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O Brics enterrará o Ibas?
John Fraser
Johannesburgo, África do Sul, 7/1/2013 (IPS) - A presença da China é a vantagem fundamental que o Brics tem em relação a outro grupo semelhante de economias emergentes, o Ibas, afirmou Peter Draper, especialista sul-africano em comércio e relações internacionais.

O Ibas é formado por Índia, Brasil e África do Sul, enquanto o Brics conta com estes três países mais Rússia e China. "Parece haver interesses empresariais consideráveis no Brics, que, talvez ironicamente, se tornou uma marca comercial para que cada um de seus governos impulsione seus laços comerciais e econômicos em suas respectivas comunidades de negócios", declarou, em entrevista à IPS, Draper, que há pouco regressou de Moscou, onde participou de uma série de reuniões vinculadas ao G-20 (Grupo dos 20 países industrializados e emergentes).

IPS: Foi o comércio, a economia ou principalmente a política que levou à criação do Ibas e do Brics?



PETER DRAPER: A política é o principal motor de ambos. O Ibas foi criado com o objetivo expresso de fazer lobby em busca de um assento para cada um de seus membros no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Com o tempo se voltou para a política externa e, naturalmente, para a economia. O fato de cada um de seus membros ser uma potência democrática em desenvolvimento serve de "aderente" adicional, mas não me parece óbvio que baste para sustentar o grupo. Na verdade, há os que acreditam que um dos objetivos da China com seu apoio à entrada da África do Sul no Brics era solapar o Ibas. Assim, creio que o motor principal do Brics é geoeconômico, especialmente a reforma dos sistemas financeiros e comerciais internacionais.

IPS: Necessitamos dos dois? São sustentáveis?

PD: Do ponto de vista da África do Sul, creio que sim. A discussão entre Estados em desenvolvimento democráticos é importante, do contrário corremos risco de estarmos muito influenciados por grandes potências euro-asiáticas autoritárias, como China e Rússia. Geograficamente, também estamos perto da Índia e do Brasil, e em menor medida estamos bem situados para facilitar os vínculos comerciais e econômicos entre nós. Em outras palavras, temos mais em comum com a Índia e o Brasil do que com Rússia e China. Contudo, potencializar o peso da China, em particular nas discussões geoeconômicas internacionais, é um bom objetivo no qual se mirar, mesmo sendo difícil de conseguir na prática. Para este campo se levaria a discussão a respeito do Brics.

IPS: Qual será o próximo passo na evolução de algum dos blocos ou dos dois: criar uma área de livre comércio ou uma secretaria de tempo integral?

PD: Nenhum dos dois. Creio que ambos continuarão sendo grupos informais em um futuro próximo, coordenados pelos governos dos Estados-membros. Neste sentido, não os chamaria "blocos", mas "clubes" ou "agrupações", para expressar sua natureza informal e não vinculante. Mais parecidos ao G-7 (grupo de países mais ricos: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão) ou G-8 (os anteriores mais a Rússia).

IPS: Você prevê uma maior coordenação de políticas, e, portanto, que tenham maior capacidade de negociação em fóruns internacionais, em temas de economia, meio ambiente, entre outros assuntos?

PD: Já há bastante coordenação no concerto internacional com diferentes graus de êxito. Penso que isto continuará igual até que organizações pontuais como a Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática e a Organização Mundial do Comércio, ou agrupações, em especial o G-20, conseguirem progressos.

IPS: Você acredita que possa existir algum conflito entre as relações da África do Sul com outros mercados emergentes e suas ambições na África?

PD: Se seu objetivo principal é a diplomacia econômica externa, como disse antes, então não creio. Na verdade, a África do Sul pode fazer com que sua relação com estas potências, especialmente a China, contribua para o desenvolvimento do continente e inclusive modere o comportamento de seus sócios. Em matéria de negócios, há uma competição substancial óbvia, mas também uma série de associações voltadas aos mercados africanos, como a relação entre o Standard Bank, da África do Sul, e o ICBC (Banco de Indústria e Comércio) da China.

IPS: O Brics ou o Ibas chamam a atenção de Bruxelas, Washington e Tóquio?

PD: O Brics concentrou muita atenção, a maioria profundamente cética. O Ibas também atraiu a atenção quando foi criado, mas desde que surgiu o Brics, em minha opinião, ficou fora do radar. Obviamente, toda agrupação que inclua a China será minuciosamente observada no Ocidente.

IPS: Qual é sua análise sobre o apoio da Rússia ao Brics, após seu retorno de Moscou?

PD:Creio que o levam a sério e acreditam que serve para coordenar políticas nas negociações internacionais e como forma de apoiar os esforços para substituir o dólar como divisa nas transações globais. Mas não vejo Moscou apoiando o Banco de Desenvolvimento do Brics, que foi sugerido, pois já apoiaram a criação do Banco de Desenvolvimento Euroasiático, onde colocaram suas reservas. No tocante a grandes projetos, o Brics tem suas limitações. Envolverde/IPS (END/2013)