Falta uma estratégia para enfrentar a “crise civilizatória”

Posted on 25 June 2012 by admin

Por Mario Osava

RIO DE JANEIRO, 23 junho (TerraViva)  A Conferencia Global para os Assentamentos Humanos (Habitat II), em Istambul há 16 anos, foi das mais abertas à participação da sociedade civil, senão a campeã. Acolheu num grosso volume conclusivo milhares de  propostas e recomendações dos participantes.

Estava fadado ao esquecimento. “Faltou estratégia”, avaliou Jaime Lerner, certificado como grande urbanista pela inovadora gestão de Curitiba décadas atrás.

Sociedade civil: desejo de soluções rápidas para demandas complexas. Crédito: Ana Libisch

A Rio+20, pela via oposta, terminou também sem permitir que se vislumbre uma estratégia para desarmar a armadilha em que se meteu a humanidade. Propostas das ONGs foram excluídas. Mas poderia a conferencia governamental, com 99 por cento de países capitalistas, digerir as teses anticapitalistas do fórum não governamental ?

A Declaração Final da Cúpula dos Povos na Rio+20 assume o “desafio urgente de frear a nova fase de recomposição do capitalismo”, em que “o povo organizado e mobilizado” é a única forma capaz de “libertar o mundo do controle das corporações e do capital financeiro”.

A principal contribuição dessa Conferencia sobre Desenvolvimento Sustentável pode ser um choque de realismo como estímulo a uma reflexão, a partir do reconhecimento de realidades ignoradas tanto na pretensão de se apontar “O futuro que queremos” no documento oficial, como na de reunir uma “Cúpula dos Povos” no Aterro do Flamengo, sugerindo uma hierarquia rejeitada por esses mesmos “povos” quando se reúnem no Forum Social Mundial.

Essa busca de novos caminhos já começou. Um movimento lançado neste sábado no Rio de Janeiro, o Rio+20+1 dia ou “Day After”, pretende construir uma proposta de “Um novo Contrato Social para o século XXI”, atualizando idéias do pensador Jean Jacques Rousseau, cujo tricentenário se comemora este ano.

A iniciativa, idealizada pelo diretor executivo da UNITAR (Instituto da ONU para Formação Profissional e Pesquisa), Carlos Lopes, foi inaugurada com a presença do presidente do Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC), Rajendra Pachauri, e do economista do ecodesenvolvimento, Ignacy Sachs, entre outros.

Há um certo consenso sobre a necessidade de um novo padrão de produção e consumo. Mas seguem indefinidos tal paradigma e o como alcançá-lo, temas de discórdia inevitável. Ninguém, mesmo entre os anticapitalistas da “Cúpula”, fala em revolução social.

O impasse evidenciado pela Rio+20 põe em cheque concepções voluntaristas. Muitos cobram liderança com “ousadia, coragem de estadistas” aos atuais ocupantes do poder, como forma de resolver a “crise civilizatória” em que se combinam crises variadas como a ambiental, a econômica, a social e ética. Acaso queremos a volta dos déspotas esclarecidos ?

O impeachment do presidente paraguaio, Fernando Lugo, coincidindo com a Rio+20, deixa claro que governantes também têm seus limites. Devem responder aos interesses reais da sociedade nacional e à correlação de forças, que se expressam no poder político e econômico, não nas pesquisas de opinião em que uma maioria diz ter preocupações ambientais.

A ausência de Barack Obama na Rio+20 se atribuiu aos riscos que o mais poderoso homem da Terra enfrenta nas eleições de novembro próximo. Assumir compromissos ambientais ameaçaria sua reeleição.

O descompasso entre a dinâmica política de curto prazo e o longo prazo das questões ambientais seria outro obstáculo ao equacionamento dos desafios. Mas está fora de cogitação alongar os mandatos e exemplos recentes mostram a crescente intolerância com a longevidade no poder.

Uma nova institucionalidade parece indispensável para enfrentar ameaças à humanidade, como as mudanças climáticas, a redução da biodiversidade e da disponibilidade de água potável, a acidificação dos oceanos e a desertificação.

A conferência do Rio debilitou o multilateralismo, acatando a tese americana a favor de iniciativas nacionais, contra acordos globais vinculantes, concluiu a ex ministra Marina Silva. A ONU foi “capturada por interesses corporativos”, segundo muitos outros ativistas.

Nesse quadro, não parece prometedor criar uma nova agencia para temas ambientais na ONU, a exemplo da Organização Mundial de Saúde ou do Comercio, principal proposta para uma governança necessária nessa área.

Também não se avançou na questão do financiamento do desenvolvimento sustentável. A proposta de países emergentes pela criação de um fundo de 30 bilhões de dólares foi vetada, principalmente pelos Estados Unidos.

Mas na reunião das 20 maiores economias, nesta mesma semana no México, se aprovou um aporte de 456 bilhões de dólares para o Fundo Monetário Internacional, dos quais 75 bilhões oferecidos pelos emergentes do BRICS (Brasil, Russia, India, China e África do Sul), numa clara indicação de que a prioridade é “salvar os bancos”, se queixam os ativistas.

Diante dessa complexidade dos problemas globais são inócuas manifestações tautológicas de que precisamos de novos paradigmas de consumo. Há medidas de evidente eficácia, como a eliminação dos subsídios aos combustíveis fósseis, que somavam 409 bilhões de dólares no ano passado, segundo a Agencia Internacional de Energia. A tendência é de subir para 660 bilhões em 2020. Por que não se consegue sequer reduzir esse incentivo à destruição da vida, como se tem conseguido em relação ao tabaco?

Outra ação de resultados significativos, tanto ambientais como sociais e de saúde, é disseminar fogões eficientes a lenha, já desenvolvidos, ou mesmo substituir esse combustível ainda usado por três bilhões de pessoas no mundo.

Falta ao “povo organizado”, na verdade dividido em ONGs, sindicatos, movimentos sociais e entidades variadas com seus objetivos específicos, uma estratégia comum para tornar políticas públicas as experiências eficientes na área socioambiental e influir nas decisões nacionais e mundiais determinantes para o destino da humanidade.

Os caminhos para uma eficácia política, reprovada ou descartada a via partidária, deveriam aparentemente merecer uma maior reflexão por parte dos militantes. (TerraViva)

(FIM/2012)

Download PDF File

Download TERRAVIVA PDF File
Download TERRAVIVA PDF File   Download TERRAVIVA PDF File

 
ADVERTISEMENT
ADVERTISEMENT

 
Expo Milano
 

Photos from our Flickr stream

See all photos

RECENT VIDEOS

Terraviva talks to Giuseppe Sala, CEO of EXPO Milano 2015 Expo Milano 2015 is in Rio to kick off its global dialogue on food and energy. During a side on June 21, CEO Giuseppe Sala gives an overview of the Expo 2015 that will run from May to October in Milan, Italy.more >>.

Upcoming Events


 

RSS News from our partners

  • Are you ready to Connect4Climate?
    World Bank's social media campaign engaged African youth caring about climate change.
  • Natural capital accounting
    Thomson Reuters Foundation and the World Bank have jointly produced a video explaining the concept of “natural capital accounting” in the run-up to the Rio+20 summit on sustainable development. The seven-minute video news release (VNR) was created as part of a World Bank campaign for countries to carry through on promises to include the full [...]
  • IUCN World Conservation Congress
    IUCN, the International Union for Conservation of Nature, is a long standing member of COM+. It helps the world find pragmatic solutions to our most pressing environment and development challenges by supporting scientific research; managing field projects all over the world; and bringing governments, NGOs, the UN, international conventions and companies together to develop policy, [...]
  • IFC, Union for Ethical BioTrade Encourage Businesses to Protect Biodiversity in Latin America
    Rio de Janeiro, Brazil, June 17, 2012—IFC, a member of the World Bank Group, and the Union for Ethical BioTrade today announced an agreement at the Rio+20 Conference to increase private sector awareness of biodiversity and strengthen market frameworks for protecting it in Latin America. In addition to aiding environmental conservation, the partnership will help [...]
  • Rio de Janeiro e Banco Mundial lançam inédito Programa de Desenvolvimento de Baixo Carbono da Cidade
    RIO DE JANEIRO, 18 de junho de 2012 – A Cidade do Rio de Janeiro e o Banco Mundial lançaram hoje, durante a Cúpula dos Prefeitos – evento paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável-Rio+20 –, um programa pioneiro na esfera municipal para colocar em prática ações para o desenvolvimento de baixo carbono [...]

Sponsors and Partners of TerraViva Rio + 20


 
   
 
 
   
 
 

TerraViva is an independent publication of IPS Inter Press Service news agency. The opinions expressed in TerraViva do not necessarily reflect the editorial views of IPS or the official position of any of its sponsors or partners.
 

SOCIAL MEDIA