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"Quênia deve descobrir a liderança das mulheres"
Brian Ngugi
Nairóbi, Quênia, 6/11/2012 (IPS) -
Organizações de mulheres do Quênia esperam que
as
disposições sobre igualdade de gênero na nova
Constituição se traduzam em maior presença feminina
no governo depois das eleições de 4 de março de
2013. Winnie Lichuma, presidente da Comissão
Nacional sobre Gênero e Igualdade, é moderadamente
otimista.
"No atual parlamento, as mulheres têm apenas
9,8% de representação, o que é muito baixo",
afirmou Lichuma. Ela disse à IPS que este país
precisa "descobrir a liderança feminina" enquanto
se prepara para as eleições gerais do ano que vem.
No dia 12 deste mês começará o registro de
eleitores em todo o território.
Serão as primeiras eleições no Quênia com sua
nova Constituição, adotada em 2010, na qual são
reconhecidos os direitos das mulheres e incluídas
disposições para sua justa representação no
parlamento. O Artigo 177 estabelece que nenhum
gênero pode ter representação que exceda os dois
terços em qualquer órgão público. Lichuma disse
que estas disposições permitirão que cresça em
todo o país a representação feminina.
IPS: As mulheres conseguiram êxitos notáveis no
Quênia desde a promulgação da nova Constituição?
WINNIE LICHUMA: As mulheres foram
discriminadas por muito tempo e estão ausentes da
esfera pública. Seus papéis estão relegados ao
âmbito privado. Agora se beneficiam da igualdade
de gênero e do princípio contra a discriminação
contemplado na Constituição, que lhes dá direito a
uma representação de 30% em postos públicos,
eletivos e designados. Todos os novos órgãos
públicos, especialmente os do sistema judicial e as
comissões constitucionais, atenderam ao limite de
dois terços de representação para qualquer gênero.
A implantação desse princípio está em andamento.
Mas, só depois das próximas eleições gerais
poderemos realmente ver seu impacto.
IPS: Existe claramente uma grande disparidade no
número de homens e de mulheres em áreas nas
quais são tomadas decisões fundamentais, tanto
no campo político quanto no corporativo. Por que
isso ocorre?
WL: A resposta é óbvia. Historicamente as
mulheres estiveram marginalizadas do setor
público. Houve poucos esforços para aumentar sua
representação nos setores político e empresarial.
Mas as barreiras socioculturais conspiram. Às
vezes, o papel reprodutivo das mulheres é usado
como argumento para negar-lhes entrada na arena
corporativa. Isto deve mudar com a nova
Constituição.
IPS: As mulheres estão preparadas para enfrentar
os homens na próxima competição eleitoral?
WL: Bem, a lei está do lado das mulheres, mas
ainda há muitas barreiras, entre elas as ideológicas
e socioculturais, bem como a violência,
especialmente a sexual, os limitados recursos e o
fato de a maioria dos partidos políticos serem
controlados por homens. As mulheres também
carecem de apoio de suas próprias famílias. Em
alguns clãs são apoiados apenas candidatos
masculinos, especialmente nas comunidades
pastoris. As mulheres estão prontas, mas as
barreiras as afetam, juntamente com a propaganda
masculina que parece ter convencido os quenianos
de que as mulheres não podem disputar os cargos
reservados (por lei) para elas.
IPS: Foram feitos chamados aos países para que
em seus orçamentos tenham em conta questões
de gênero. Qual o desempenho do Quênia nesse
ponto?
WL: A Comissão apoiou o Ministério de Finanças e
Planejamento para integrar temas de gênero no
processo de elaboração do orçamento. É um
desafio. Necessitamos urgentemente fortalecer a
capacidade dos funcionários responsáveis por
planejar e elaborar os orçamentos. As diretrizes
sobre isto precisam ser bem entendidas por todos
os atores. A Comissão apresentou pautas para
orçamentos com responsabilidade de gênero.
Porém, ainda trabalhamos para afinar as
ferramentas que usaremos no futuro.
IPS: Ruanda está apresentando bom desempenho
em matéria de representação feminina em cargos
de governo. É o primeiro e único país do mundo a
ter maioria de mulheres no parlamento. O que se
pode aprender com esse modelo?
WL: A chave desse sucesso é a vontade política. O
presidente ruandês, Paul Kagame, é um firme
partidário da representação feminina, o que ajuda a
aumentar a presença de mulheres em todos os
níveis de governo.
IPS: O governo do Quênia tem a mesma vontade
política?
WL: É um processo. Com o tempo veremos muitos
no governo se adaptando à ideia de uma justa
representação de mulheres. Envolverde/IPS (END/2012)
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