DESENVOLVIMENTO:
Corte na ajuda pode afetar os mais pobres na Índia
A.D. McKenzie
Paris, França, 7/12/2012 (IPS) - O governo da Índia acredita que, enquanto continuar forjando acordos comerciais com nações europeias, como a França, poderá sobreviver sem a "tacanha" ajuda financeira que recebe da Grã-Bretanha.

Porém, ativistas alertam para riscos. Alguns dizem que se Londres rescindir, como prevê, até 2015, a assistência direta de US$ 320 milhões anuais que entrega a Nova Délhi, os mais pobres da Índia poderão ser muito afetados.

"A Índia ainda tem grandes desafios. Milhões de indianos vivem na extrema pobreza e um número, que causa calafrios, de meninos e meninas morre a cada ano", disse Guillaume Grosso, diretor do ramo francês do grupo de luta contra a pobreza ONE. "Se a Grã-Bretanha reduzir a ajuda, deverá ter muito cuidado em garantir que o sofrimento dessas crianças não se agrave", afirmou à IPS.

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que a Índia registrou, em 2011, o maior número de mortes de crianças menores de cinco anos, apesar dos avanços na atenção médica. O grupo cristão de assistência e pelo desenvolvimento World Vision questionou a decisão de Londres. "Neste momento, quase metade dos menores de cinco anos está raquítica devido à falta de alimentos nutritivos. Isto é, mais de 60 milhões, o que equivale a toda a população da Grã-Bretanha", disse o chefe de políticas da ONE, David Thomson.

"A diferença entre desnutrição aguda e fome - que pode ser tratada - é que as crianças nunca se recuperam do atraso no crescimento. Seus cérebros e seus corpos nunca se desenvolverão completamente, o que reduz suas possibilidades de ganhar uma renda decente quando adultos", destacou Grosso. A ONE, fundada pelo vocalista da banda de rock U2, Bono, e outras organizações que lutam contra a pobreza gostariam de ver "o dia em que a ajuda para o desenvolvimento não seja necessária", segundo seu diretor. Enquanto isso, "a assistência ajuda as pessoas a escaparem da pobreza e terem acesso a coisas que damos como certas, como vacinas e água potável", acrescentou.

"É uma solução temporária, mas tem um papel importante para colocar o desenvolvimento em marcha. Em muitos países, simplesmente não há recursos disponíveis para fornecer esses serviços básicos, por isso a ajuda é essencial", destacou Grosso. No entanto, reconheceu que a Índia está cada vez mais em melhores condições de subsistir sem a ajuda, graças ao seu "forte crescimento econômico" que lhe permite ter mais recursos. A Índia é um exemplo de "como os países pobres podem se transformar. Enquanto isto ocorre, a ajuda pode ser dirigida àqueles países com mais necessidades", disse à IPS.

No começo de novembro, o Departamento Britânico para o Desenvolvimento Internacional anunciou que a secretária de Desenvolvimento, Justine Greening, não "assinará nenhum novo programa", e que a ajuda à Índia terminaria definitivamente em 2015. "Depois de revisar o programa e discuti-lo com o governo da Índia, acordamos que já é tempo de avançar em uma relação concentrada no intercâmbio de capacidades em lugar da ajuda", afirmou Greening.

Esta mudança desagradou funcionários do governo indiano e os aproximou mais de outro membro da União Europeia, a França. Poucos dias depois do anúncio, quando representantes de Nova Délhi se encontravam em Paris para a homenagem anual aos soldados indianos mortos na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), houve uma aproximação entre os dois governos. Segundo a embaixada indiana na capital francesa, os dois países "são sócios completamente estratégicos", especialmente em temas de defesa e segurança, e a relação entre ambos se estreita cada vez mais.

O polêmico Projeto Nuclear de Jaitapur é uma iniciativa conjunta dos dois países. Se for concretizada, será a maior estação geradora de energia atômica do mundo. A companhia francesa Areva poderá construir vários reatores na Índia. Nova Délhi também prevê comprar 126 aviões de combate Rafale, da empresa francesa Dassault Aviation, em um acordo que, segundo se informou, superaria os US$ 10 bilhões. A Areva acaba de estabelecer uma subsidiária na Índia, a Dassault Aircraft Services India Private Limited.

Funcionários da embaixada indiana em Paris disseram à IPS que a França não concede "nenhum tipo de ajuda bilateral". Mas Nova Délhi fornece bolsas a estudantes franceses nos campos da medicina e das artes tradicionais. "A Índia deixou de aceitar ajuda de muitos países, inclusive da França", informou um porta-voz da sede diplomática. Esses passos são um sinal de que a Índia está "mudando de lugar no mundo", segundo Greening.

Por sua vez, o jornal The Times of India sugeriu que agora Nova Délhi pode dizer à Grã-Bretanha: "Não, obrigado pela tacanha ajuda". Contudo, organizações não governamentais temem que os 360 milhões de pessoas que ainda sobrevivem na extrema pobreza na Índia sejam ainda mais afetadas por esta abrupta mudança de política.

"A Índia pode ser um país de renda média agora, mas ainda tem os mais altos níveis de desnutrição infantil no mundo", afirmou Matt Davies, chefe de políticas internacionais da ATD Fourth World, grupo que luta contra a pobreza, com sede na França. "Temos de ver para onde vai a ajuda e garantir que os mais pobres dos pobres não sofram pelas reduções de fundos", disse à IPS. "Pôr fim à ajuda financeira pode ter sérias consequências para os que estão em maior risco, em um país onde um dos principais problemas é a desigualdade", alertou. Envolverde/IPS (END/2012)