REPORTAGEM:
A dengue se espalha e se agrava
Marcela Valente
BUENOS AIRES, 20 de abril (IPS) - (Tierramérica).- A dengue se torna mais virulenta e letal na América do Sul

A suscetibilidade da população para sofrer quadros mais severos de dengue preocupa especialistas em saúde, enquanto a epidemia se expande no Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia. A dengue é apenas uma doença, mas sua expressão clinica e gravidade podem ser muito diferentes em cada pessoa, segundo diferentes fatores de risco. O fundamental, concordam os especialistas, é ter contraído infecção pela segunda vez. Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), o total de contágios relatados caiu na América em 5,5% no ano passado em relação a 2007, passando de 900.754 para 850.769, com a maior parte dos casos no Brasil e na Bolívia.

Porém, no mesmo período, a proporção de quadros graves subiu 46%, enquanto as mortes passaram de 317 para 584, um aumento de 84%, revelando maior presença de manifestações severas desta enfermidade febril causada por algum dos quatro sorotipos do vírus da dengue. Esta tendência se mantém este ano. Entre janeiro e o início deste mês, a OPAS informa sobre mais de 215 mil casos na América, com elevada contribuição sul-americana – na Argentina a epidemia está em pleno desenvolvimento –, e um novo aumento da letalidade, que passou de 1,2 em 2007 para 2,2 em 2009.

A dengue é contraída pela picada do mosquito Aedes aegypti infectado com algum dos vírus. O inseto se reproduz em depósitos de água limpa em regiões tropicais e subtropicais. Acredita-se que, ao se recuperar de uma primeira infecção, a pessoa adquire imunidade por toda a vida frente ao sorotipo que a causou, mas fica exposta aos demais. Estima-se que entre 20% e 50% dos contagiados não apresentam sintomas ou estes podem ser confundidos com os da gripe. Os quadros mais claros se manifestam com febre, cefaléias, dores musculares e articulares.

Os pacientes podem desenvolver manifestações hemorrágicas leves, como manchas rosadas na pele ou sangramento das gengivas. Os casos mais severos, dengue hemorrágica e o choque por dengue, são mais frequentes em quem sofre uma segunda infecção. No Brasil, o Ministério da Saúde informou que nas primeiras dez semanas deste ano foram notificados 114.355 casos, dos quais 603 graves e 23 que acabaram em mortes. Na Bolívia, o responsável por Doenças Transmitidas por Vetores, do Ministério da Saúde, Juan Carlos Arraya, confirmou ao Terramérica que, dos 56.530 casos, o maior registro dos últimos 20 anos nesse país, 174 foram considerados “dengue hemorrágica provável” e 25 pessoas morreram.

A OPAS informou sobre 2.277 infecções no Paraguai, cinco delas graves, embora não tenham sido diagnosticados quadros hemorrágicos. Esse país sofreu epidemias severas nos últimos anos. Em 2007, houve 28 mil pessoas afetadas, das quais 17 morreram. Segundo o Ministério da Saúde paraguaio, se as pessoas que superaram uma primeira infecção forem consideradas como vulneráveis a quadros graves, então 600 mil habitantes estão propensos a contrair dengue hemorrágica, o que equivale a 10% da população. Na Argentina, as autoridades sanitárias reconheceram, em meados de abril, mais de 12.500 casos, o triplo do registrado apenas 15 dias antes, embora governos provinciais e trabalhadores da saúde estimem que o número real deve ser o triplo.

É a epidemia mais ampla desde que essa doença reapareceu neste país, em 1998. Cinco mortes foram confirmadas, enquanto são comuns denúncias de resistência das autoridades em divulgar dados, que são apresentados com grande atraso. O panorama geral colocou em alerta os epidemiologistas e especialistas em vírus. Contudo, especialistas do Brasil e da Argentina, ouvidos pelo Terramérica, discordam sobre os fatores da vulnerabilidade à dengue mais grave. Na Argentina, preocupa principalmente a ameaça de uma segunda infecção, porque consideram que nesses casos aumenta o risco de dengue hemorrágica, mais difícil de controlar se afeta crianças de 2 a 14 anos, idosos ou pessoas com doenças crônicas, sobretudo se não são tratados imediatamente.

Já a brasileira Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) adverte que os quadros severos podem se manifestar também no primeiro contágio. Nos quadros graves, os afetados exigem hospitalização pelo aumento da permeabilidade vascular, perda de plasma e redução de plaquetas, que ajudam na coagulação. Embora a OPAS destaque que há provas convincentes de que a infecção sequencial aumenta o risco de contrair dengue hemorrágica, o infectologista Rogério Valls de Souza, da Fiocruz, afirma que “não há um dado certo” sobre quantas pessoas são vulneráveis a uma manifestação severa por ter sofrido um primeiro caso de dengue.

“A dengue está relacionada ao tipo de vírus que circula. Por exemplo, na epidemia do Rio de Janeiro – no verão de 2008 –, o vírus que mais circulou foi o tipo três e os casos mais graves, não necessariamente de dengue hemorrágica, se manifestaram em uma primeira infecção”, disse Souza ao Terramérica. O especialista afirmou que, mesmo no contexto da OPAS, se analisa evitar a diferenciação entre clássico e hemorrágico por ser uma categorização estreita que nem sempre abrange as manifestações mais graves da doença. Na Argentina, porém, os especialistas mantêm tal diferenciação.

“Na América temos os quatro sorotipos de dengue. Uma vez que alguém seja infectado, na outra oportunidade, leve o tempo que levar, se for infectada por outro sorotipo tem todas as chances de desenvolver a variante hemorrágica”, disse ao Terramérica o médico Jorge Gorodner. A mortalidade varia entre 15% e 35%, acrescentou. Gorodner é professor de Infectologia da Universidade Nacional do Nordeste e diretor-pesquisador do Instituto de Medicina Regional, mas admite que nunca presenciou uma epidemia com quadros hemorrágicos. Esta é a primeira vez que surgem na Argentina. “Praticamente, 100% dos contagiados são suscetíveis. Mas a gravidade depende de cada pessoa. Aí reside a verdadeira dimensão do dano que gera a falta de vigilância epidemiológica”, acrescentou.

O médico Alfredo Seijo, encarregado da Unidade de Dengue do Hospital Muniz de Buenos Aires, disse ao Terramérica que “o foco na Argentina é importante pela quantidade de pessoas que ficam sensibilizadas à dengue hemorrágica”. Segundo Seijo, os quadros hemorrágicos estão em aumento em todos os países onde a dengue se expandiu. Para os especialistas, a única arma efetiva é reduzir a presença do mosquito transmissor, sobretudo eliminando recipientes com água onde criam suas larvas, ao mesmo tempo em que se implementa uma campanha de prevenção comunitária.

Controlar o vetor é fundamental enquanto não existe vacina. Tanto a OPAS quanto os especialistas consultados dizem que, apesar dos avanços no desenvolvimento de uma vacina, é difícil encontrar uma fórmula que imunize contra os quatro sorotipos do vírus. Uma imunização parcial pode ser perigosa, porque a infecção por outro sorotipo no individuo vacinado pode se manifestar de forma mais severa, causando maiores riscos, alertam.

* A autora é correspondente da IPS. Com contribuições de Fabiana Frayssinet (Rio de Janeiro), Natalia Ruiz Díaz (Assunção) e Franz Chávez (La Paz). (END/2009)