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UGANDA:
Ecologistas lutam para que se deixe de comer chimpanzés
Henry Wasswa
Região de Albertine Rift, Uganda, 6/11/2012 (IPS) -
Conservacionistas que se esforçam para proteger a
população remanescente de chimpanzés em Uganda
estão preocupados porque pessoas que vivem perto
das reservas de biodiversidade, no oeste do país, os
matam para comer sua carne.
"Não pensávamos que os ugandenses estivessem
consumindo carne de chimpanzé, mas começamos
a observar que estão comendo macacos e
chimpanzés. Isto assusta. A ameaça à sua
sobrevivência aumentou", disse Lily Ajarova, que
administra o Santuário de Chimpanzés de Ngamba,
na ilha de mesmo nome no Lago Victoria, na região
de Albertine Rift.
Este santuário, onde vivem 48 primatas resgatados
do cativeiro, foi criado com a ajuda do Instituto Jane
Goodall e é administrado pelo Santuário de
Chimpanzés e pela Wildlife Conservation Trust. Há
décadas, dezenas de milhares de chimpanzés
perambulavam pelas densas florestas tropicais que
então cobriam um vasto trecho da região de
Albertine Rift. A área cobre a parte ocidental do
Grande Vale do Rift, desde o noroeste de Uganda
até o extremo sudoeste, ao longo da fronteira com
a República Democrática do Congo.
Entretanto, segundo o Fundo Mundial para a
Natureza, os chimpanzés já desapareceram de boa
parte dos países africanos ou estão à beira da
extinção, em boa parte devido ao desmatamento e
à caça ilegal para se ter sua carne. Estima-se que
atualmente existam apenas cinco mil exemplares
em Uganda, segundo funcionários da área de
conservação. A maioria dos que restam no país
está protegida em seis reservas de caça e
florestais na região de Albertine Rift, enquanto os
outros estão em florestas de propriedade privada.
Ajarova disse à IPS que, apesar de há dois anos
sua equipe de conservacionistas notar pela primeira
vez que havia gente que comia carne de primatas
no oeste de Uganda, os que incorriam nessa
prática eram principalmente imigrantes ou
refugiados da vizinha República Democrática do
Congo. Era incomum os ugandenses comerem
essa carne, destacou.
"Há muitas outras partes do mundo em que se
come carne de primatas, mas isto não acontecia
em Uganda. Com o passar do tempo começamos a
testemunhar essa prática, que se desenvolve
lentamente, da qual nos inteiramos quanto
estivemos no lugar há dois anos", disse Ajarova,
acrescentando que agora é "um problema
emergente". A recente chegada de imigrantes da
República Democrática do Congo mudou o
equilíbrio demográfico da área e impactou na
cultura local, observou.
Em julho, o ministro de Alívio, Preparação para
Desastres e Refugiados, Musa Ecweru, disse que
Uganda estava se esforçando para alimentar a
grande quantidade de pessoas que fugiam dso
combates na província congolesa de Kivu do Norte.
Estima-se que no ocidente de Uganda há 16 mil
refugiados congolenses. "Na área há muitos
refugiados congolenses, e eles podem ter influído
na população local para que comesse macacos e
chimpanzés", opinou Ajarova.
"Isto não foi parte da cultura ugandense no
passado, mas agora está se tornando um
problema. Descobrimos que agora esse hábito está
estendido por toda a região ocidental. Acontece em
quase todas as aldeias que visitamos. De vez em
quando vemos aldeões carregando esqueletos de
macacos e, às vezes, de chimpanzés", disse
Ajarova.
Os funcionários também acreditam que as pessoas
passaram a comer primatas porque a região de
Albertine Rift está devastada pela pobreza e seus
habitantes dependem principalmente dos recursos
florestais para sobreviver, já que não podem se dar
o luxo de comprar carne. Os especialistas se
preocupam que a nova tendência possa causar um
surto de ébola, uma febre hemorrágica
frequentemente fatal, que se acredita ser passada
aos seres humanos pelo contato com animais
infectados.
"É um problema sério. Toda carne que se come
tem que passar por uma adequada inspeção
veterinária, mesmo sendo de fazendas. As pessoas
que ingerem carne de primatas correm o risco de
contrair zoonoses, entre elas o éloba", disse à IPS
o diretor executivo da Autoridade da Natureza de
Uganda, Andrew Seguya. "Não há nenhuma tribo
ugandense que tradicionalmente coma carne de
primata, mas há muitos refugiados congolenses
nessa área e eles podem ter difundido o hábito
entre os moradores locais", afirmou.
"O ébola se propaga pelo contato direto, e acredita-
se que estes primatas sejam portadores da doença
e possam transmiti-la a seres humanos por outras
vias, como a matéria fecal. Inclusive há uma escola
de pensamento que afirma que a aids pode ter sido
transmitida por primatas", disse Seguya, que é
cirurgião veterinário. O distrito de Kibaale foi afetado
por uma suposta epidemia de ébola em julho.
Funcionários da saúde ainda não confirmaram que
se trata mesmo dessa doença. Mas, segundo a
imprensa, morreram 17 pessoas.
Enquanto isso, Ajarova disse que são feitos
esforços para mudar as atitudes das pessoas
quanto ao consumo de carne de primata, mediante
programas educativos e de projetos para criação de
animais entre os aldeões. "Falamos para as
pessoas que deixem de comer carne de primatas,
informando-os que é perigoso para a saúde,
podendo contrair o ébola. Esta é uma das
principais mensagens em nossos programas
educativos", explicou Ajarova. "Também usamos
rádio FM para transmitir mensagens
conservacionistas às comunidades. Estas chegam
a um grande público ao mesmo tempo",
acrescentou. Envolverde/IPS (END/2012)
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