AMBIENTE-ANGOLA:
Em busca dos segredos do rio Kwanza
Steven Lang
Grahamstown, África do Sul, 26/03/2008 (IPS) - Mais de 50 espécies de peixes foram identificadas e registradas na fase inicial de um projeto de pesquisa de dois anos, no rio Kwanza, em Angola.

O Instituto Nacional de Pesquisa Pesqueira (Unip), desse país, e o Instituto Sul-Africano de Biodiversidade Aquática (Saiab), vinculado á Universidade de Rhodes, na África do Sul, associaram-se para conhecer em profundidades espécies que habitam a baixa do Kwanza.

O Ministério da Pesca de Angola encomendou ao Inip uma pesquisa sobre o potencial do Kwanza, que desemboca no oceano Atlântico cerca de 60 quilômetros ao sul de Luanda. Mas antes de avaliar seu potencial para a pesca o Inip estimou como prioridade uma pesquisa completa sobre a biodiversidade do rio e a elaboração de uma lista das espécies que o habitam. O instituto entrou em contato, no final de 2005, com o Saiab para avaliar a possível pesquisa conjunta.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) bancou a maior parte do financiamento da iniciativa. Também contribuiu com uma quantia substancial a Fundação Nacional de Pesquisa, da África do Sul. Três especialistas do Saiab, Ernst Swartz, Paul Skelton e Luis da Costa, visitaram Angola em novembro passado para fazer um diagnóstico do alcance do projeto. Os três realizaram trabalhos de campo na represa de Capanda, 230 quilômetros a sudeste de Luanda, junto com pesquisadores do Inip e da empresa estatal que gerencia a obra.

Depois, fizeram outra pesquisa conjunta no Parque Nacional Kissama, na bacia baixa do rio Kwanza, a 70 quilômetros de Luanda, com funcionários do estabelecimento. Em seguida, Swartz e Costa participaram da conferência anual do Ministério da Pesca e o Inip, na qual explicaram a diversidade de peixes do rio e discutiram oportunidades de projetos futuros. Entre eles, destacaram uma série de painéis dedicados a capacitação de pesquisadores angolanos, a ser realizada na sede da Saiab nesta cidade sul-africana no final deste ano.

Os painéis se concentrarão em técnicas de coleta de dados, identificação de peixes e processos de cura. Os responsáveis pelo projeto aproveitarão para planejar a coleta de dados final bem como a publicação dos resultados no próximo ano. Alguns pesquisadores acreditam que o projeto poderia derivar na descoberta de espécies desconhecidas para a ciência. Por isso realizam analises morfológicas e genéticas rigorosas. A desembocadura do rio Kwanza é conhecida em círculos de pesca maior como um excelente lugar para uso de redes de arrastão e capturar sábalos (da família da sardinha), que ali chegam a pesar 90 quilos, em média.

Os pescadores locais estão familiarizados com as espécies da região, mas até que começasse a pesquisa do Inip e do Saiab não fora feita nenhuma tentativa pra compilar informação de todas as espécies do rio. Quando o governo de Angola decidiu construir uma represa no Kwanza, por exemplo, nenhum estudo de impacto ambiental avaliou os efeitos de um projeto dessas dimensões sobre a biodiversidade fluvial. As autoridades angolanas assinaram em 1982 um acordo com empresas do Brasil e da hoje extinta União Soviética para construir a represa de Capanda. Os trabalhos começaram quatro anos depois, com investimento estatal de US$ 750 milhões.

Porém, os atrasos causados pela guerra civil elevaram o custo total estimado do projeto para mais de US$ 4 bilhoes. A guerra acabou formalmente em 1991, mas houve enfrentamentos esporádicos ate 2002. Capanda é o maior projeto de engenharia civil de Angola. O Ministério da Pesca espera que a infra-estrutura de Capanda seja vital para a pesca de espécies de água doce no futuro. Mas o projeto principal da represa é a geração de energia elétrica para Luanda e as províncias do norte do país.

Capanda conta com quatro turbinas, cada uma com capacidade para 130 megawatts de eletricidade, com produção total de 520 megawatts. Elas funcionam, mas ainda há problemas para levar eletricidade a Luanda, onde os cortes no fornecimento fazem parte da vida diária. O projeto de pesquisa do Inip e do Saiab oferecerá informação útil para o governo, que pretende construir pelo menos outras sete represas no pouco utilizado Kwanza. Calcula-se que a corrente do rio tem o potencial para gerar mais de cinco mil megawatts de energia, segundo fontes oficiais. (IPS/Envolverde) (END/2008)