:
Metas elevadas para alto mar
Coralie Tripier
Nações Unidas, 14/6/2012 (IPS) - As águas internacionais, fora de todas as jurisdições nacionais, representam 45% do planeta e estão sob grave ameaça devido à sobrepesca e à contaminação.

"A próxima grande crise ambiental global que nos espera é o colapso dos oceanos", alertou Rémi Parmentier, da High Seas Alliance (Aliança para Alto Mar), coalizão de organizações não governamentais que trabalham pela conservação dos mares abertos.

A Aliança se prepara ativamente para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontecerá de 20 a 22 deste mês no Rio de Janeiro. Os ambientalistas esperam convencer os governos sobre a importância da biodiversidade marinha e a adoção de uma postura decisiva na reunião. "Os países acreditam erroneamente que têm outras prioridades. A crise financeira, por exemplo", disse Parmentier à IPS. "Dar prioridade à riqueza artificial, como o dinheiro e os serviços financeiros, enquanto se deixa de lado a riqueza nacional, isto é, tudo o que podemos retirar de nosso ecossistema, é um grande erro", afirmou.

"A natureza, o clima, a biodiversidade... São elementos sem os quais não podemos nos desenvolver de maneira justa e sustentável", acrescentou Parmentier. A Aliança propõe, entre outras ações urgentes, eliminar os chamados "subsídios prejudiciais do meio ambiente", com os quais os governos apoiam atividades contaminantes como uso de combustíveis fósseis, sobrepesca e agricultura industrial, desfavorecendo os setores verdes. "Estou pensando em subsídios que financiam a energia fóssil com vários milhares de milhões de dólares anualmente, ou também nos cerca de US$ 1 bilhão que a União Europeia concede à pesca a cada ano, dessa forma incentivando sua sobrecapacidade", apontou.

Todos estes temas já foram tratados na Cúpula da Terra de 1992, também no Rio de Janeiro, mas não de forma suficiente, afirmam os ativistas. "É incrível que 20 anos depois da Rio 92 e da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, continuemos financiando fontes de energia contaminantes e reduzindo em muitos países as subvenções às energias renováveis, que são, na verdade, parte da solução", lamentou Parmentier.

No começo deste mês o ambientalista deu uma entrevista coletiva na sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York, junto com representantes do Chamado Global de Ação Contra a Pobreza (GCAP) e do grupo International Partners for Sustainable Agriculture. Os três porta-vozes falaram especialmente sobre as metas de desenvolvimento sustentável que se espera sejam acordadas no Rio de Janeiro, entre as quais uma referente à conservação dos oceanos. "Enquanto não for implementado um acordo sobre conservação das águas abertas, nós e nossos governos não poderemos ter voz para influir no que está ocorrendo em quase metade do planeta", advertiu Parmentier.

As águas internacionais sofrem cada vez mais a contaminação e a sobrepesca, o que está levando à extinção de muitas espécies. Por exemplo, 90% dos maiores predadores, como o atum, o bacalhau e o tubarão, já estão desaparecendo ou seriamente em risco, segundo a organização ambientalista espanhola Ocean Sentry. Para Parmentier, a tão esperada Rio+20 será o momento ideal para finalmente tomar decisões urgentes e estabelecer prazos vinculantes.

"Os Estados reiteraram no G-20, na UE e na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) sua vontade para acabar com os subsídios prejudiciais para o meio ambiente, mas a verdade é que ainda estamos esperando. Esta cúpula sobre energia verde será definitivamente a oportunidade para acordar prazos", afirmou Parmentier. Entretanto, a eliminação gradual de alguns setores deve ser acompanhada da expansão de outros. A Aliança promove a pesquisa e o desenvolvimento das energias renováveis.

"Não deveríamos falar apenas de um 'decrescimento'. No entanto, é verdade, devemos procurar 'decrescer" nossa pegada ecológica e nosso impacto nos recursos, mas isso deve ser feito para alcançar o crescimento sustentável dos recursos que a humanidade e seus ecossistemas necessitam para sobreviver", observou Parmentier à IPS. Organizações ambientalistas esperam que Canadá, Estados Unidos, Japão e Rússia, quatro países que frequentemente rejeitam o rascunho do documento final da Rio+20 no que diz respeito aos oceanos, cedam a favor do interesse comum. Proteger as águas internacionais não é apenas salvar os oceanos, mas também os ecossistemas que sustentam a vida no planeta, insistiu Parmentier. Envolverde/IPS (END/2012)