIS>>
  Latest News
News in RSS
 U.S. Debating “Historic” Support for Off-Grid Electricity in Africa
 U.S. Ranks Near Bottom Globally in Energy Efficiency
 Child Migrants – A “Torn Artery” in Central America
 As Winds of Change Blow, South America Builds Its House with BRICS
 U.S. Accused of Forcing EU to Accept Tar Sands Oil
MORE >>
  Ultimas Noticias
News in RSS
 Gaza bajo fuego: un desastre humanitario
 Malnutrición golpea a niñas y niños sirios en Líbano
 Japón mantiene su compromiso con la Constitución de la Paz
 La ONU no intenta siquiera una resolución contra masacre en Gaza
 La Unión Europea en transición
MÁS >>