SAÚDE-ZIMBÁBUE:
Quando lavar as mãos salva vidas
Busani Bafana
Bulawayo, Zimbábue, 24/4/2012 (IPS) - O governo e especialistas em saneamento do Zimbábue concordam quanto à necessidade de redobrar os esforços para promover a higiene e os investimentos em latrinas e provisão de água para poder enfrentar um novo foco de febre tifoide.

Este país da África austral registrou mais de três mil casos dessa doença desde março. A maioria dos casos foi registrada em Harare e houve ao menos duas mortes.

A febre tifoide é transmitida quando se consome água contaminada com fezes de uma pessoa infectada. Defecar em lugares abertos continua sendo uma prática muito comum neste país, o que preocupa o governo. O ministro de Recursos Hídricos, Samuel Sipepa Nkomo, criticou esses costumes arraigados na população. "Temos um grande problema com a defecação ao ar livre, e devemos nos unir para enfrentá-lo", declarou à IPS.

O Zimbábue pagou um alto preço por seus limitados investimentos em programas de saneamento e água entre 2008 e 2009. Mais de quatro mil pessoas morreram desde então vítimas do cólera, e mais de cem mil foram infectadas devido à má higiene e falta de latrinas. O cólera também é transmitido pela ingestão de alimento ou água contaminada com fezes de outra pessoa com a doença.

"A propagação desta enfermidade revelou que nossa higiene é má e que não lavamos as mãos com regularidade", disse o diretor-executivo do não governamental Instituto de Desenvolvimento da Água e do Saneamento, Noma Neseni. O especialista afirmou que o maior desafio é mudar a atitude da população. "Não nos concentramos na promoção da higiene, mas da infraestrutura, e não deveria ser assim", ressaltou.

Tomando por base as últimas estimativas, de 2010, o Zimbábue precisa aumentar de 52% para 77% sua cobertura de saneamento em áreas urbanas e de 32% para 68% em áreas rurais para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. "Se há uma prática constante de lavar as mãos, ninguém cairá diante das enfermidades", assegurou Neseni.

"Temos mais desenvolvimento de infraestrutura, mas infraestrutura sem a atitude necessária não conseguirá muito. Precisamos nos conscientizar sobre a higiene. Parte do problema é que consideramos o saneamento e a água um domínio do governo. Precisamos que o setor privado trabalhe em sociedade com todos os atores", afirmou Neseni.

Estes temas foram analisados no dia 20 na segunda reunião de alto nível em Washington da aliança mundial "Saneamento e água para todos", patrocinada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O encontro reuniu mais de 60 ministros responsáveis por água, saneamento e finanças de mais de 30 países do Sul em desenvolvimento. Também estiveram presentes doadores e organizações da sociedade civil comprometidas em acelerar o processo para um acesso universal a água potável, saneamento e higiene por meio de mais investimentos.

Nkomo admitiu em Washington o mau desempenho do Zimbábue nesta área. "Em saneamento estamos mal, embora estejamos melhores em fornecimento de água", explicou à IPS. "O foco de cólera de 2008 e o de febre tifoide deste ano foram importantes chamados de alerta sobre as consequências de não destinar mais dinheiro à infraestrutura. Porém, estamos fazendo esforços para melhorar a situação de uma vez por todas".

Nkomo, que foi à reunião acompanhado do ministro das Finanças, Tendai Biti, destacou que seu país prepara uma estratégia nacional sobre água e saneamento que será apresentada no final deste mês. "Terá um enfoque multissetorial para conscientizar sobre os perigos de se defecar ao ar livre e tampouco queremos ficar em falta quando se trata de fornecer infraestrutura adequada", afirmou Nkomo. A estratégia estabelecerá pautas para os investimentos e a promoção do saneamento e do acesso a água limpa nas áreas urbanas e rurais.

Por outro lado, o Ministério da Saúde e do Bem-Estar Infantil alertou que o foco de cólera continua sendo uma ameaça. Dados divulgados esta semana pela Unidade de Epidemiologia e Controle de Doenças, do Ministério, mostram que os casos de infecção duplicaram no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período de 2011, passando de quatro mil para 8.154. Metade dos infectados são crianças menores de cinco anos. O Ministério informou que procura introduzir vacinas para reduzir os casos da enfermidade entre a população infantil. Envolverde/IPS (END/2012)