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Pobreza Infantil Dramática Pode Destruir o Futuro do Lesoto
Kristin Palitza
Maseru, 12 de novembro (IPS) - As frágeis perspectivas económicas e uma pandemia de SIDA desvastaram o Lesoto, deixando-o com pouca esperança de sair do sombrio ciclo da pobreza. Três em cada cinco crianças neste pequeno reino da África Austral estão agora a viver numa profunda pobreza. Cada quarta criança no país é orfã.

Logo que nasce o sol, Moliehi* levanta-se e varre o chão de terra da palhota, vai buscar água e faz o pequeno-almoço. Acorda e alimenta as crianças antes de os enviar para a escola. Mas Moliehi não é a progenitora. Desde que a mãe morreu há três anos, esta orfã de 17 anos tornou-se responsável pelos seus irmãos mais novos, de 9 e 15 anos.

As crianças vivem numa pequena barraca com um quarto, feita à martelada com chapas de estanho ondulado. Alguns pratos, tachos, uma chaleira e uma bacia de plástico estão amontoados numa mesa pequena e instável, enquanto que várias malas rotas cheias de roupas velhas e cobertores estão encostadas à parede do lado oposto. À noite, os irmãos dormem num colchão pequeno e desgastado.

"Sinto falta da minha mãe. Preencher o seu papel é um fardo. Os meus irmãos olham para mim para lhes dar sustento mas não temos nada," explicou Moliehi, sem saber o que fazer enquanto os irmãos se aconchegam a ela. "Geralmente vou de porta em porta pedindo um copo de milho e algum óleo."

Mas os residentes de Mohasoa, uma aldeia situada a uma hora de distância da capital do Lesoto, Maseru, onde vive Moliehi, são igualmente pobres. "Nove em cada 10 famílias são afectadas pela pobreza. Quase ninguém tem emprego," disse o chefe da aldeia, Malipontso Mokasoa. "O nosso sofrimento tem aumentado a um nível assustador desde o início da crise económica."

A situação das crianças do Lesoto é muito difícil. Num país com 1.8 milhões de pessoas, pelo menos 500.000 de 825.000 rapazes e raparigas vivem com menos de 1.25 dólares por dia e sem abrigo adequado, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Cerca de 40 por cento das crianças com menos de cinco anos sofrem de subnutrição crónica e crescimento atrofiado. A mortalidade infantil das crianças com menos de cinco anos tem aumentado persistentemente na última década.

"As pessoas aspiram ter acesso às necessidades mais básicas, como alimentos, abrigo e roupas. Mas agora nem a isso conseguem ter acesso. Algumas só comem de dois em dois dias," contou Lineo Lephoto, responsável pelo bem-estar da criança junto do Departamento Nacional de Assistência Social. "É a luta pela sobrevivência e não temos esperança de assistir uma melhoria num futuro próximo."

O Lesoto tornou-se um dos piores lugares no mundo para se ser criança. A razão é o devastador impacto que a crise económica global tem tido neste pequeno país do tamanho da Bélgica, que está totalmente rodeado pela África do Sul e fortemente dependente da economia do seu vizinho.

A diminuição dos preços dos diamantes e a perda da exportações de têxteis enfraqueceram as duas principais indústrias do Lesoto, enquanto que uma queda de 60 por cento das receitas da União Aduaneira da África Austral (SACU), em larga medida causada pela crise económica, fez desaparecer a principal fonte de receitas desta monarquia constituicional. O crescimento do PIB diminuiu 0.9 por cento em 2009, dos 6.5 por cento em 2006, segundo o Banco Mundial.

Simultaneamente, nas zonas rurais, onde 70 por cento da população do Lesoto luta pela sobrevivência em nove por cento da terra arável, a agricultura de subsistência diminuiu. As cheias e secas que se alternam reduziram as colheitas dos agricultores ao mínimo, deixando mais de um quarto da população a sofrer de insegurança alimentar. O Lesoto ocupa a 141ª posição de um total de 162 países na classificação do Índice de Desenvolvimento Humano, atrás do Benim, Iémen e Bangladesh.

Para piorar as coisas, o Lesoto é um dos três países no mundo mais afectados pelo VIH/SIDA. Uma em cada quatro pessoas está infectada com o vírus, deixando um quarto das crianças orfãs. "O Lesoto tem uma das percentagens mais elevadas de orfãos no mundo," afirmou o representante da UNICEF no país, Dr Ahmed Magan. "A situação é dramática, e neste momento, o nível de privação está a aumentar em vez de diminuir."

A ameaça tripla do VIH, pobreza e insegurança alimentar está a expor cada vez mais as crianças a maus tratos, exploração e outras violações dos direitos humanos. "Se não conseguirmos reduzir a pobreza nos próximos cinco anos, veremos uma grande redução na sobrevivência e desenvolvimento das crianças," avisou Magan.

Numa tentativa para reduzir alguma da drástica pobreza infantil, a UNICEF, com 29.6 milhões de dólares de apoio da União Europeia (UE), iniciou em 2008 um plano de subsídios para orfãos e crianças vulneráveis. O programa é implementado pelo departamento para o bem-estar da criança no Lesoto, que atribui 14.8 de dólares por mês aos lares mais pobres. Até agora, o subsídio complementa o rendimento de 10.200 famílias e chega a 28.000 crianças em cinco dos dez distritos no país. Até 2014, quando este financiamento se esgotar, cerca de 75.000 crianças - um quinto das crianças vulneráveis e orfãos do Lesoto - já dele terão beneficiado. A partir de 2015, prevê-se que o governo financie o plano.

A forma como este país assolado pela probreza irá conseguir apoiar este plano tem sido recebida com cepticismo generalizado. Mohammed Farooq, director da política social da UNICEF, admite que o "governo ainda tem um longo caminho a percorrer." "Tenta manter os seus gastos sociais, mas com todos os cortes nas receitas, teremos de ver se em 2015 o governo conseguirá assumir responsabilidade pelo plano."

Segundo Farooq, a única forma de o conseguir é com a ajuda dos doadores internacionais, como a UE, que já dá apoio ao orçamento nacional do Lesoto no valor de 134.7 milhões de dólares.

Para crianças como Moliehe e os irmãos, a continuidade do subsídio decidirá o seu futuro. Apesar de 14.8 dólares parecer uma quantia pequena, o dinheiro permite às crianças comprar alimentos para irem à escola. Afirmou a adolescente: "O subsídio é o único dinheiro que recebemos. Já não é fácil conseguirmos sobreviver. Estou sempre preocupada."

* Apelido alterado para proteger a identidade da criança.

(END/2012)