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Rebeli√£o tuaregue provoca deslocamentos em massa
Soumaila T. Diarra
Bamako, 13/2/2012 (IPS) - Os partidos pol√≠ticos de Mali querem que o governo inicie conversa√ß√Ķes para acabar com a rebeli√£o de n√īmades tuareg que surgiu em meados de janeiro no norte do pa√≠s e que j√° causou o deslocamento de dezenas de milhares de pessoas

A maioria delas foge dos combates norte, mas outras escapam de conflitos √©tnicos e manifesta√ß√Ķes violentas em cidades do sul.

O levante do Movimento Nacional para a Liberta√ß√£o de Azawad (MNLA) j√° causou dezenas de mortes no ex√©rcito e entre os rebeldes, embora ainda n√£o haja fontes independentes que forne√ßam n√ļmeros precisos. Em um comunicado divulgado no dia 7, o escrit√≥rio do Alto Comissariado das Na√ß√Ķes Unidas para os Refugiados (Acnur) informou sobre o envio de suprimentos de emerg√™ncia para pa√≠ses lim√≠trofes a fim de ajudar a atender as necessidades de aproximadamente 200 mil refugiados ali assentados.

‚ÄúNas tr√™s √ļltimas semanas pelo menos 10 mil pessoas cruzaram a fronteira com N√≠ger, no mil se refugiaram na Maurit√Ęnia e tr√™s mil em Burkina Fasso‚ÄĚ, disse em Genebra o porta-voz do Acnur, Adrian Edwares. ‚ÄúMuitos dos rec√©m-chegados dormem √† intemp√©rie e t√™m pouco acesso a abrico, √°gua limpa, servi√ßos de sa√ļde e alimentos‚ÄĚ, acrescentou.

Os rebeldes, que reclamam um Estado independente na regi√£o de Azawad, no norte, continuam atacando guarni√ß√Ķes do ex√©rcito.

Esta √© a quarta rebeli√£o tuaregue que vive Mali desde a independ√™ncia do regime colonial franc√™s na d√©cada de 60. A √ļltima terminou em 2008.

A indigna√ß√£o popular pelos ataques cresce no sul. Foram registradas manifesta√ß√Ķes violentas em v√°rias de suas cidades, entre elas Kayes, S√©gou e a capital, Bamako, entre 32 de janeiro e 2 deste m√™s. As marchas foram organizadas como resposta ao que os manifestantes consideram uma rea√ß√£o ‚Äút√≠mida‚ÄĚ das autoridades, mas em muitos casos degeneraram em dist√ļrbios.

Modibo Diaby, morador de Kati, ao sul, disse √† IPS que viu saques de in√ļmeras lojas de tuaregues, ou pessoas consideradas dessa etnia. Cenas semelhantes ocorreram em outros lugares.

O presidente, Amadouo Toumani Tour√© pediu √† popula√ß√£o para n√£o confundir rebeldes com os civis tuaregues. ‚ÄúOs que atacaram instala√ß√Ķes militares e outros locais no norte n√£o devem ser confundidos com nossos compatriotas tuaregues, √°rabes, songhais, peuls, que vivem conosco‚ÄĚ, disse Tour√© em um discurso pela televis√£o no √ļltimo dia 1¬ļ. O mandat√°rio tamb√©m insistiu nas opera√ß√Ķes militares contra os rebeldes. ‚ÄúO ex√©rcito tem tudo o que precisa para garantir a seguran√ßa de nosso povo. Continuaremos enviando armas e muni√ß√Ķes‚ÄĚ, acrescentou.

Em busca de aliviar s tens√Ķes √©tnicas, o ministro de Infraestrutura e Transporte, Ahmed Diane Semega, insistiiu um dia depois que nem todos os tuaregues s√£o parte da rebeli√£o. ‚ÄúDos quase 3.600 que h√° no ex√©rcito nacional, menos de 100 desertaram‚ÄĚ, afirmou. Segundo fonte militar, 300 combatentes tuaregues (o maior contingente de tuaregues que voltaram da L√≠bia ap√≥s a queda de Muammar Gadafi) foram colocados junto ao ex√©rcito nas √°reas de Kidal Tessalit e Gao, todas no norte.

Esses combatentes, da comunidade tuaregue dos ‚Äúimghad‚ÄĚ (pastores), foram colocados sob comando do coronel Elhadj Gamou, um tuaregue que se uniu ao ex√©rcito de Mali segundo os termos de um acordo de paz que em 1992 acabou com um levante na mesma regi√£o. No dia 3 de dezembro, bem antes do √ļltimo levante, dois representantes dessa comunidade ‚Äď coronel Waqqi Ag Ossad e o comandante Inackily Ag Back ‚Äď se reuniram com o presidente e informaram que seu grupo estava pronto para depor armas e servir ao Estado.

Segundo Cheikna Hamalla Sylla, jornalista radicada em Bamako, a presença dos soldados Imghad é o motivo pelo qual se adiou até agora um ataque contra o principal objetivo dos rebeldes, a cidade de Kidal. Várias fontes indicam que a rebelião obedece ao regresso em massa de tuaregues armados que faziam parte do derrotado exército de Gadafi. O regime interino líbio não controla as fronteiras e foi incapaz de desarmar estes homens antes que retornassem ao seu país.

Alguns deles, descontentes por sua situação e falta de perspectivas ao regressar a Mali, acenderam a chama do novo levante. Diferentes meios de comunicação informam que estão bem armados.

Apesar das cont√≠nuas opera√ß√Ķes militares contra os rebeldes, Tour√© disse que seu governo n√£o adiar√° as elei√ß√Ķes presidenciais previstas para 29 de abril. Segundo Diocounda Traor√©, presidente da Assembleia Nacional e candidato nessas elei√ß√Ķes, o mandat√°rio se comprometeu a fazer o necess√°rio ‚Äúpara se retirar no pr√≥ximo dia 8 de junho, segundo a Constitui√ß√£o, ap√≥s organizar elei√ß√Ķes livres e transparentes‚ÄĚ.

Os dirigentes políticos querem que o governo realize um fórum de paz e reconcializção entre 17 e 19 deste mês e pediram às autoridades que solicitem aos governo de Argélia, Burkina Faso, Mauritania e Níger ajuda para iniciar um diálogo. Também querem que o governo apele para destacadas figuras tuaregues e árabes que se mudaram para países vizinhos, e aos embaixadores de França, Estados Unidos e União Europeia, para que apoiem a criação de um fórum de paz e reconciliação.

O governo da Arg√©lia recebeu no come√ßo deste m√™s conversa√ß√Ķes entre representantes de Mali e l√≠deres tuaregues, que at√© agora n√£o deram resultados. Envolverde/IPS (END/2012)