ANGOLA:
Iniciativa de Investigação Produz Descobertas Interessantes
Steven Lang
GRAHAMSTOWN, Sudeste da África do Sul, 3 de Abril (IPS) - Mais de 50 espécies de peixes foram registadas na fase inicial de um projecto de investigação conjunta de dois anos no Rio Kwanza em Angola.

Uma instituição de investigação angolana, o Instituto Nacional de Investigação Pesqueira (INIP), e o Instituto Sul Africano de Biodiversidade Aquática (SAIAB), um agrupamento académico filiado na Universidade de Rodes em Grahamstown, têm trabalhado em conjunto para descobrir mais sobre os peixes que vivem nas águas mais profundas do Rio Kwanza.

O Ministério das Pescas angolano incumbiu o INIP de investigar o potencial piscatório do rio, que flui para o Oceano Atlântico a cerca de 60 quilómetros a sul de Luanda, a capital do país e também a sua maior cidade. No entanto, antes de avaliar esse potencial, o INIP decidiu que tinha de dar prioridade a uma investigação completa da biodiversidade do rio, e também produzir uma lista das espécies existentes naquele curso de água.

No fim de 2005 o INIP abordou o SAIAB para discutir as possibilidades de se efectuarem levantamentos conjuntos sobre a biodiversidade aquática. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura proporcionou a maior parte do financiamento para esta iniciativa, embora a Fundação Nacional Sul Africana de Pesquisa também tivesse dado um contributo substancial.

Ernst Swartz, Paul Skelton e Luis da Costa, do SAIAB, visitaram Angola em Novembro de 2006 para terem uma percepção da amplitude do projecto. Efectuaram levantamentos no terreno na Barragem de Capanda, cerca de 230 quilómetros a sudeste de Luanda, juntamente com investigadores do INIP e da companhia estatal incumbida de gerir a barragem.

A equipa conjunta do SAIAB e do INIP levou então a cabo outro levantamento, desta vez no Parque Nacional da Kissama, nas águas mais profundas do Kwanza, a cerca de 70 quilómetros de Luanda, com pessoal do próprio parque.

Depois das viagens no terreno, Swartz e da Costa participaram na conferência anual do Ministério das Pescas e do INIP em Luanda, onde apresentaram uma alocução sobre a diversidades piscícolas e discutiram as oportunidades de pesquisa no futuro.

O projecto conjunto inclui diversos seminários destinados a transferir competências para os investigadores angolanos, que se deverão realizar na sede do SAIAB em Grahamstown no fim deste ano. Os seminários irão incluir sessões sobre a recolha de técnicas, identificação de peixes e procedimentos de cura. Prevê-se que os líderes do projecto aproveitem esta oportunidade para planear os levantamentos finais no terreno, assim como as publicações para o próximo ano.

À medida que o projecto avança, está a produzir um simples roteiro dos peixes do Kwanza. Alguns dos investigadores acreditam que poderão até descobrir peixes que sejam desconhecidos da ciência; assim, estão a levar a cabo aprofundadas análises morfológicas e genéticas das espécies.

A foz do Rio Kwanza é conhecida nos círculos de pesca de grande porte como um excelente lugar para pescar com redes de arrasto em busca do tarpão, um peixe costeiro de grande porte que pode pesar até 90 quilogramas. Os pescadores locais também conhecem bem os peixes que apanham diariamente mas, até ter começado o estudo do INIP/SAIAB, não tinha havido qualquer tentativa de elaborar uma lista definitiva dos peixes do rio.

Mesmo quando o Governo angolano decidiu construir barragens no Kwanza, não houve qualquer estudo de impacto ambiental para avaliar os efeitos destes projectos sobre a biodiversidade do rio.

As autoridades assinaram um acordo com companhias de construção soviéticas e brasileiras em 1982 para construir a Barragem de Capanda, iniciando-se os trabalhos quatro anos mais tarde, com um investimento estatal de 750 milhões de dólares. Os atrasos causados principalmente pela guerra civil fizeram subir o custo total estimado do projecto para mais de quatro mil milhões de dólares. (A guerra terminou formalmente em 1991; no entanto, a luta continuou esporadicamente até 2002.)

A barragem de Capanda, recentemente concluída, é o maior projecto de construção civil jamais realizado em Angola.

O departamento de pescas prevê que a barragem de Capanda irá constituir um bloco vital para futuras pescas de água doce; mas a barragem foi construída principalmente para produzir electricidade para Luanda e para as províncias no norte do país.

Capanda tem quatro turbinas, cada uma das quais capaz de gerar 130 megawatts de electricidade, dando ao projecto uma capacidade total de 520 megawatts. Embora as quatro turbinas estejam operacionais, há ainda problemas na transmissão desta energia eléctrica para Luanda, onde os cortes regulares da energia fazem parte do quotidiano.

O projecto de investigação do INIP/SAIAB vai proporcionar informações úteis ao Governo, que planeia construir pelo menos outras sete barragens no subaproveitado rio Kwanza. Segundo estimativas oficiais, o rio tem o potencial de produzir mais de 5.000 megawatts de electricidade.

A necessidade de utilização sustentável dos recursos hídricos recebeu uma atenção particular na semana em que se assinalou o Dia Mundial da Água (22 de Março).

Apontando que o evento deste ano coincide com o Ano Internacional do Saneamento, o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, na sua mensagem relativa ao Dia Mundial da Água, afirmou que enfrentar os desafios relacionados com o saneamento teria um efeito positivo que "se reflectirá para além de um melhor acesso à água limpa. Cada dólar investido em recursos hídricos e saneamento produz uns estimados sete dólares de actividade produtiva. E isso para além das imensuráveis conquistas na redução da pobreza, no melhoramento da saúde e no levantamento dos níveis de vida."

Segundo as Nações Unidas, cerca de 2.6 bilhões de pessoas em todo o mundo vêem-se confrontadas com um mau saneamento, resultando na morte de uma criança de 20 em 20 segundos. (END/2008)