QUÉNIA:
Chefe queniano envia tweets para reduzir o crime
NAKURU, Quénia
Daniel Sitole , 15 de Fevereiro (IPS) - Usando 140 caracteres ou menos, o Chefe Francis Kariuki, no Quénia, tem enviado tweets como forma de reduzir o crime na sua aldeia e nas aldeias vizinhas.

“Consegui controlar o crime e a produção ilegal de bebidas na minha zona,” contou Kariuki à IPS, acrescentando “Até Maio de 2011 este sítio era muito perigoso. Havia incidentes de roubo de automóveis (carjacking), assaltos e roubos todos os dias, mas eles acabaram.”

Kariuki, que é proveniente da localidade de Lanet Umoja, uma zona semi-urbana do Condado de Nakuru, na Província do Vale do Rift, começou a enviar tweets em Maio de 2011 quando Joha Gathua, especialista local de TI, lhe criou uma conta Twitter. Foi uma ideia inovadora porque, até agora, Lanet Umoja é a única zona semi-urbana deste país da África Oriental que usa esta rede social para lutar contra o crime.

Gathua disse à IPS que queria ajudar a comunidade a reduzir a criminalidade e, portanto, ministrara formação aos chefes e aos seus assistentes sobre como usar a ferramenta de mensagens instantâneas gratuitas que limita os utilizadores a tweets que contêm 140 caracteres no máximo.

“O Twitter é óptimo para difundir mensagens às populações. Constitui um bom meio para que o Chefe e os seus assistentes transmitam mensagens às pessoas,” explicou Gathua. Mas, enquanto noutras partes do mundo as pessoas e companhias o usam principalmente para se manterem em contacto com os amigos, terem conhecimento dos produtos no mercado e para difundirem notícias de última hora, Kariuki utiliza esta ferramenta para alertar os aldeões sobre os crimes que estão a ser cometidos.

Usando o nome Twitter “chefekariuki”, Kariuki já tem mais de 15.000 seguidores no Twitter, de um total de 28.000 pessoas que vivem em Lanet Umoja. Estas pessoas includem velhos, líderes comunitários e religiosos, polícia, grupos de jovens e de mulheres e directores de escolas.

Quando há um incidente, as vítimas ou testemunhas enviam mensagens de texto para o Chefe a descrever a natureza do incidente e o local e o ponto de referência mais próximo conhecido. Em seguida o Chefe difunde as suas instruções à comunidade através do Twitter.

Embora nem toda a gente tenha telemóveis de terceira Geração, muitas pessoas registam-se para seguirem os relatos de Kariuki e receberem os seus tweets através de mensagens de texto.

Quando o Chefe envia uma mensagem, em poucos segundos toda a zona está pronta a entrar em acção conforme as instruções.

“Se a mensagem se refere a um roubo, apresentamo-nos em grande número. Enquanto que alguns residentes se deslocam para o local do crime, outros bloqueiam todos os trajectos de fuga, especialmente quando há roubos de automóveis (carjacking) e de gado,” relatou um ancião da aldeia, David Waweru.

As mensagens, que estão redigidas em suaíli ou inglês, são curtas e vão directamente ao assunto. Em Novembro de 2011, uma mensagem em suaíli dizia: “Kuna mzee ndani ya chimo Umoja 2 area, tume ongea nayeye na simu lakini mteja sasa" (“Um homem encontra-se numa latrina na aldeia de Umoja 2. Falámos com ele ao telefone mas ele deixou de falar”.)

O Chefe orientou os aldeões, que trabalharam a noite inteira para encontrar e libertar o homem.

“Não sabíamos o seu nome nem a latrina onde estava,” contou Kariuki à IPS.

Cinco horas mais tarde, o Chefe enviou tweets: “Tumempata sasa yuhai, asante,” (“Encontrámos o homem vivo, muito obrigado”.)

O homem, John Muiru, tinha caído numa latrina com 20 pés de profundidade à noite, e depois telefonou a um aldeão mais velho a pedir ajuda. Quando esta notícia foi compilada, Muiru ainda estava no hospital.

Um velho ditado diz que mãos adicionais tornam o trabalho mais leve. Ao trabalhar em conjunto, a comunidade consegue por vezes ajudar a resolver crimes mais rapidamente do que a polícia.

No ano passado, quando se transmitiu a notícia que um automóvel tinha sido roubado de determinado local às 17h10 da tarde, foi encontrado na mesma noite às 12:50. Quando foi noticiado que gado fora roubado de uma exploração agrícola local às 04h00 da manhã, os animais foram encontrados com a ajuda da comunidade quatro horas mais tarde.

E quando um rapazinho desapareceu quando caminhava para casa depois de ter saído da escola às 20h04, foi encontrado meia hora mais tarde, depois de se ter perdido no caminho no escuro.

“A aldeia de Lanet Umoja 2 era uma zona que não se podia visitar depois das 18h30 mas, desde que o Chefe introduziu a tecnologia Twitter, não temos tido problemas,” disse Geoffrey Mbuthia, um residente da área.

Kariuki também utiliza o Twitter para convocar reuniões e divulgar informação sobre o Kazi Kwa Vijana, um projecto governamental que tem o objectivo de criar empregos para os jovens.

O Chefe afirma que, apesar de ter sido bem sucedido quanto à redução do nível do crime na sua localidade, ainda enfrenta desafios de criminosos e produtores ilegais de bebidas.

Alguns dos criminosos também o seguem no Twitter, recebendo alertas sobre crimes e sobre a mobilização da comunidade para resolver o crime.

O Professor James Gatoto, Director do Campus da Cidade de Nakuru na Universidade de Kenyatta, disse à IPS que a utilização do Twitter por parte de Kariuki era inovadora.

“Trata-se de um bom acontecimento numa aldeia africana,” opinou Gatoto.

“O Twitter é uma poderosa ferramenta para difundir informação e para mobilizar as pessoas. O Quénia precisa destas ferramentas para unir as diversas comunidades do país de forma a viverem juntas em paz e a evitar uma repetição da violência pós-eleitoral em 2007/2008.

Gatoto, que é professor de matemática, usa o Twitter para comunicar com os alunos. Mas avisa que, se não forem supervisionadas, as redes sociais podem causar danos se as pessoas as usarem negativamente para espalhar o ódio.

“A implicação é que podem ser perigosas se não forem controladas. No passado, a organização de revoluções levou anos, mas com as actuais redes sociais pode demorar horas.”

Entretanto, o Chefe de Lanet Umoja vai continuar a usar o Twitter para lutar contra o crime.

(END/2012)