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O modelo econômico atual agrava o déficit de água doce
Mikhail Gorbachev*
Moscou, Rússia, maio/2012 (IPS) - O déficit de água doce em escala mundial está se tornando cada vez mais grave. Ao contrário de outros recursos naturais, a água é insubstituível e suas existências acessíveis são limitadas, no entanto seu consumo aumenta constantemente.

Simplesmente, é impossível que o consumo mundial de água doce prossiga aumentando da mesma forma que durante o século passado. Entretanto, nos países mais pobres, milhões de pessoas morrerem por ingerirem água não tratada. Segundo um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), a água contaminada é a causa de 80% das doenças infecciosas e epidêmicas.

A premissa de uma política para enfrentar a crise global da água implica o reconhecimento de suas causas. Entre as razões principais destacam-se o crescimento da população mundial e das produções agrícola, industrial e energética, que são as principais consumidoras de água.

Também se contam as consequências ambientais das atividades econômicas e a destruição dos ecossistemas naturais, o desperdício de água e de outros recursos naturais em uma economia concentrada na obtenção de ingentes lucros, na pobreza maciça e na incapacidade dos governos em alguns países atrasados para organizar um manejo eficiente dos recursos hídricos.

Por fim, deve-se mencionar a corrida armamentista e o insensato esbanjamento de cifras enormes de riqueza e recursos em guerras e conflitos.

É, portanto, evidente a inviabilidade de uma estratégia para enfrentar o problema isoladamente de outros desafios globais e do contexto internacional.

Há 20 anos a Green Cross International (GCI) opera com um enfoque de conjunto entre os problemas da segurança, da pobreza e do meio ambiente. Há algum tempo a GCI lançou a iniciativa Água para a Vida. Propusemos-nos realizar uma convenção internacional sobre o direito à água, e em julho de 2010 uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu explicitamente o direito humano à água e ao saneamento, além de admitir que a água potável e o saneamento são essenciais para a preservação de todos os direitos humanos.

Agora é necessária a instrumentalização prática deste princípio, já que até hoje apenas uns poucos países introduziram o direito à água em sua legislação nacional.

A GCI propicia a adoção de medidas destinadas a preservar e manejar racionalmente a água. Além disso, trabalha para acelerar a entrada em vigor da Convenção sobre o Direito dos Usos dos Cursos de Água Internacionais pra Fins Distintos da Navegação e, ao mesmo tempo, promove projetos específicos para garantir o direito à água.

Estou convencido de que a crise da água está estreitamente relacionada com as falhas da economia e da política contemporâneas. Ainda estamos sofrendo as consequências de uma grave crise econômica global. E não podemos nos enganar com o surgimento de alguns indícios de recuperação na economia mundial.

A crise demonstra que o dominante modelo atual de crescimento econômico é insustentável. Este modelo engendra crises, injustiça social e o perigo de uma catástrofe ambiental.

O mundo necessita de uma nova arquitetura política, uma nova arquitetura de segurança, governança global e desenvolvimento sustentável. Este plano deveria basear-se na rejeição de atitudes agressivas e de tentativas de dominar as relações internacionais, bem com na desmilitarização da política internacional.

Há uma clara necessidade de evoluir rapidamente para um modelo diferente, que deve consistir em uma combinação de mercados e iniciativa privada com os princípios de responsabilidade social e ambiental das atividades produtivas e de uma efetiva regulação governamental.

Sustentamos que a realização de grandes projetos nacionais e internacionais com enfoques qualitativamente inovadores sobre o uso da água poderiam se constituir em motores do desenvolvimento da economia global.

Portanto, necessitamos reconsiderar os objetivos do desenvolvimento econômico. O consumo não deve continuar sendo o único e principal condutor do crescimento. A economia deve ser reorientada para metas que incluam a sustentabilidade ambiental, a saúde das pessoas em seu sentido mais amplo, a educação, a cultura, a coesão social e uma clara redução das enormes desigualdades entre ricos e pobres.

Apenas sobre essa plataforma seremos capazes de responder aos principais desafios deste século: segurança, pobreza, atraso e crise ambiental global. Envolverde/IPS



* Mikhail Gorbachev, ex-secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (1989-1991) e ex-presidente da União Soviética (1990-1991).

(END/2012)