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Caça aos abutres
Mike Elkin
Nairóbi, Quênia, 23/11/2012 (IPS) -
Um novo site do Quênia, que vincula políticos de alto
escalão com casos de corrupção e outros escândalos,
se converteu no mais visitado deste país africano.
Mavulture.com, que significa "muitos abutres" em
swahili, reúne, condensa e publica irregularidades
cometidas por dirigentes políticos quenianos.
Criado no dia 13, o site é o mais recente projeto do
ativista Boniface Mwangi, conhecido por seus
grafites e murais políticos em toda Nairóbi, bem
como por suas exposições fotográficas sobre a
violência desatada neste país depois das eleições
presidenciais de 2007. Depois do anúncio dos
polêmicos resultados das eleições de dezembro
daquele ano, ocorreram enfrentamentos tribais em
todo o país, deixando cerca de 1.200 mortos e o
deslocamento de 600 mil pessoas.
Fotógrafo independente, Mwangi, 29 anos, recebeu
em 2008 e 2010 o Prêmio Fotográfico Mohamed
Amin, concedido pela rede de televisão CNN, por
sua cobertura da violência pós-eleitoral. "Já
visitaram o Mavulture.com?", perguntou em sua
conta no Twitter a revista queniana de
entretenimento Blink. "Creio que devem visitá-la
antes de votarem no próximo ano", ressaltou. Os
quenianos voltarão às urnas em março de 2013
para escolher um novo presidente.
O site apresenta até agora os perfis de 17 políticos,
incluindo Uhuru Kenyatta, filho do primeiro
presidente do Quênia, atual candidato presidencial
e um dos homens investigados pelo Tribunal Penal
Internacional por crimes contra a humanidade
durante a violência de 2007. Lavagem de dinheiro,
apropriação de terras, tráfico de drogas e
assassinato são algumas das acusações que
constam no Mavulture.com. Além dos artigos, o
site inclui vídeos e infográficos sobre cada político,
bem como cartazes de "Procurado", ao estilo do
Velho Oeste, que podem ser baixados pelos
internautas. O site é financiado por doadores
anônimos.
Mwangi disse à IPS, em entrevista em seu
escritório em Nairóbi, que o objetivo da página é
informar os quenianos sobre o histórico de suas
autoridades. "Vamos publicar os registros de cada
pessoa do governo, cada caso de corrupção em
que se envolvem e cada acusação contra eles",
afirmou. "Desta forma, na hora de votar, as pessoas
poderão contar com esta plataforma para ter uma
perspectiva informada. Temos corrupção em grande
escala neste país, e os mesmos tipos envolvidos
nos últimos 49 anos", detalhou.
"Desta forma será possível comparar. Quando
dizem que estamos todos unidos, nós vemos que
não é bem assim. Nossas crianças não vão a
escolas estrangeiras e não têm casas na Grã-
Bretanha", ressaltou Mwangi. O índice de
percepção de corrupção de 2011, elaborado pela
organização Transparência Internacional, coloca o
Quênia com 2,2 pontos em dez, no posto 154 na
lista de 183 países relacionados. Segundo a
organização, a corrupção custa ao Quênia mais de
US$ 357 milhões por ano.
Mwangi contou que se dedicou ao ativismo político
após sentir frustração e raiva pela violência pós-
eleitoral. Em 2009, criou a exposição fotográfica
itinerante Picha Mtaani, com imagens dos
assassinatos, para recordar aos quenianos o
ocorrido. Depois organizou um grupo de artistas
para pintar controvertidos murais por toda Nairóbi,
ilustrando os políticos do país como abutres e
criticando a população por sempre votar neles.
Em junho deste ano, liderou uma mobilização que
colocou 49 ataúdes negros na porta do parlamento
enquanto este estava em sessão. Os caixões
representavam cada um dos anos que os políticos
gozaram de impunidade desde a independência em
1963, e neles estava escrito: "Enterrem os abutres
com seu voto". Cada um também estava
identificado com um escândalo político.
As autoridades pintaram por cima de muitos murais
na capital, mas uma das imagens mais marcantes
de Mwangi permanece intacta, perto do mercado da
cidade. Nela, um homem com cabeça de abutre
está sentado em um trono mostrando um malicioso
sorriso. Em uma das mãos segura uma xícara de
chá e a outra está algemada a uma maleta. O
homem-abutre está pensando: "Eles saqueiam,
violam, queimam e matam em minha defesa. Eu
roubo seus impostos e me aproprio de terras, mas
os idiotas ainda votam em mim".
"Você sabe o que faz um abutre?", pergunta o
taxista Kimani Jong Kimani Nganga enquanto olha
o mural. "Come carne. Temos políticos que desde
as eleições estão nos comendo. Devemos mudar
isso", respondeu. Mwangi explicou que desejava
provocar uma resposta entre os quenianos, pois
sua indiferença diante de claros abusos políticos e
econômicos apenas fortalece os que se aproveitam
do sistema.
"Há pouco tempo, professores e médicos fizeram
uma greve em protesto por seus baixos salários.
Ao mesmo tempo, os legisladores se reuniram no
parlamento e em 30 minutos concederam aumento
a eles mesmos", recordou Mwnagi. "Não houve
nenhum alvoroço por isso. Duzentos legisladores
podem fazer isto em um país de 40 milhões de
habitantes e ninguém ir às ruas protestar. Como se
chama isso? É ilógico que as pessoas possam ser
escravas de um sistema e nunca denunciá-lo.
Veem a injustiça diariamente e apenas ficam
olhando", afirmou de forma veemente.
Uma das principais razões do silêncio é o temor de
sofrer represálias, reconheceu Mwangi. Por isso ele
planeja um protesto em que todos os manifestantes
usem máscaras. "Este país é muito pequeno. A
maioria das empresas é propriedade de políticos e
abutres. Por isso algumas pessoas temem sofrer
represálias ou serem demitidas", enfatizou. O
ativista também comentou a ironia de que "com
máscaras as pessoas possam mostrar seu
verdadeiro rosto". Envolverde/IPS (END/2012)
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