ENERGÍA-TIMOR LESTE:
Adeus aos apagões... ou quase
Matt Crook
Dili, 08/04/2009 (IPS) - Para sorte da população de Timor Leste, o fornecimento de eletricidade se estabilizou este ano.

Em 2008, havia até dois ou três apagões por dia. Mas ainda há muito por fazer para que os 13 distritos do país tenham luz constante durante as 24 horas do dia. “A eletricidade era um grande problema. Havia apagões todos os dias. Normalmente começava às 18 horas e duravam três horas”, contou Maria Ucabere, de 44 anos, que vive em Santa Cruz, Dili. “agora os apagões são raros” Guilherme da Costa, residente em Lurumata, concorda, afirmando que “este ano não houve problemas com a energia elétrica”.

Entretanto, ainda falta muito a ser feito. O governo planeja importar óleo combustível pesado, uma solução de emergência que permitirá resolver uma das principais necessidades do país e, ao mesmo tempo, ganhar pontos. “Podemos distribuir eletricidade muito rapidamente à sociedade. Como poderemos desenvolver este país se não houver luz? Não virá nenhum investidor”, disse o secretário de Estado para a Eletricidade, a Água e a Urbanização, Januário da Costa. Porém, organizações da sociedade civil e observadores dispararam o alarme pelos efeitos ambientais do uso de óleo combustível pesado.

A produção de eletricidade com este combustível aplica uma “tecnologia altamente contaminante e difícil de manejar, da qual a maioria dos países está se afastando ou já deixou de usar”, disse a organização não-governamental La’o Hamutuk em seu site na internet. O óleo pesado contém contaminantes, em particular sulfuro, partículas e óxidos de nitrogênio. Além disso, Timor Leste atualmente produz energia elétrica usando motores diesel que consomem combustível importado. As novas centrais funcionarão à base de combustível importado. O presidente do país, José Ramos-Horta propôs no mês passado uma avaliação do impacto ambiental do projeto por alguma organização independente.

A 22 Companhia da Construção para a Indústria Nuclear Chinesa venceu em outubro 15 empresas que participaram de uma licitação para instalar centrais elétricas. No dia 2 de março, La’o Hamutuk revelou uma cópia da proposta que esta empresa apresentou ao governo em junho. Nela a firma recomenda comprar motores de segunda mão e geradores diesel, economizando cerca de US$ 70 milhões para o governo. Mas, segundo a organização, isso provocará grandes problemas ambientais. A infra-estrutura energética em Timor Leste é escassa. Grande parte foi destruída em 1999 pelo exército da Indonésia e por suas milícias, ao deixar o país após 24 anos de ocupação.

Para as autoridades timorenses é um enorme desafio abastecer de eletricidade os 1,1 milhão de habitantes. Mas, o governo embolsa cerca de US$ 4 bilhões a partir de suas reservas petroleiras. Foi destinado um orçamento de US$ 375 milhões para uma rede elétrica nacional e três usinas que funcionam com óleo pesado, com capacidade de produzir 180 megawatts. As centrais elétricas serão construídas na costa sul em Manufahi e Hera, e na costa norte, no distrito de Manatuto e a leste de Dili, onde em fevereiro começou a preparação do terreno.

O Plano 2004 de Desenvolvimento do Setor Elétrico para Timor Leste, do Banco Asiático de Desenvolvimento, calcula que a máxima demanda de eletricidade no país em 2002 foi de 18,6 megawatts, com uma previsão máxima ao redor dos 108,6 mw até 2025, muito menos do que os 180 mw que as usinas de combustível pesado do governo poderão produzir. O norueguês Alf Adeler, assessor da firma HydroTimor, está convencido de que a solução hidrelétrica é a melhor. Embora cara em sua construção, essas centrais são limpas e eficientes, sua fonte se renova e poderiam, segundo calculou, produzir eletricidade por até cem anos. Adeler chegou ao Timor Leste com uma equipe em 2002, depois que o primeiro-ministro Mari Alkatiri (2002-2006) visitou a Noruega para solicitar assistência nessa área.

Adeler que desenvolver um projeto no lago Iralalaru, no distrito de Lautem. “Com o consumo atual, a usina abastecerá de eletricidade todo o país. Como a construção da central demorará quatro anos e meio, período no qual aumentará a demanda, será preciso depender de insumos procedentes de outras fontes”, afirmou. A construção da hidrelétrica custará US$ 125,1 milhões, enquanto uma linha de transmissão para Dili terá custo de US$ 33 milhões. “Depois de paga totalmente a usina, se produz eletricidade por menos de um centavo por quilowatt/hora. Somente se pode manejar combustível pesado por 25 a 30 anos. Depois, se torna realmente caro”, acrescentou.

O estudo de impacto ambiental do projeto de Iralalaru concluiu que este terá um efeito “menor” sobre o meio ambiente e que a maior parte se originará na instalação da linha de transmissão de 158 quilômetros, desde Los Palos (capital do distrito de Lautem) até Dili. O estudo indica que “não foram identificados impactos importantes para a operação”. A construção do projeto poderá começar já em junho. O governo deveria limitar o uso de combustível pesado à produção de 40 mw e usar motores novos, além de continuar com o projeto hidrelétrico de Iralalaru, reduzir ao máximo a energia produzida por fontes fosseis e aproveitar as jazidas de gás metano dopais, disse Adeler.

Atualmente, o governo está envolvido em uma licitação para o projeto Aliambata de Coleta de Filtrações de Gás, que buscará fornecer eletricidade às aldeias rurais do sudeste do país, preparando o caminho para futuras iniciativas semelhantes. Mas, embora o governo se mostre interessado nas energias renováveis, também resiste a se comprometer plenamente com o que poderia ser uma solução rentável e ecológica. IPS/Envolverde

(END/2009)