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Universidades não saem dos escombros
A. D. McKenzie
Paris, França, 8/10/2010 (IPS) - Tristeza e enfado se misturam na voz da haitiana Angelique, ao contar sua história. Ela estuda na vibrante Universidade Paris 8 da capital francesa, mas sempre se lembra de sua família e de seu país. A jovem de 28 anos perdeu sua casa e sua faculdade no terremoto que atingiu o Haiti no dia 12 de janeiro. Angelique estava em seu trabalho de meio período, nas colinas de Porto Príncipe, quando ocorreu o terremoto. Ela saiu ilesa, mas ao chegar à sua casa descobriu que haviam morrido três das pessoas com as quais vivia.

A estatal Universidade do Haiti, onde estudava sociologia e se formaria em junho, ficou em péssimo estado. Angelique pensou que seu futuro havia sucumbido sob os escombros, até que alguns amigos da França ofereceram ajuda. Um de seus benfeitores é o presidente do Museu de Montparnasse, Jean Digne, que se dedicou a ajudar artistas e estudantes haitianos com exibições e seminários, entre outras atividades.

Angelique prevê se formar em junho do próximo ano. Depois gostaria de fazer mestrado em comunicações. “Falou-se muito em bolsas de estudos para haitianos, mas não recebi nada, nem do governo francês nem do haitiano, ao qual só interessam as próximas eleições. Só falam disso”, afirmou a jovem.

A situação da Universidade do Haiti já deixava a desejar antes mesmo do terremoto, lamentou Angelique. “Faltavam livros na biblioteca e muitos funcionários não pareciam interessados nos alunos”, disse à IPS. “O governo não fez muito, nem depois do terremoto”, acrescentou. Ela espera que a comunidade internacional concentre sua ajuda na entrega de alimentos e em garantir a segurança de seus compatriotas. Muitos de seus amigos não tiveram sorte igual à sua, de continuar estudando. Alguns foram trabalhar e outros optaram por ir embora.

O ensino superior atravessa sérias dificuldades no Haiti, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Há uma universidade estatal e cerca de 200 instituições particulares que, antes do terremoto, cobravam bastante caro. Menos de 50 delas eram reconhecidas pelo Ministério da Educação e Capacitação Vocacional.

“Muitas universidades e instituições de ensino superior perderam estudantes, professores, instalações e equipamentos”, disse Bechir Lamine, representante da Unesco em Porto Príncipe. “Dificilmente exista alguma estatística que quantifique esta perda”, afirmou. Uma das principais universidades privadas ficou praticamente sem instalações, nem mesmo sua última aquisição, “inaugurada apenas um mês antes do terremoto”, disse Bechir à IPS em entrevista por correio eletrônico. Algumas oferecem alguns cursos em barracas de campanha.

Um dos maiores problemas das universidades haitianas é a perda de estudantes. A fuga de cérebros já era um problema para esse país antes do terremoto. Estima-se que 85% dos universitários foram para o estrangeiro por causa de instabilidade política, pobreza, violência e outros problemas sociais.

“Muitos pais mandam seus filhos para a vizinha República Dominicana ou a outros países para que possam prosseguir seus estudos”, disse Bechir. “Isso significa uma ameaça para a maioria das universidades privadas, pois perdem estudantes, renda e, portanto, professores”, explicou. Outra questão é substituir as instalações e os equipamentos perdidos. Algumas instituições recebem ajuda do estrangeiro.

“Os doadores não enviam dinheiro e as universidades têm dificuldades para garantir as aulas no atual ano letivo. Estão sendo usadas barracas e outros abrigos com materiais leves, mas as autoridades temem que a temporada de furacões coloque em risco esses esforços”, disse Bechir.

Após o terremoto houve ofertas de bolsas de estudo e assistência econômica por parte de Brasil, Canadá, Estados Unidos e outras nações europeias e caribenhas. Mas a falta de documentos impediu que se concretizasse a maioria dos convites, afirmou Samuel Pierre, professor haitiano da canadense École Polytechnique de Montreal.

Samuel, que dirige um programa de ajuda a estudantes haitianos no Canadá, disse que é preciso fazer mais, coordenar esforços e realizar um acompanhamento das doações. “Deve ser feito um apelo aos países que se comprometeram em dar assistência a cumprirem suas promessas”, disse à IPS. A maior parte das grandes universidades não cobrou a matrícula dos estudantes haitianos no último ano letivo. Cerca de 200 pessoas gozam desse beneficio em Quebec, acrescentou Pierre.

A Universidade das Índias Ocidentais aceitou 79 estudantes haitianos para este ano na Jamaica, disse Matthew Smith, professor de história e coordenador da assistência ao Haiti. Numerosas universidades dos Estados Unidos ofereceram seus serviços, mas a barreira do idioma foi um problema porque poucos estudantes haitianos falam inglês. O Brasil, que tem muitas vagas em suas universidades, ofereceu 500 bolsas de estudo.

O governo haitiano destinou ao ensino superior apenas 1% dos US$ 5,3 bilhões prometidos pelos doadores. Os especialistas reclamam maior atenção para as universidades para que os estudantes fiquem no Haiti e ajudem na reconstrução. Eles sabem que possivelmente muitos dos que partiram não voltarão Envolverde/IPS (END/2010)