COLUNA:
Carlos Fuentes, reinventor da América
Joaquín Roy*
Miami, Estados Unidos, junho/2012 (IPS) - Disse a Carlos Fuentes, no dia em que o trouxemos à Universidade de Miami para receber o título de doutor honoris causa, em 1992, que apenas de Julio Cortázar eu possuía um número maior de livros.

E ele me respondeu: "Não é de estranhar; era muito melhor escritor do que eu".

Pessoalmente, sempre me causou a mesma indelével impressão ao ler qualquer de suas páginas. Culto, poliglota (seu inglês era nativo), simpático, sério, cortês e atencioso.

Conheci Carlos Fuentes quando, em 1986, aceitou fazer o discurso inaugural em Miami do prêmio literário Letras de Ouro, com o apoio da American Express. Apresentou uma conferência magistral ainda lembrada, na qual se desculpava por não ter se dedicado a escrever em inglês, quando poderia ter feito com êxito: "A língua inglesa não precisa de mais um escritor".

Para benefício do espanhol, assim converteu-se no melhor criador de prosa do último meio século latino-americano. Se alguns (como Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez) podiam superá-lo em tensão narrativa, em riqueza e inovação de linguagem, ele estava acima de todos os companheiros do chamado boom.

Em seus textos, os fragmentos de meditação e descrição tinham o impacto de poemas de antologia. Os ensaios escondidos na narração eram complemento literário de uma das melhores variantes da arte da coluna de colaboração, que contribuía semanalmente aos melhores diários da América e da Europa.

Acima de tudo, Fuentes foi um dos exemplos mais diáfanos de descobridor dos enigmas americanos (e numerosos da Espanha). Suas novelas eram a necessária reescritura da história mascarada do continente, enterradas em ocas declarações políticas partidaristas e emaranhadas com toda a variação ideológica populista latino-americana.

Fuentes raspava a superfície do tecido nacional do México e seguia afundando seu bisturi. Dava voz aos personagens que não a tinham e fazia falar as pedras urbanas e os campos desertos. Devolvia a música à história.

Também foi um dos melhores autores da novela de identidade nacional, um rico terreno na história cultural e política latino-americana. Fuentes sabia como ninguém forjar textos que respondiam com rigor ao mandato de Miguel de Unamuno sobre a "intra-história".

A vida cotidiana dos países, das classes sociais ignoradas, das cidades esquecidas ou massificadas, fazia sua aparição estelar em suas páginas. Numerosos lugares de turismo popular podiam ser percorridos novamente com seus textos na mão, ao lado dos guias comerciais.

Os críticos sempre tiveram um problema em resgatar os melhores livros de Fuentes. Na verdade, essa seleção sempre está sujeita aos caprichos do leitor. Revelarei os meus: um par de novelas de cunho clássico e um livro ensaio-história. As duas novelas, das mais iniciais, são A região mais transparente e A morte de Artemio Cruz.

A região mais transparente deve seu título a uma frase extraída da crônica de Bernal Díaz del Castillo, o historiador-inventor da conquista da América. A expressão logo foi capturada por Alfonso Reyes em um de seus escritos.

O lugar é o mesmo nos três: os arredores do que em seu momento foi capital do império asteca, depois cenário central da evolução da Revolução Mexicana nos anos 20 do século passado, e, mais recentemente, da transformação do monstro capitalino que já em 1950 (época da novela) dava sinais inequívocos de se converter em um gigante impossível de amestrar. A região deixara de ser transparente, já agoniada pela imparável imigração e contaminação ambiental.

Em comum com A morte de Artemio Cruz, A região mais transparente medita sobre o congelamento, a deterioração e a traição da Revolução Mexicana, personificada precisamente pelo protagonista, Artemio.

Velho ativista revolucionário, crescido nos setores mais humildes, Cruz galga os degraus da experiência política mais dramática da história da América Latina, somente comparável à da Revolução Cubana.

Se a mexicana contribuiu com a inserção (imperfeita) do amplo setor mestiço na sociedade, somente a história confirmará o até agora fracasso da cubana, ainda órfã de uma novela com um equivalente de Cruz, moribundo em seu leito.

Os personagens de A região... se misturam com a vida do enigmático Izca Cienfuegos, emblemático símbolo da mestiçagem, uma variante da "raça cósmica" que pregava José Vasconcelos. "O que vamos fazer, aqui nasci, na região mais transparente do ar", diz resignadamente contemplando a cidade de uma colina.

O livro que se recomenda uma leitura continuada é O espelho enterrado. Escrito no contexto da comemoração de 1992, é uma meditação da essência da civilização espanhola, em íntima relação com a latino-americana, da qual é complementar, em lugar de contrária.

Tudo da América diz respeito à Espanha, e ao contrário, é a mensagem de Funtes, de grande vigência nestes dias presididos por enfrentamentos provocados, que a ninguém (com exceção de alguns populistas americanos e uns poucos tresnoitados arrogantes ibéricos) beneficiam.

Se esses livros podem ser lidos sem pressa, não nos faltarão as linhas marcadas no terreno cotidiano da atualidade social, política e econômica dos dois continentes. As páginas de opinião dos grandes jornais sofrerão um vazio difícil de preencher. Partiu um jornalista mestre. Envolverde/IPS

* Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu). (END/2012)