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Dilma e Obama inauguram uma relação “entre iguais”
Fabiana Frayssinet
Rio de Janeiro, Brasil, 18/3/2011 (IPS) - Os Estados Unidos asseguram que sua relação com o Brasil deve ser “entre iguais”, em uma nova visão – ou pelo menos um novo discurso –, que poderá ser vista com a visita do presidente Barack Obama no final de semana ao país.

A primeira coisa que muda é o discurso e, segundo Clovis Brigagão, diretor do Centro de Estudos das Américas, o dos Estados Unidos em relação ao Brasil já começou a mudar, antes do primeiro encontro oficial de Obama com a presidente Dilma Rousseff, que ainda não completou três meses no poder.

“As relações entre os dois países, em qualquer área, devem ser uma relação entre iguais e a esfera destas relações é de ordem global”, destacou o embaixador norte-americano em Brasília, Thomas Shannon, à revista Isto É. Brigagão destacou à IPS que as bases pragmáticas para a mudança de discurso estão na “Folha informativa sobre a relação econômica entre Estados Unidos e Brasil”, divulgada pela Casa Branca por ocasião desta viagem de Obama a Brasília e Rio de Janeiro, nos dias 19 e 20, antes de seguir para Chile e El Salvador.

“As principais economias e democracias do hemisfério ocidental compartilham uma das relações comerciais e econômicas mais importantes do mundo. O Brasil é nosso décimo sócio comercial”, diz o documento do escritório de Obama. “O Brasil é um protagonista mundial emergente e um importante centro econômico”, acrescenta, e recorda que o produto interno bruto brasileiro subiu em 2010 para US$ 2 trilhões, o que o coloca como sétima potência econômica mundial, representando 60% do produto total sul-americano.

“O Banco Central brasileiro está preocupado com o excessivo crescimento do país. É um problema que todos gostaríamos de ter”. Assim, Charles Shapiro, conselheiro para as iniciativas econômicas na América Latina do Departamento de Estado, resumiu a visão de Washington.

Marcos Azambuja, vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, disse à IPS que Obama “é um bom vendedor de si mesmo” e saberá plasmar esse interesse durante sua visita, para alcançar objetivos internos. Trata-se de mostrar a um eleitorado que se afasta de sua capacidade de realizar acordos importantes para apoiar a debilitada economia norte-americana e sua popularidade em um país como o Brasil, com metade de sua população afrodescendente e que “o receberá com naturalidade e afeto por sua etnia”, explicou.

No Rio de Janeiro, Obama terá atividades incomuns em suas viagens ao exterior, como um grande ato público em uma praça da cidade, falando “ao povo brasileiro”, segundo destacou a embaixada norte-americana. Também visitará uma favela e subirá até o Cristo Redentor, emblema da cidade. “Temos condições de renovar a relação com os Estados Unidos e elevá-las a um nível de maior interação, de cooperação em benefício mútuo e de ordem multipolar, baseado na busca do desenvolvimento e de soluções globais”, sintetizou o chanceler brasileiro, Antonio Patriota.

Trata-se de uma cooperação vinculada a setores estratégicos. Com as rebeliões sociais e políticas em países árabes, para os Estados Unidos é vital garantir fontes confiáveis de fornecimento de petróleo, por exemplo. Diante da descoberta no Brasil de novas jazidas petrolíferas marinhas a grande profundidade, que podem converter o país em um dos principais exportadores mundiais, as empresas norte-americanas estão interessadas em participar deste desenvolvimento, após ficarem atrasadas em relação às chinesas.

Outro ponto de interesse é o investimento em setores de logística, serviços, segurança e infraestrutura com vistas à realização do Mundial de Futebol em 2014 e das Olimpíadas em 2016. Também há expectativa de acordos no setor espacial, após uma negociação que ficou bloqueada no ano passado pela negativa de Washington em transferir tecnologia. Agora, o Brasil espera superar as objeções, com iniciativas como o lançamento de satélites a partir de sua base de Alcântara, no Norte do país.

Brigagão mencionou outro tema de interesse comum, como a venda de aviões caça à FAB. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva se comprometeu em favorecer a França, mas agora há indícios de que Dilma possa mudar de opinião e “seguramente Obama fará seu lobby” para isso, afirmou.

Tullo Vigévani, da Universidade Estadual de São Paulo (USP), definiu à IPS a nova relação Brasília-Washington como de “não submissão”. “Obama sabe que trata com o Brasil, um país claramente autônomo”, afirmou. Contudo, apresentou reservas sobre uma viagem com uma agenda que parece “rotineira”. Para Vigévani, se demonstraria uma verdadeira mudança nas relações bilaterais se, por exemplo, Obama desse apoio explícito à aspiração brasileira de ocupar um posto permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, como já fez com Japão e Índia.

Porém, Azambuja não se mostra muito otimista. “Seria uma surpresa agradável, mas não vejo isso como algo imediato”. Outro movimento que ajudaria a mudar o modelo histórico de relação entre os dois países, seria os Estados Unidos eliminarem as barreiras protecionistas a produtos agropecuários, como suco de laranja, carne bovina, tabaco e etanol. Essas barreiras, junto a outras causas como a crise econômica norte-americana e a forte desvalorização do dólar frente ao real, causaram um déficit brasileiro, em 2010, de US$ 7,8 bilhões em seu comércio com os Estados Unidos. Azambuja destacou que “os problemas entre os dois países são solucionáveis com a diplomacia presidencial”.

Em suas 12 horas em Brasília, Obama e Dilma manterão uma entrevista formal com seus assessores e um encontro privado, no qual a pragmática mandatária de esquerda moderada buscará deixar para trás atritos diplomáticos e conseguir algum apoio explícito de seu hóspede ao posto brasileiro no Conselho de Segurança.

Brigagão citou outras razões para o Brasil abrir a primeira viagem de Obama à América do Sul. Além de ser um país determinante na região, “integra uma nova agenda internacional de potências emergentes”, ressaltou. Nesta condição, “participa de grupos como G-20 (grandes países do Norte industrial e do Sul em desenvolvimento) e BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), quer um assento permanente no Conselho de Segurança e participa de assuntos globais conflitivos como Irã e a questão nuclear”.

No ano passado, as relações entre Obama e Luiz Inácio Lula da Silva se deterioraram quando Brasil e Turquia tentaram mediar para impedir a aplicação de sanções contra o Irã por causa de seu programa nuclear. Antes, houve atritos por diferença de posições sobre o golpe cívico-militar contra Manuel Zelaya em Honduras, em junho de 2009. No entanto, Brigagão assegurou que os dois governos querem virar a página a respeito. Diante de governos como o da Venezuela, de “um nacionalismo mais duro”, o Brasil é visto por Washington como “uma espécie de segurança, um espaço de moderação”, que também quer capitalizar a seu favor, afirmou. Envolverde/IPS (END/2011)