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Chineses e brasileiros se unem na construção de Luanda
Mario Osava
Luanda, Angola, 26/11/2012 (IPS) - "Em Luanda não há fósforos", destacou Gabriel García Márquez na primeira linha de uma reportagem desde a capital de Angola em 1977. Também faltam sabão, leite, sal e aspirinas em uma cidade que "surpreende" por sua "beleza moderna e radiante", mas que, na realidade, é "uma deslumbrante casca vazia", acrescentou.

A ênfase dada por García Márquez à escassez que este país sofria feriu o orgulho dos poucos angolanos que o puderam ler, embora efetivamente explicasse o caos herdado do colonialismo e da guerra de libertação. A independência tinha sido conquistada um ano e meio antes.

Hoje, 35 anos mais tarde, Luanda impressiona por seus exageros. O trânsito confuso com automóveis modernos, entre milhares de grandes edifícios ainda vazios ou em construção e novas avenidas e estradas, contrasta com enormes bairros super- habitados. E os muros com identificações ou cartazes em mandarim, omitindo o português local, em numerosas obras, dão a medida da forte participação chinesa na construção desta nova Angola. A obra máxima a cargo de companhias chinesas é a Cidade do Kilamba, um complexo habitacional previsto para receber meio milhão de pessoas, situado 20 quilômetros ao sul do centro de Luanda.

Esse novo bairro contará com mais de 80 mil apartamentos para famílias numerosas, como costumam ser as angolanas, em prédios de cinco a 13 andares, aos quais serão agregados todos os serviços, como dezenas de escolas, creches, centros de saúde e comércio. Já está construído quase um quarto dos edifícios, mas praticamente todos seguem sem ocupação, embora a primeira fase do projeto tenha sido inaugurada em julho de 2011, quando já havia 3.180 apartamentos disponíveis.

Nas obras que estruturam a nova metrópole também se destacam empresas brasileiras, sobretudo a Odebrecht, encarregada de projetos destinados a fornecer eletricidade, água, estradas e avenidas. Essa presença estrangeira nas grandes obras "não é de admirar, já que não havia nenhuma empresa nacional com capacidade para fazê-las", reconheceu o escritor Pepetela, como é conhecido Artur Pestana, também professor de sociologia.

"Os chineses são mais rápidos para construir, trabalham por turnos sem parar" e oferecem financiamento "quase sem juros" a prazos longuíssimos, mas empregam poucos trabalhadores angolanos, e "há muitas queixas sobre a qualidade de suas obras", afirmou Pepetela. Já as empresas brasileiras "parecem ter aprendido a lição de alguns fiascos iniciais que viraram piada nacional e agora primam pela qualidade", o que lhes permite competir com os chineses, disse o autor de romances históricos e de crítica política.

A Odebrecht, um consórcio brasileiro com atuação em 35 países, conquistou sua posição de predomínio nas obras de infraestrutura a partir de 1984, quando assinou o contrato para construir a hidrelétrica de Capanda, no Rio Kwanza, para abastecer Luanda, a 360 quilômetros de distância. A guerra civil, que assolou Angola desde sua independência, forçou a longas interrupções na obra, que só começou a gerar energia em 2004.

O fim do conflito armado interno em 2002 desatou uma intensa onda de investimentos em reconstrução e modernização de Angola, contando com o impulso inicial dos créditos chineses e da renda com o petróleo. Além das obras de outras grandes hidrelétricas, a Odebrecht impulsiona a produção de açúcar, etanol e eletricidade a partir da cana, executa o projeto de expansão do fornecimento de água potável para Luanda e a construção de condomínios, estradas, avenidas e obras de saneamento. Também se dedica à mineração de diamantes e controla a rede de 29 mercados Nosso Super.

A Odebrecht foi a primeira empresa brasileira não petroleira a se instalar em Angola com "visão de longo prazo", com o efeito "positivo" de atrair outras companhias com esse horizonte, superando a busca de oportunidades pontuais, reconheceu Victor Fontes, diretor-geral da angolana Elektra, especializada em eletricidade e água. A esse respeito, o diretor de Relações Institucionais da Odebrech Angola, Alexandre Assaf, explicou à IPS que o compromisso do consórcio neste país é com "a continuidade", acima de guerras ou efeitos da crise internacional.

Há cinco anos, apenas 9% dos "cargos estratégicos" da companhia eram ocupados por angolanos, mas agora já chegam a 41%, citou Assaf como exemplo do compromisso com o desenvolvimento local. Além de diretores e gerentes, Assaf inclui nessa elite os "jovens parceiros", novos trabalhadores recrutados nas universidades de Angola com a perspectiva de se formarem na empresa como futuros líderes.

Entretanto, Fontes questiona que a posição de "quase monopólio" em alguns setores da Odebrecht "trava a iniciativa local", prejudicando o desenvolvimento de pequenas e médias empresas nacionais que poderiam se encarregar de obras de menor envergadura que não exijam a intervenção de firmas transnacionais, como reformar ruas e bairros. Além disso, o país paga "mais do que o razoável por determinados infraestruturas e serviços" executados pela empresa brasileira, com qualidade mas a preços elevados, segundo Fontes, reconhecendo que a Odebrecht "trouxe boas práticas de gestão" e "as melhores no setor de construção" em segurança do trabalho.

O desafio dos angolanos e das empresas estrangeiras é solucionar os graves problemas que se acumularam em Luanda, onde a população cresceu desmesuradamente. A capital tinha 475.328 habitantes em 1970, segundo o último censo realizado pelo governo colonial português, enquanto atualmente chega a mais de sete milhões, segundo várias estimativas. Os condomínios ou prédios que proliferaram na cidade não atenuam o déficit habitacional, porque os mais necessitados não têm recursos para comprar as novas moradias, construídas para uma classe média pouco numerosa. A contradição é que essa grande oferta não baixou os preços de compra nem de aluguel.

Água e luz escassas são outras queixas comuns em meio à febre da construção. A solução está a caminho, segundo os planos cujos projetos estratégicos são executados pela Odebrecht, mas serão precisos muitos anos para silenciar os geradores domésticos que se ouve em todas as partes durante os apagões e também para garantir água em volume satisfatório. Envolverde/IPS (END/2012)